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domingo, 25 de março de 2012

Aula de 06 de janeiro de 1982, 2ª hora

Podemos chamar de filosofia uma forma de pensar que busca, sobretudo, determinar as condições, possibilidades e limites do sujeito em seu acesso ao que é verdadeiro. Podemos, também, nomear como espiritualidade todo um conjunto de exercícios e de práticas que transfiguram o sujeito, fazendo-o "pagar um preço" para ter acesso a esta verdade. Por toda a Antiguidade, o tema da filosofia ("como ter acesso à verdade?") e as questões espirituais ("quais são as transformações no ser mesmo do sujeito necessárias para ter acesso à verdade?") são duas problemáticas que nunca foram abordadas em separado (Aristóteles de Estagira é exceção). Houve um momento, no entanto, em que o "acesso à verdade", tornado desenvolvimento autônomo do conhecimento, desvinculou-se dessa exigência de transformação do sujeito. O rompimento entre os dois elementos, constantemente examinado pelo lado da ciência, examinado como um movimento de cientifização do saber, tem sua história investigada por M. Foucault pelo lado da teologia.

Ao adotar a fé como vocação universal do sujeito - isto, a partir do século V - o cristianismo funda um sujeito do conhecimento que tem em Deus seu ponto de saber e realização absolutos, seu modelo e seu criador; a correspondência Deus-Sujeito, aí gerada, desprende o pensamento das condições de espiritualidade que o acompanhavam, visto que ao cristão basta crer, e não mais transfigurar-se asceticamente para ser arrebatado pela verdade. O tal desprendimento não se deu, em abrupto, com o aparecimento da ciência moderna. Aqui, nota-se, não havia oposição entre ciência e espiritualidade (vide as práticas de conhecimento espiritual, os saberes esotéricos, a alquimia), mas entre pensamento teológico e exigência de espiritualidade, a grande tormenta pela qual o cristianismo teve de atravessar, tormenta que teve o seu ponto alto em Descartes. Muito da filosofia do século XIX  (Foucault cita Hegel, Schelling, Schopenhauer, Nietzsche, o Husserl da Krisis der europäischen Wissenschaften e Heidegger), inclusive, pode ser considerado como tentativas de se repensar a espiritualidade (no sentido exposto, de transformação do ser do sujeito em sua relação com a verdade) no interior da investigação filosófica que, desde Descartes, procurava expurgar essas mesmas estruturas do pensamento [aqui, eu coloco uma questão pra gente: não seria a dúvida metódica cartesiana, à sua maneira, uma ascese, já que o sujeito "entra de um jeito" (o René concreto, de robe de seda, com a pena nas mãos, sentado à beira do fogo...) e "sai doutro" (um sujeito do conhecimento impessoal, que é uma pura razão bem aplicada à realidade, ela mesma clara e distinta)?...].

O curioso é que essa estrutura de espiritualidade é usada pelo cientista para reconhecer as "falsas ciências" - que, para serem acessíveis, demandam uma "conversão" do sujeito, e prometem, ao cabo desta conversão, uma iluminação do mesmo - e, de imediato, nela Foucault reconhece formas de saber como a psicanálise e o marxismo, já que tanto o neurótico recalcado quanto o alienado em seu modo de produção precisam duma alteração no ser-mesmo para atingir o verdadeiro, o retorno do recalcado à consciência, a consciência de classe que levará à revolução, mas de maneira nenhuma as considera como práticas espirituais neste mesmo sentido especificado, já que fazem equivaler esse acesso à verdade a formas de organização social (a formação do analista, o pertencimento a um partido, um grupo sindical, uma escola teórica). Foucault diz de Lacan como o único psicanalista, pós-Freud, a querer recentralizar a questão da psicanálise nas relações entre sujeito e verdade, e pergunta, então:
"é possível, nos próprios termos da psicanálise, isto é, dos efeitos de conhecimento portanto, colocar a questão das relações do sujeito com a verdade, que - do ponto de vista, pelo menos, da espiritualidade e da epiméleia heautoû - não pode, por definição, ser recolocada nos próprios termos do conhecimento? (grifo meu)"

Não ousando responder a questão, Foucault dá continuidade à aula e traz, para análise, um  texto filosófico que constitui, a seu ver, a própria teoria do cuidado de si, do princípio "ocupar-se consigo", que não foi - faz notar - em sua origem uma recomendação para filósofos, mas um princípio corriqueiro da cultura grega antiga ligado a um privilégio político, econômico e social; esse tal texto é o Alcibíades, de Platão.

No início do diálogo, o jovem Alcibíades - reavivando a "antiga questão homérica", a questão de morrer hoje ou levar uma vida que não nos legue nada mais além do que já se tem - é abordado por Sócrates, que o faz reparar que, diferente dos seus outros enamorados, jamais o tinha abordado, e só hoje, com o moço envelhecendo e perdendo beleza, disto se decidiu. Além disto, ardia no espírito de Alcibíades a vontade de tirar algum tipo de proveito do seu status na cidade. Que queria Sócrates? Transformar os privilégios estatutários de Alcibíades (relações e contatos, família nobre, posses) em ação política, em governo de si  próprio que descamba em governo dos outros; o fato de Sócrates só agora ter decidido achegar-se a Alcíbiades, só agora que o jovem começava a perder sua beleza, diz de um amor e um cuidado pelo mancebo que não é o amor e o cuidado pelo corpo, mas pelo próprio Alcibíades, pelo próprio ser de Alcibíades. Foucault coloca como situação semelhante (mas ao contrário...) o que ocorre no relato de Xenofonte dum encontro entre Sócrates e um outro jovem, chamado Cármides: é preciso encorajar Cármides que, tímido, não ousa aplicar sua sabedoria na ação pública (é preciso noûn prósekhe); já no "Caso Alcibíades", trata-se de um jovem que planeja transformar suas vantagens na cidade em ação pública efetiva (é preciso epimélesthai heautoû).

Caso Alcibíades venha a governar (n)a cidade, deverá enfrentar dois tipos de adversários: os rivais internos, provenientes da mesma cidade (afinal, não se é o único a querer governar os outros); e os inimigos da cidade (em especial, os espartanos e os persas). Dadas as condições, Sócrates clama a Alcibíades que se averigue e se compare com tais adversários, a fim de saber se tem a mesma riqueza e educação que os tais (e, de fato, não têm; Alcibíades não pode comparar sua formação e suas posses a de toda a Esparta e de todo o Império Persa). Aparece, neste ponto do texto, uma referência explícita ao gnôthi seautôn, mas apenas como uma indireta, um conselho de prudência, e não uma abordagem do princípio délfico ele mesmo. No entanto, essa referência não consiste apenas em ser menos rico e educado que seus rivais e inimigos, mas em não ser capaz de compensar tais defeitos com um saber, uma tékhne. Sócrates, por meio duma longa sequência de interrogações (o velho, clássico e sufocante procedimento dos diálogos socráticos), demonstra a Alcibíades que lhe falta a tékhne que lhe permitiria bem governar a cidade e competir, de igual para igual, com os rivais (que é bem governar a cidade, que é essa concórdia que reina quando  a cidade é bem governada? Alcibíades não sabe responder...). É aqui que o "ocupar-se consigo" faz sua primeira aparição no discurso filosófico, com o destaque dos seguintes aspectos do diálogo:

  1. A necessidade de cuidar de si está vinculada ao exercício do poder (fórmula espartana de Alexândrides); não se pode bem governar os outros (transformar os próprios privilégios em ação política pública, em ação racional sobre os outros, como queria Alcibíades) se não se está ocupado consigo mesmo; a noção do cuidado de si emerge entre o privilégio e a ação política;
  2. A necessidade de cuidar de si mesmo está vinculada à insuficiência da educação de Alcibíades (melhor, à insuficiência da própria educação ateniense, sob dois aspectos: 2.1) o aspecto propriamente pedagógico, e 2.2) o aspecto erótico, já que o amor dos homens para com Alcibíades não teve a função que deveria ter, a de incitar os enamorados a "ocupar-se" do próprio Alcibíades, e não apenas de seu corpo);
  3. Na Apologia de Sócrates, vemos a epiméleia heautoû como uma função geral de toda a existência; mas no Alcibíades ela aparece como um momento necessário na formação da juventude;
  4. A necessidade de ocupar-se consigo é emergente, é urgente, não no momento em que Alcibíades mostra sua intenção de se projetar na política, mas quando percebe que ignora a natureza do objeto com que tem que ocupar-se (ignorava que ignorava);
 Neste momento, duas questões - vinculadas uma a outra - emergem. Quando se diz que é preciso cuidar de si mesmo, que si mesmo é esse de que é preciso cuidar? E mais, qual o si mesmo, qual o eu de que devemos nos ocupar para poder ocupar-me com os outros, a quem devo governar? É essa, repito com Foucault, a primeira emergência do cuidado de si como questão na filosofia antiga, emergência que será melhor tratada e retratada na aula seguinte...

terça-feira, 6 de julho de 2010

A ressalva faz outra verdade

Muita chuva. Muito guarda-chuva. Muita lama. Muita bota. Guarde a bota e a guarda. Chuva e lama são um outro acontecimento quando molham e melam.

sábado, 29 de maio de 2010

Metodologia Temporal

Já no escritório, após sair da Rodoviária com João e Maicon, conversa vai, conversa vem, e João (creio) insinua uma possibilidade de método para o nosso fazer. É mais uma expressão em busca de sentidos possíveis. Metodologia Temporal (MT).
Quem está na chuva é para se molhar. Molham-se os que correm da chuva e os que ficam na chuva. A MT volta-se para os dois casos, creio.
Os que correm da chuva, melhor do temporal, levam seus suspiros e correntes de água, mesmo sem querer; pelo corpo, nos calçados e bainha das calças, por exemplo. Mas tendem a se sentir secos quando protegidos. O que sabem da experiência?
Os que mergulham no temporal e embriagam-se com o vento e a precipitação da água, são conexões com o fenômeno, e sem poder ser nele ou mesmo ele, com ele se encontram, como um par.
Depois disso, podem dizer da experiência numa outra articulação.
Será que faz sentido? "Será que vai chover?".
Convenço-me que estou latoutando. E aí?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

São Paulo, domingo, 18 de outubro de 2009


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+(s)ociedade

Ratos de laboratório
Três livros dissecam as fraudes em experimentos científicos e como universidades e centros de pesquisas tentam acobertá-las


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Isaac Newton já foi acusado de errar cálculos em seus trabalhos sobre luz e óptica
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CLIVE COOKSON

O biólogo sul-core- ano Woo-suk Hwang, especialista em células-tronco, fez manchetes em 2005 por ser a primeira pessoa a clonar embriões humanos. No ano seguinte seu nome voltou a frequentar os jornais, dessa vez porque se descobriu que seus resultados eram falsos.
A fraude em pesquisas é um dos segredos culposos do mundo científico. Acadêmicos e administradores costumam ignorar os erros de conduta cometidos em pesquisas, a não ser que um caso de desonestidade seja tão gritante que se torne obrigatório tomar uma atitude a respeito. Eles gostam de afirmar que a fraude é uma nódoa rara a macular o rosto aberto e confiável da ciência.
Entretanto, os poucos acadêmicos seniores que estudam os erros de conduta de cientistas dizem que os responsáveis pelas políticas do setor subestimam gravemente a prevalência desse mal.
Michael Farthing, vice-reitor da Universidade de Sussex [Reino Unido], estima que as universidades britânicas orientadas às pesquisas apresentam, em média, um caso sério de fraude por ano, totalizando anualmente cerca de 40 fraudes importantes apenas nesse país.
Nicholas Steneck, da Universidade de Michigan e cronista americano destacado dos erros de conduta científicos, acredita que entre 0,1% e 1% de todos os pesquisadores -ou seja, milhares de pessoas em todo o mundo- cometem "práticas seriamente erradas". Só uma minúscula parcela dos casos chega ao conhecimento da mídia; a maioria nunca chega a ser detectada ou relatada, e as instituições costumam tratar sem alarde os poucos casos dos quais tomam conhecimento. Três livros muito diferentes agora procuram trazer os erros de conduta científica para o centro das atenções.
Woo-suk Hwang ainda é o fraudador científico mais famoso. Mas o mais prejudicial, em termos do número de descobertas que falsificou e dos colegas respeitados que induziu ao engano, foi Jan Hendrik Schön. Ele foi visto como jovem nome promissor da física até que seu engodo espantoso foi descoberto, em 2002. Schön prometeu revolucionar a eletrônica. Especializou-se em "persuadir" materiais orgânicos -plásticos- a demonstrar propriedades antes desconhecidas, incluindo a supercondutividade e a emissão de luz laser.
Cientistas de uma dúzia dos maiores laboratórios de física desperdiçaram anos de esforços e milhões de dólares tentando reproduzir e explicar as descobertas feitas por Schön, ao longo de quatro anos, na mundialmente famosa Bell Labs, em Nova Jersey [EUA], e que foram publicadas nos periódicos de primeira linha "Science" e "Nature".

Busca transatlântica
Agora, a jornalista Eugenie Samuel Reich, especializada em investigações de fraudes, montou a história de Schön em "Plastic Fantastic" [ed. Palgrave Macmillan, 200 págs., 15,99, R$ 44], um trabalho maravilhoso de redação forense.
Schön tinha 31 anos quando a Bell Labs o demitiu, em 2002, após um relatório externo ter detalhado sua fraude. Fugiu para a Europa, e Reich o rastreou e falou com ele ao telefone, mas Schön se negou a explicar suas ações ou motivações.
Por isso, o livro é baseado na investigação das publicações de Schön e em entrevistas com 125 colegas e cientistas que interagiram com ele. Olhando em retrospectiva, é espantoso que todos tivessem confiado por tanto tempo no jovem e simpático alemão. As pessoas se culparam quando não conseguiram reproduzir os experimentos dele e aceitaram desculpas educadas que apresentava para não lhes mostrar seus materiais e equipamentos.
Mas não há nada de novo nas acusações de erro de conduta. Historiadores já acusaram Isaac Newton [1642-1727], fundador da física moderna, de errar cálculos em seus trabalhos sobre luz e óptica.
O espectro das fraudes e dos erros de conduta pode abranger desde a falsificação em grande escala de experimentos, como nos casos de Hwang e Schön, até a modificação mais ligeira de algo que o pesquisador vê como leituras falhas em um instrumento.
Um dos projetos mais famosos na história da ciência foram os experimentos de Gregor Mendel, no século 19, com a reprodução de ervilhas. Mas seu trabalho vive há anos à sombra de acusações de que seus resultados teriam sido estatisticamente "bons demais para serem verdadeiros" -ou seja, de que deve ter adulterado dados para os adequar a sua teoria emergente do que hoje chamamos de genes dominantes e recessivos. O biólogo e estatístico britânico R.A. Fisher sugeriu que os dados deveriam ter sido falsificados -embora, provavelmente, por um assistente, não pelo próprio grande monge.
A probabilidade de que dados reais se encaixassem nas proporções esperadas por Mendel entre características dominantes e recessivas teria sido de sete em 100 mil, calculou Fisher. Cientistas e historiadores discutem há anos a validade ou não da conclusão de Fisher. Em "Ending the Mendel-Fisher Controversy" [Encerrando a Controvérsia Mendel-Fisher, Universidade de Pittsburgh, 330 págs., US$ 27,95, R$ 48], cinco especialistas, encabeçados por Allan Franklin (Universidade de Colorado), fazem a defesa de Mendel.
Absolvem Mendel e seus assistentes da acusação de fraude proposital -embora ele possa ter deixado de levar em conta observações que teriam tornado suas descobertas menos nítidas e contundentes.

Ficção
Já Allegra Goodman teve pleno acesso a Cliff Bannaker quando escreveu sobre sua alegada fraude no Instituto Philpott, em Cambridge, Massachusetts -porque Bannaker é fruto da imaginação dela. "Intuition" [Intuição, Atlantic Books, 344 págs., 12,99, R$ 36], o terceiro romance da autora, é um brilhante relato fictício do que pode levar um cientista a manipular dados.
Bannaker não é um fraudador, como Schön ou Hwang; é mais um selecionador de dados ou alguém que usa dados imprecisos, como Mendel. O que o move, além do desejo de honra e glória científicas, é uma forte convicção intuitiva de que sua cepa de vírus respiratório sincicial é capaz de converter células cancerosas em células normais.
Ele persiste em seus experimentos, apesar de receber ordens da direção do laboratório para suspender o trabalho. Com o tempo, começa a registrar regressões espetaculares de tumores em animais. A intuição e o ciúme motivam a ação de sua acusadora principal, Robin Decker.
Este é um romance, é bom recordar, de modo que Decker está longe de ser uma parte imparcial -é uma colega pesquisadora pós-doutoranda cujo trabalho não está indo a lugar nenhum, e é também a namorada a quem Bannaker não anda prestando a devida atenção. Goodman cria uma obra-prima de ambiguidade, mas o que apresenta muito bem é o fato nu e cru acerca da ciência que muitos de nós preferimos esquecer: que cada "prova" e cada "verdade" nos são trazidas por humanos, que estão muito longe de serem infalíveis.

Fraudadores amigáveis
As motivações variam, mas uma característica de muitos fraudadores científicos é sua certeza de que estão com a razão. Mas o caso de Schön parece ter sido diferente. Não era um grande pensador independente, motivado por sua crença em suas próprias ideias brilhantes.
Como Reich demonstra, ele pegou as melhores ideias aventadas por outros pesquisadores em seu campo e, então, aparentemente, as colocou em prática. Se alguém tecia especulações sobre como criar um supercondutor orgânico ou um laser de plástico, Schön colocava a ideia em prática.
"Assim, não surpreende que os cientistas tenham ficado tão maravilhados com os artigos dele", escreve a jornalista. "Schön convertera as melhores ideias deles em dados falsificados que não podiam deixar de ser atraentes. Isso ajuda a explicar a razão pela qual as afirmações dele foram tão bem recebidas e também por que elas tiveram algo em comum com resultados posteriormente obtidos de fato por outros cientistas."
Os três livros sugerem que os fraudadores científicos bem-sucedidos tendem a ser pessoas simpáticas e amigáveis, como os fraudadores financeiros que procuram arrancar dinheiro de suas vítimas. Evitam fazer inimigos que possam procurar evidências de erros de conduta e então os expor.
Schön continuou por tanto tempo por ser alguém que se mostrava ansioso por agradar as pessoas; Bannaker teria podido evitar o sofrimento a que foi exposto se tivesse tratado melhor sua namorada. Os cientistas gostam de falar da natureza "autocorretora" das pesquisas científicas -o fato de que experimentos falhos serão corrigidos por trabalhos futuros. Mas Reich argumenta que a autocorreção quase falhou no caso de Schön.
Ele acabou sendo exposto não pelas dezenas de pessoas que tentaram reproduzir seu trabalho e levá-lo adiante, mas por dois físicos que observaram que Schön usara dados idênticos em artigos sobre dois experimentos diferentes, publicados respectivamente pela "Nature" e pela "Science".
Para Farthing, mais preocupante ainda que os casos sérios de fraude é "a corrente subjacente de modificações ligeiras de resultados, algo que ocorre com muito mais frequência e que vem perturbando a literatura científica". As novas tecnologias ampliam as possibilidades de modificações, por exemplo com a manipulação digital sutil de imagens.
Universidades e instituições de pesquisa vêm há 20 anos intensificando a contragosto seus esforços para fazer frente ao problema. Mas os mecanismos para detectar, relatar, investigar e resolver erros de conduta em pesquisas científicas ainda são insuficientes.
Deveria ser possível para cientistas procurar mais ativamente por sinais de desonestidade entre seus colegas -por exemplo, quando examinam artigos no processo de revisão por pares, que antecede a publicação-, mas sem destruir a confiança entre pesquisadores, da qual depende a condução eficiente da ciência.



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A íntegra deste texto saiu no "Financial Times". Tradução de Clara Allain .

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1810200916.htm

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Carta a uma amiga que inventa

Crônicas de um trabalho docente: A invenção como imanente a vida (Título da tese de Ana Paula)

A escrita da Paula me coloca uma questão, antes mesmo que ela comece a colocar as questões que envolvem a sua discussão, naquilo que é formal na organização de uma tese. Paula se nega a fazer uma introdução do seu trabalho. Traz para si uma vontade de autonomia para quem escreve e para quem vai ler. Daí, rapidamente, diz de uma política de estabelecer protocolos para produção de textos acadêmicos, a qual ela não quer se inserir. Diz que sua tese é uma quebra de protocolo e que seu texto fora escrito com uma vontade de ser útil, de modo não protocolar.
É daí que estabeleço uma questão desde já. Melhor, estabeleço uma problematização que vai nortear a minha fala aqui; hoje. Como ler algo que se quer útil e não diz de um modo de otimizar essa utilidade? Parece algo muito estranho, se constratado como os modos de escrever no contemporâneo.
É raro, hoje em dia, se deparar com uma escrita, seja ela acadêmica, literária ou técnica, onde não exista um modo de decodificação posto aos olhos dispostos à leitura. Aprendemos isso na escola, em casa e na rua. Aprendemos isso com a supervalorização que a imagem possui na atualidade. Paul Virilio denuncia essa situação onde um modo de viver acelerado induz um consumo instantâneo das imagens. Consumo instantâneo das coisas, só é possível quando pre-existe uma codificação que relaciona um ponto ao outro, que serializa cadeias de relação entre as coisas, antes mesmo que essas coisas se façam, aconteçam.
Paula, na política de escrita que utiliza para falar do trabalho docente, encontra um modo de resistir a esses modos seriais de dizer e de viver. Faz uma aposta no jogo jogado e denuncia o jogo arrumado.
Daí, Paula diz que seu trabalho de produção de tese se faz como uma cartografia, e de como essa experiência se dava e que ganhava linhas. São variadas as experiências que confirmam essa decisão metodológica no seu texto, no desenho que foi ela procedendo, sem que houvesse antes uma imagem que pudesse refletir ou ter por referência.
Paula assim, nas suas crônicas, perforre movimentos, percepções, sensibilidades, relacionamentos que se fazem palavras na produção de sua carta; de seu texto. Dispõe uma heterogenese em folhas a serem impressas em papel A4, e agora, ali sentada, aguarda a leitura institucional daquilo que fez. É impotante lembrar que ela, ainda no texto, diz também que não o fez sozinha. Muitos, uma multidão lhe acompanhava na produção das páginas.
Mas isso que foi cartografia para a Paula-hifem-multidão (explicar se for o caso), merece ser lido, pensado e vivido agora apenas como um mapa, que é a coisa mais objetiva que se pode falar de uma tese? Ou é possível um outro modo de leitura para essa escrita?
Bom, minha experiência é pouca no ramo de falar de teses. Assim, como um noviço nesse tipo de demanda, posso confessar aqui, que ainda não aprendi a ler teses como teses. Por isso, peço licença aos companheiros de banca, para não ler a tese da Paula, como uma tese, no sentido mais estrito que essa palavra possa ter. Digo que esse pedido não trata de um desejo do meu eu. Trata-se antes de uma impossibilidade minha, que diante desse texto não ver como ser um EU que sabe ler teses. Principalmente quando a tese, já desde a sua não-introdução, sugere ser outra coisa além de tese.
Assim sendo, vou buscar a melhor coisa que creio ser possível, para percorrer esse texto e depois falar dele. Vou buscar uma intangível alteridade de ser Multidão-hifem-Paula-Simone, Nice, Virginia, Adriano-Teresa-Lia-Rosana-Roberta-Lidia-João-Beth-Povo-da-Beth-Instituições de ensino privadas e públicas, bergon, foucault, deleuze, pássaro azul e mais um bocado de outras possibilidades não nomeadas. Assim quem sabe, possa encontrar a cadência de escrita para dizer dessa leitura. Assim quem sabe, possa fazer parte dessa diferença, que grita ao ouvir a ordem de silêncio. Assim, quem sabe, possa utilizar a precariedade do ser professor, não apenas como um estado de falta, mas como uma condição de insuficiência. Retirei essas duas possibilidades de leitura do dicionário do Houaiss.
Olhando lá o termo e fazendo dele uma leitura um tanto quanto intuitiva, pensei que a condição de precariedade só é falta, quando o sujeito se quer absoluto, melhor resoluto em seus propósitos. Se o sujeito se diz insuficiente, ele não se torna refém daquilo que se mostra precário, pois ele já assumiu essa condição para si. Condição de passagem. Condição de não se querer perpétuo. Uma política de estar na multidão. Uma ética de ser apenas depois da experiência. Uma estética de não instrumentalizar as cores que usa para pintar. Eis em mim, a condição de insuficiência. Uma insuficiência que não se representa. Que não se quer entre o mais e o menos. Uma insuficiência sem relógio de pulso. Uma insuficiência da utilidade no mundo do descartável.
Assim, aqui vou por atalhos. Passo pela página, melhor pela latitude 141 de sua carta, quando ao entrar para dar uma aula numa instituição privada de ensino, um professor ao fechar a porta, imaginava a sala num outro espaço institucional em busca de fazer o insuficiente num espaço que se queria suficiente. Lembro que vivi e sobrevivi por quase seis anos trabalhando no ensino privado, utilizando dessa tática. Quase sempre. Muitas vezes a utilizava de modo solitário para fazer passar o tempo da obrigação do fazer, noutras de modo compartilhado, pois pesava também para os alunos a condição de suficiência, de vigilância da manutenção dos níveis de comportamento previamente estabelecidos. Acontecimentos alegres e tristes, como os que você relata em suas crônicas.
Bom, agora estou há três anos no ensino superior público e semana passada, quase entrei em pânico, quando por pouco não reviveu em mim a tática disposta na latitude 141, já experimentada por mim em outros territórios.
Em alguma outra latitude de sua carta, você diz que é frágil a fronteira entre as instituições de ensino público e privado. Relia sua carta, quando passei por essa experiência que vou dizer aqui de modo breve. Experiência que articula as cidades de aracaju e vitória, que relaciona a possibilidade de ser um eu com a possibilidade de estar na multidão.
A universidade federal de sergipe, onde trabalho, vive um violento processo de expansão. Nesse tempo que estou lá, dobraram número de alunos, de cursos de graduação, de professores. Triplicaram os cursos de pós-graduação, de alunos vinculados ao pibic e por aí vai. Uma revolução se fez na cultura do Campus. Prédios se edificam a todo momento e os espaços para estacionamento de carros estão esgotados. Entretanto, as marcas desse processo se estabelecem essencialmente na política do mais e do menos. Na contabilidade gerencial que busca anular a paixão, a autonomia e a singularidade que emergem nos movimentos da multidão.
Veja só, semana passada, eu fui ao encontro de uma turma de Psicologia Geral, com 55 alunos, de pelo menos oito cursos diferentes. Íamos lá falar de William Wundt e a experiência imediata. Cumprimento os alunos, faço a verificação de frequência e pergunto quem leu o texto. Cinco levantam a mão. Após essa resposta, algo passa a se movimentar em mim. Eu não sei o que é, mas sei do que se trata.
Percorre-me uma força estranha. Algo que naquele momento não me fazia bem e punha em questão o sentido do trabalho que deveria ser feito. Silenciei, mas via um transtorno se encaminhar em meu corpo. Bom, mas se uma força estranha leva Caetano Veloso, Roberto Carlos e uma multidão a cantar a plenos pulmões, desde o começo dos anos oitenta do século passado,não poderia essa força estranha me fazer calar naquele momento. Entre nós, aqui, eu já não sou muito de calar.
Voltando. Não poderia deixar retornar a condição de um silêncio que adoece, mas que me permitia fazer do sulficiente, insuficiente na UVV. Era uma tática de sobrevida e também de vida importante, mas lá havia um patrão e um salário que ele pagava. Nas instiuições públicas de ensino superior, o patrão não fala, não manda calar, não manda trabalhar. Enfim o patrão não manda.
Nessa turma, quantitativamente falando, frequentam as aulas, 44 alunos. Uma entrou há poucos dias em licença maternidade. Inventou um filho para deixar de assistir as aulas. Eis uma latitude interessante. Eis um atalho. Pensei com meus botões; esse povo precisa engravidar.
Perguntei quem estava com o texto. Quase todos.
Então pedi que o lessem por meia hora. Após esse tempo pedi que produzissem uma pergunta sobre o que leram, que necessariamente começasse por O QUE, ou QUEM, ou POR QUE, ou COMO. Cinco minutos para realizar a tarefa. Devo dizer que pedi também que colocassem o nome abaixo da questão produzida, dando assim um tom de avaliação ao procedimento.
Passados os cinco minutos, fui ter com eles. Todos haviam feito a tal questão. Disse eu então: Quem fez a questão começando com O QUE? Resposta: tantos de braços levantados. Quem fez a questão começando com Por que? Outros tantos. Quem fez a questão começado com a palavra quem? Menos, mas ainda alguns tantos.
Daí perguntei. Quem fez a questão começado com a palavra COMO? Um braço se levanta no meio da sala. Um braço, apenas um braço.
Daí fui conversar com eles sobre o que querem essas palavras quando perguntam. Para onde elas apontam. Que tipo de saber elas edificam e sustentam. Engraçado que o texto de trabalho anterior havia sido um que organiza a história da psicologia como campo de práticas e saberes, dispondo tanto lógicas e procedimentos hermenêuticas como também daquilo que Foucault, ao olhar pros inventos vivos dos gregos, deu o nome de estética da existência.
O texto não havia ainda reverberado nos estudantes e eu ali, buscando lidar com a tal força estranha. Buscado percorrê-la, antes que ela me percorresse.
Propus então a condição de gravidez aos alunos. Quem quizesse poderia ir embora e ficar em casa até o momento da avaliação. O tal do REUNI já fez isso antes de mim. Reprovado por falta e com média, toca adiante a vida na grade curricular.
Quem não quizesse engravidar, ficaria ali comigo. Por vontade, lendo os textos e participando das aulas. Dei 48 horas para decidirem, afinal engravidar não é coisa sem consequência. Na quinta-feira, voltaram todos. Perguntei quem estava preparado para engravidar. Ninguém levanta o braço e eu ainda estava a percorre a força. Não havia ainda a insuficiência necessária para a vocalização de um canto.
Insuflei a moçada. Aliviei os riscos. Disse que seria feito o mesmo trabalho da aluna gestante e que ela ainda não sabia que trabalho seria esse. Um aluno quis que adiantasse o ter do tal trabalho. Disse que não poderia fazer isso. Uma gravidez leva tempo e o trabalho seria o momento do parto. Não poderia ali me fazer parteiro ou anestesista. Também não era possível admitir que dava para ficar grávido e ter o filho no mesmo dia. Então ele desistiu. Continuamos a nossa negociação e encontramos um bom termo para os nossos encontros.
Não vou continuar nessa história, pois preciso voltar para esta, que fala mais alto em nosso presente. Voltar para esse momento em que escrevo para a Paula.
Paula, minha amiga. Creio que esses alunos que encontramos em qualquer lugar, denunciam tão bem como você, essa condição de precisar ser suficiente, quando o viver, o brincar de viver, demanda insuficiência.
Não vejo então outra possibilidade, que não levar a cadência que você traz para as nossas aulas. Para mim com eles. Quando você decide por um texto não providencial, de um modo muito aberto você me diz como não deixar que os alunos engravidem antes do tempo, antes que uma vontade potende articule tal decisão.
Fosse apostar, diria que esse alunos, que são pra mim, a melhor expressão dessa fronteira que instala indiferença na vida, quando muito, passaram seu tempo lendo textos da suficiência. Textos da sufuciência que os percorriam no ensino fudamental e médio. Aprendendo durante esse tempo a transformar a insuficiência que bem traziam em suficiência. Isso em qualquer disciplina. História, geografia, matemática, ciências, língua portuiguesa e literatura. Algo tipo assim. Aulas de literatura e interpretação do texto. Quem é o protagonista? Quem é o antagonista? Do que trata o texto? Não se pergunta que atalhos o texto produz em seus leitores.
A única aluna que fez uma questão com a palavra COMO, foi sem saber um atalho para que eu invertesse em mim, a relação com a tal força estranha. Entretanto, ela não sabia dizer bem o que lhe levou a fazer tal formulação. Disse que queria saber do processo. Só isso. Pode parecer muito. Pode parecer pouco. Mas pode também não se tratar disso. Melhor, assim como o seu texto, a questão dela, em mim, precisa não se tratar disso.
Desse modo a questão dela se fez rara, assim como é rara a sua tese. Sua carta-tese é rara em muitos sentidos. É rara em sua singularidade que expressa paixão, cuidado e compromisso. Isso é bom. Muito bom e bonito. Mas ela é rara também em frequência. Quando estava em formação acadêmica, não me foram disponibilizados textos como o seu. Textos-atalhos. Minto. As vezes apareciam, mas eram raros, escassos e distantes enquanto possibilidade de existência e utilidade. A arte lá, a gente cá.
Seu texto me trouxe aqui. Me trouxe até a UFES. A UFES onde cursamos psicologia.
Seu texto agora, carrego para a minha UFS, para que meus alunos, amigos e outros, possam saber da sua força e da sua escrita-multidão. Para que possam também saber que não é preciso saber tanto quanto diz uma condição de suficiência e que os protocolos podem existir. Devem existir. Mas eles não são condição para o belo, para o diferente, para a invenção. Eles são condição para a repetição. São condição para a necessidade. Para uma ordenação de crises que a própria ideologia da ordem ajudou a forjar.
Sua carta é outra coisa. Ele é o texto que precisa estar presente em todo dia. Precisamos perserverar no trabalho pela condição de insuficiência. Sabemos bem disso. Não sabemos bem como fazer isso, pois isso só se faz em ato.
Mas preciso dizer que sua carta me foi útil e que acredito que ela vai continuar sendo, pois é um belo invento e como bem diz você, a invenção é imanente a vida!
Agradeço a você e a Beth Barros pela leitura do texto e por estar aqui com vocês, tecendo esse acontecimento. É isso. Tenha meu abraço!

PS: Essa foi a minha fala ao participar da banca de doutoramento de Ana Paula Figueredo Louzada, junto ao PPGE/UFES

sexta-feira, 5 de junho de 2009

a escrita de uma escrita de nós

segunda-feira, 2 de março de 2009

aberto

achei que havíamos decidido sobre isso. daí fui lá e abrir as portas do blog a quem interessar possa. Se algum autor achar que não cabe, volto atrás. mas, o ponto franco do avaliador do trabalho do Lázaro é forte aqui e as pessoas precisam saber disso.