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sábado, 29 de maio de 2010

Histórias de um homem que viu Deus

Depois de uma semana, retorno ao banco disposto em frente a parada do ônibus que faz o trajeto para São Cristovão. Os ônibus carregam seu motor na parte da frente e esses em funcionamento, tremem a três passos dos bancos de espera, que são, já, o limite da passagem entre o terminal e os coletivos. Daí, quando nas paradas encontram-se todos os ônibus alinhados, forma-se um corredor ensurdecedor e de ar bastante carregado pela queima do diesel.
Acostumar-se a essa condição, para quem passa o dia ali, deve trazer em algum tempo, comprometimentos auditivos e respiratórios. Entretanto não se percebe com facilidade reclamações nesse sentido. Nem entre os ambulantes, os fiscais, os motoristas, os de passagem e outros. Pareço ser eu, o mais incomodado com essa situação. O barulhos dos infernos e o vapor das descargas dos ônibus, em uma tarde quente, provocam um certo mal estar. A pequena rodoviária, cravada no coração do centro da cidade, se incomoda pouco com isso.
Encontro um lugar no banco e sento. Preparo os ouvidos para o exercício que chamamos de “Forrest Gump as avessas”. Escutar. Sento entre duas mulheres que conversam com outras pessoas. Para a esquerda a mulher conversa com sua família e de lá escuto alguém sugerir a possibilidade de voltar para casa de Topic. Alternativas à rodoviária se fazem na sua adjacência. A senhora, com ares de cansaço e que é o centro das preocupações da família acena com uma recusa. A minha direito a outra mulher conversa com um homem, que adiante, buscará conversa comigo. Trata-se do homem que já viu Deus. Talvez essa peculiaridade tenha afastado rapidamente a mulher do banco.
Passados alguns instantes, Zé, o homem que viu Deus, já está ao meu lado e diz em voz baixa e grave dos risco de falar coisas ruins: “falar coisa ruim é ruim, falar coisa ruim é ruim...”. Não escuto bem e peço que repita e ele o faz, já trazendo a história. Disse que um homem, seu amigo, estava em coma no hospital. Levara 200 pontos na barriga, cem internos e 100 externos e que ele falava e fazia muitas coisas ruins. Que seria um matador e que encontrara sua sina; a vingança que um dia chega. Conta um pouco mais da história do matador e logo pula para a sua conversão. É disso que ele quer tratar.
Zé aparenta 40 anos. Não cheira a bebida. Camisa e bermuda bem surrada e nos pés um par de chinelos bem gastos. Moreno e na boca lhe faltam alguns dentes. Tem um fino bigode e cabelo curto e penteado. Esse homem diz que um dia fora ruim também. Que dizia e fazia coisas ruins, até que resolveu pedir a Deus uma transformação na vida. Sem apontar para ressentimentos, acerta com Deus que vai fazer e pensar coisas boas, somente. E Deus, ao seus olhos e ouvidos, parece ter aceitar o trato. Diz que morava numa casinha no pé da serra no município de Simão Dias, quando seu deu a aparição. Um homem alto, vestido de amarelo, que ficou de pé por cima de uma árvore, talvez, para Zé, como a dizer que dali em diante sua vida deviria seguir o caminho do bem.
Zé contou ainda algumas histórias com a presença de Deus em sua vida, até que um senhor, vestido a sertaneja e de chapéu senta ao lado de Zé em toma a palavra para contar de suas participações em guerras, de como sobreviveu a um acidente aéreo e das suas táticas para ganhar em jogos de azar. Apesar de ter nascido em 1935, conta das guerras de 1915 a 1945, insinuando ter combatido por ali. Zé não tem vez de voz diante de senhor de chapéu. “Olha ganhei na milhar 3447 com o acidente do avião da França. O avião era da Tam 447. Tam tem três letras. Aí botei 3, 447, trinta e quatro, quarenta e sete. Acertei a milhar. Ganhei 3 mil reais”.
Logo encosta o ônibus para São Cristovão. O velho levante e se despede e Zé me olha e diz como pode um senhor inventar tanta história. É nesse momento em que aparecem João e Maicon, e ao apresentar Zé a eles, incentivo-o a falar de sua vida espiritual para eles.
Nessa tarde ainda conversei com uma senhora que tinha três problemas graves na coluna, redução, bico de papagaio e outro, que não lembro ou ela não disse. Registro também o vendedor de bonecos do Pica-pau e a minha condição de aprendiz daquele universo de passagem. Sentar no banco e esperar as histórias pegarem outros caminhos.
PS: Zé me contou outras façanhas suas como o dia em que deus lhe deu um porco e da sua viagem a São Paulo, a pé, que durou três meses. Noutra postagem retorno com elas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

sobre os encontros de Julho

E assim se deu a falta. Naquela esquina onde comumente sentava meio que escondido a conversar com pessoas simpaticíssimas, por entre cestos de mangas, as quais tentara vender algum dia lá atrás, e grandes jacas expostas – é seis mais faz por cinco – estava um armado de alumínio e um cheiro de óleo fumegante tostando pastel e moendo de cana. Estranho. O senhor com saco plástico na cabeça, dono da pastelaria improvisada na feira, costumava ficar de frente para mim do outro lado da rua quando eu costumava sentar nas escadas da sorveteria conversando com seu Juscelino, dona Finha e Nininha, ou às vezes calado só observando as gentes, os ditos e os gestos.

Mas talvez durante o tempo que passei ausente houvesse se efetivado uma inversão, um salto de lado. Nada. Na outra margem outros rostos, nenhum dos usuais amigos da feira. Tinha trabalho a fazer, fotografias a fazer, produzir imagens da feira que serviriam para o trabalho este e um outro de fim de período. Então segui o caminho das imagens congeladas pelo aparelho digital, mas sempre de olhos abertos e orelhas em pé a procura das pessoas conhecidas e sumidas. Nada, mesmo após percorrer a feira por duas ou três vezes. Talvez estivessem doentes, mas como disse Nininha uma vez “feirante não pode ficar doente” ou algo assim. Nem mesmo ela encontrei percorrendo os corredores junto ao seu mostruário de bugigangas vendidas à fiado aos próprios feirantes.

Resolvi então arriscar e entre uma foto e outra - e foram mais de cem - perguntei à senhora que estava ali vizinha ao pastel com caldo de cana, que sempre ficara ali vendendo roupas, se a dona Finha estava doente. Ela me disse que não sabia, mas que já de muito tempo não a via mais por ali. Fiquei preocupado. Será que havia acontecido algo sério com algum deles, ou somente deixaram de ir à feira? Perguntei então ao pasteleiro de plástico na cabeça que agora ocupava o espaço se sabia de dona Finha e seu Juscelino. Ele demorou a entender a pergunta depois lembrou “ahhh a senhora que ficava aqui e o marido dela, um moreno, né? tem muito tempo que não vêm, por isso estou aqui, mas não sei dela não. ela deve ter mudado de feira. os fregueses dela sempre param aqui e perguntam por ela” ou algo assim. Mais estranho ainda, quase um ano tenho de feira e o pasteleiro sempre em frente à banca de dona Finha, mas parecia nunca terem se tocado.

Subi as escadas e fiquei parado olhando o movimento. Um rapaz com seu carrinho de mão estava do meu lado sentado, perguntei a mesma pergunta, ele disse “rapaz não sei quem é não”. Perguntei se era novo aqui, ele disse com voz sotaqueando “não, trabalhei aqui cinco anos atrás, só que me mudei para Santos, agora tou aqui de novo” ou algo assim. Ao me ver com a câmera tirando fotos perguntou “ta fazendo trabalho?”, disse-lhe que era uma pesquisa e já tava lá a quase um ano e perguntei seu nome, disse “Julio, então a gente ainda vai se encontrar mais por aqui, tchau.”. Andei, sentei, fiz fotos e com dona Rosália, senhora vendedora de biscoitos, bejus e tapiocas parei para conversar depois de tanto tempo ausente. Perguntei como estava, como ia a feira e tal. Ela questionou minha ausência, reclamou do tempo que passei fora e ofereceu como de costume três saquinhos de biscoitos. Fiz a mesma pergunta sobre dona Finha, ela disse “aquela que morreu de queda?”. Me assustei ainda mais e expliquei quem era, ela disse “ahhh então não é não, essa é outra que vendia coco” e essa história eu já também conhecia. Ela continuou “meu fiu, sei quem é essa mulher não, eu fico aqui [na parte mais central da feira], meus amigos são esses aqui [apontando para as bancas mais próximas em volta], não conheço mais ninguém de lá de longe não [indicando as duas extremidades]”.

Saí um tanto desapontado por não ter conseguido notícias e por ter ficado tanto tempo longe e ter perdido uma história para a ausência. Dona Rosália, sorridente e por vezes cansada vendedora de feituras de tapioca, disparara uma análise, uma história se fazendo ali, fragmentando algo dado como natural. Tinha claramente a idéia que os feirantes se conheciam minimamente, que formavam uma comunidade entre laços de amizade e ofício, mas agora a história se configurava de outro modo, formavam-se micro tessituras relacionais, feiras dentro da feira. Rachado. As fissuras mostravam outra coisa à qual a percepção foi se transformando para dar conta. As pessoas não sabiam de dona Finha, mesmo as mais próximas espacialmente. Findava ali uma percepção para abrir espaço para uma outra.

A única notícia concreta que tive, descobri depois que estava errada. Um garoto do carrego que já vira algumas vezes pela banca de dona Finha, e que me cumprimentava sempre, quando perguntei pela senhora, puxou pela memória, titubeou e disse “ahhh... lembro dela, ela não ta mais vindo aqui não. não é a esposa dum veio de óculos? é... ta mais vindo aqui não, mas ta trabalhando na feira do Santo Antônio dia de sábado que já vi por lá. passe lá que você encontra”. Vão rastro. Na sexta feira seguinte, em uma passagem bem mais rápida pela feira, encontrei Nininha andando por ali. Entre abraços e reclamações por causa da prolongada ausência fiz novamente a fatídica pergunta. Sua expressão nublou, com um tom de voz entristecido me disse “é... ela foi embora, se mudou para São Paulo, foi a família toda, talvez volte no fim do ano. tavam roubando de mais o sítio deles, muito perigoso... aí resolveram ir pra lá e ficar com uns parentes longe por um tempo” abaixou mais ainda o tom de voz e o olhar “agora eu tou aqui na luta sozinha, ta me fazendo uma falta a minha amiga, tou sozinha” ou algo assim.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Encontro Casual

Bom, Terça-feria, pós feriado, não me sentia muito bem e estava no terminal da UFS esperando o buso, quando uma senhora se aproximou de mim.
Pois é, era uma das velhas do grupo de Marcus, ela foi me falar de onde estava vindo, pra onde estava indo, o q tinha feito, etc... e como sempre, me perguntou se eu via o Marcus, se eu havia levado os recados deles ao Marcus, se ele havia me dado uma resposta de quando voltaria, etc...
Daí, ela disse q as reuniões estão acontecendo, mas estão indo poucos velhos... reclamou de dores no corpo, sem os exercícios...
Enfim, parece q o grupo continua em um contínuo declínio, sem seu produtor bio-ascético...

domingo, 15 de março de 2009

diário de conversas 13/03/09

I.
8:15 no ponto de ônibus respirando melhor e bebendo água pra recuperar da pedalada. Aparece um menino novo e se senta bem próximo a mim em cima do seu carrinho de mão.
Fico olhando ele tirar o boné, franzir a testa e enxugar o suor. Pergunto se está cansado (pergunta óbvia, mas tinha que começar de alguma maneira) ao qual me responde com balarçar de cabeça afirmativamente.
- Desde que horas tá aqui na feita?
- Desde as cinco horas.
- A feira começa esse horário né? Cedo ein...
- É...
- E quantos carregos já pegou hoje.
- Sete.
- Isso é bom ou é pouco?
- É pouco né? Dá pra nada...
- E o dinheiro ajuda em casa é?
- É, ajudar minha mãe...
Nisso chega um outro menino com seu carrinho de mão e se senta ao lado. Fica me olhando com cara de desconfiado e fala baixo com o-menino-novo. Desconfio que seja perguntando o que acontecera por ali...
Acabo deixando a conversa pra lá e fico só observando: escuto um falando que acha que já vai embora, não aguenta mais não. Cada carrego longe...
O-menino-novo comenta algo de um carrego. Não entendo a linguagem: "fiz dois por um". Como tava distante e não confortável pra entrar na conversa não perguntei nada...
Saem e vão comprar um pastel. Voltam, comem deitados no carrinho de mão e ficam calados.
Uma senhora chama distante... o-menino-novo sai correndo e o outro fica dormindo.

II.
Agora converso com Dona Rosália. Apareço pelo banca dela, pois soube que perguntara por mim. Fui lá e fui recebida com um sorriso, como sempre! Dona Rosália ou tá dormindo ou tá sorrindo.
Pergunto como ela está e diz que está bem, só um pouco cansada. Compro meus biscoitos e enquanto espero o troco pergunto como anda as vendas dessa sexta. Ela me diz que tá tranquila... vende umas coisinhas aqui outras ali e tá tudo bem. Aproveito pra perguntar sobre o preço da banca e me diz que na sexta passada não pagou oito reias não. Pois é um absurdo! Ela e mais um monte de gente não pagou o preço que eles queriam. E completa dizendo que acha que eles vão abaixar... não sabia quanto cobrariam a ela naquela sexta, pois o fiscal não tinha passado ainda.
- E a Associação dos feirantes? Você se associou a ela?
- Ainda não. Tô pensando e analisando pra ver.
- Tá desconfiada é dona Rosália?
- É minha fia... um pouco né? A gente tem que analisar pra ver se é bom mesmo o que eles querem fazer. Tenho que ver ainda... tá cedo por enquanto.
- É... tá certa a senhora. A gente tem que analisar mesmo...
- Pois não é? Tome seu troco..
Recebo um monte de moedas. Comento que gosto pois tenho um cofre. Ela me diz sorrindo que não faz cofre não porque cofre de pobre só serve pra pagar as contas!

III.
Pra terminar o dia, acho que não tinha como ser melhor. Uma visita na banca da Iete, a tia das cachaças! No pretexto de comprar uma garrafinha de cravinho de meio litro aproveitamos pra puxar conversa e ainda perguntamos o nome dela que não sabíamos até hoje. Ela nos contou que decobre se a cachaça é boa assim: dá uma balançada na garrafa; se fizer uma bolha no meio pronto! É da boa.
Nos mostrou tudo que tinha e disse que é ela mesma que faz. Que a vinte anos trabalha com isso e com a mesma cachaça sempre. Ficou nos explicando que se tiver achando o gosto do cravo muito forte é só colocar mais um pouco de 21 que quebra o gosto. Nos disse que ela faz forte, mas dependendo do gosto de cada um é só colocar mais cachaça.
Pergunto se vende muito na feira. Ela me diz que agora nem tanto por causa do bafômetro. Digo que não dirigo, então estou tranquila! Ela ri e me dá mais um copo pra experimentar.
Damos os "até logo" e....


até próxima sexta!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Diário 28 11 08 ou sobre as estórias que nos contam.

Seu Juscelino é o marido de Dona Finha, vendedora de frutas, verduras e algumas raízes. São pessoas sempre presentes em nossos relatos. Bom, desta vez que estive na feira sozinho, após andar um pouco por entre as gentes, como de costume faço, sentei próximo ao referido homem perguntando se lembrava de mim, respondeu que sim com um sorriso amistoso. Perguntei, pois era a segunda vez que encontrava com ele por lá, não é de seu costume ir à feira e ficar por lá como me relatou novamente, gostava de ir de vez em quando e observar o movimento. Não tinha o dom para ser feirante.

Desta vez conversamos mais um tanto e ele me falou coisas da feira e coisas da vida. Enquanto falávamos da festa de aniversário de sua filha, Dona Finha chegou com um saco de fava e entregou para seu Juscelino debulhar. Aproximei-me e ficamos assim os dois trabalhando para a senhora enquanto ela vendia os produtos. Não sabia que sabia debulhar fava, nunca tinha feito isso, foi algo de intuitivo e na terceira já havia entendido a melhor forma de fazê-lo: primeiro arranca uma ponta, depois retira o fio que une um lado a outro e abre para jogar os grãos na bolsa. Durante este trabalho conversamos sobre algumas coisas bastante interessantes.

Primeiro conversamos sobre a história da feira. Ele me contou que a vinte anos atrás não existia feira em Aracaju, pelo menos não daquele jeito que é agora. Falou que feira daquele tipo com bancas organizadas e acontecendo em todos os bairros havia sido trazida de fora por algum prefeito que ele não lembrava o nome, mas que já existia fora do estado, que ele já havia visto em São Paulo e no Rio quando era mais novo e viajava bastante. Disse que já morou próximo a uma feira livre lá em São Paulo e estranhou quando viu aquele tipo de coisa, pois aqui em Aracaju só existiam três feiras: uma no bairro América, outra no mercado lá no centro e mais uma chamada oficinas no Siqueira Campos. Havia mais ou menos vinte anos somente que as feiras de rua adentraram os bairros por obra de algum prefeito que copiou de fora, isso ficou burilando na minha cabeça porque pensava que a feira sempre existira nas ruas e o estado entrava a posteriori para controlar o espaço. No mínimo uma coisa curiosa.

Enquanto lá estávamos a debulhar favas, um senhor apoiado sobre uma bengala, manco, passa e cumprimenta Dona Finha e seu Juscelino. Rindo ele me conta a estória daquele senhor amarrando-a na antiga feira do mercado central. Disse que ele era conhecido antigamente como Baiano das cobras, pois, em dias de feira, portava duas cobras e uma banca vendendo remédios milagrosos, daqueles que curam de tudo, e era assim que ganhava a vida fazendo arte no passeio público. Isso ele dizia para todos, não gostava de trabalhar, não havia nascido para isso, por isso fazia remédios e arte, era na verdade um ator. Um ator, ressaltou seu Juscelino, um ator, tanto que ele continuava atuando: contou-me que não era manco nem nada, andava pela feira pedindo dinheiro dizendo-se aleijão, pois não trabalhava, antes ganhava a vida assim desde que a proibiram sua arte com as cobras. Proibiram sua arte, então ele criou outra que fosse aceita no mesmo espaço. No entanto caminhava perfeitamente, era um ator, um ator.

Seu Juscelino inferiu algumas constatações: a feira do mercado não era mais feira, segundo ele, agora ela era chata e feira tinha que ser divertida; o mercado passou por uma transformação, mas ainda tem algumas pessoas mais antigas que fazem questão de ir comprar lá, saem com cestos enormes vazios na cabeça e voltam com eles cheios. Disse novamente que na feira é preciso ter ginga para vender, ao que ele chamou de dom de feirante, um saber conquistar o freguês. Então, contou-me da sua jornada junto à dona Finha antes de ir à feira do Castelo Branco às sextas. Começam na quinta-feira a tarde comprando produtos no Ceasa, depois voltam com as coisas no carro e passam por alguns sítios próximos de onde moram para arranjar produtos mais baratos, enfim, em casa arrumam o que é de sua produção própria no carro para de manhã bem cedo, em torno de 04:00, saírem de casa e chegar às 04:30 no local da feira, só aí arrumam a barraca e esperam pela gente. Disse que essa rotina cansa e que já havia dormido duas vezes no carro desde que chegara.

Antes de sair, explicou-me ainda que dava pra viver com o dinheiro que fazia na feira, ali é sempre o começo para quem quer crescer como comerciante. E se eu me juntasse a algum amigo poderia montar uma sociedade e fazendo três feiras por semana, o que significaria três turnos numa semana, pagar a faculdade e ainda sobrava um dinheirinho pra viajar. Então depois de algum tempo de silêncio, me despedi, enquanto ele brincava com o neto que também estava por lá no dia. Disse que na próxima festa que fariam era para eu aparecer e chamar a menina, no caso mairla. Consenti com a cabeça e saí...

sábado, 22 de novembro de 2008

Diário de campo, 18/11/08

Fiz o máximo que pude para chegar antes das práticas começarem, consegui! Foi uma pena não ter chegado antes de Marcos, por coincidência o encontrei pelo percurso, peguei uma carona e no restante do caminho fui ouvindo seus diversos aforismos e máximas, um deles foi: "cigano é bicho ruim";"cigano só gosta de sombra e água fresca", D. Joaninha e D. Francisca, por sua vez, assentiram proferindo também algumas notas de repúdio aos ciganos. Marcos fez ao menos uma caridade, me livrou do sol apino de 1:00h da tarde. Mas apesar de Marcos ter chegado cedo e começado a cantoria, durante os trinta minutos anteriores ao horário marcado pude estabelecer uma agradável conversa com D.Maria de Lourdes e com outra Maria, esta sem complemento nominal. As conversas não foram simutâneas. Assim que cheguei sentei do lado de uma senhora de Simão Dias, que não me pareceu afeita a conversação. Migrei para o lado de D.Lourdes, perguntei-a há quanto tempo ela frenquentava o espaço, se ela gostava de lá ! A maneira como conduzimos a conversa nada se pareceu com uma entrevista, mais parecíamos pessoas que estavam se conhecendo e de fato era a primeira vez que nos falávamos. Algumas falas de D. Lourdes foram importantes para o entendimento de seu modo de encarar o grupo: "a gente vem aqui para brincar, se divertir, dançar".
Depois de algum tempo comecei a fazer meu crochê e ao me ver fazendo ela começou a falar que fizera muito crochê, pintura, e outros artesanatos para vender na feira do Eduardo Gomes. E demonstrou um incômodo por naquele espaço essas atividades nunca terem sido realizadas.
O crochê, levei a propósito para incitar algumas falas, mas exceto D. Lourdes, as senhoras que estavam ao meu redor não sabiam fazer crochê, fato para mim estranho por não corresponder a imagem que eu tinha de velhinhas bordando, tricontando...!
Nos mesmos 30 min de adiantamento conversei com D.Maria. Foi uma conversa rápida, em que pude perceber a sua alegria por ter encontrado aquele espaço, onde ela poderia ir seguindo um novo roteiro senão o do médico, da feira, e da igreja. O restante da conversa foi preenchida com a sua reclamação por ter a percata se quebrado no caminho, obrigando-a a voltar de pés descalços. Depois de alguns minutos ela com toda sua inventividade teve a idéia de fazer um buraquinho na percata, com a minha agulha, e amarrar o pedaço quebrado com uma linha. Foi genioso, ela notou os instrumentos disponíveis, a agulha e a linha, e zap!
A conversa mais interessante do dia foi com D. Joaninha, uma senhora incrível com seus 94 anos, dos quais ela me pareceu ter muito orgulho. Nas três ocasiões a conversa foi puxada quando eu perguntava há quanto tempo elas frequentavam o grupo, como resposta ouvi mais de 11anos, alguns meses, e D. Joaninha não fez os cálculos, só afirmou que havia muito tempo. Não me lembro como que ela começou a falar do seu marido. Ela me contou um bocado de coisa sobre seu casamento e sua vida. Pelo que ela contava, percebi o destaque dado as coisas ruins(por ela significado como ruins) sucedidas na sua vida.Um exemplo foi sua declaração de que e nos 68 anos de casamento não havia amado o marido. Outro fato a muito ocorrido foi sua saída de casa para a dos pais, uma tentativa de desistir do casamento...Enquanto todas as conversações a dança rolava no centro do salão!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Diário de campo - 19/11/2008

i.) Cheguei ao local dos encontros das quartas por volta das 15:30. Já de longe percebi uma movimentação diferente. Vi que os idosos estavam do lado de fora do prédio, e orientados pelo estudante de educação física formavam um grande fila, encabeçados por Dona Zefa. Ali estavam, além dela, os idosos que freqüentam com assiduidade os encontros semanais no Lions Club Serigy. Tratava-se de um ensaio da apresentação que Marcos Monteiro tanto tem alardado.
Por falar nisso, o grande dragão estavam (bem?!) acompanhado: além de sua esposa, também a cunhada e o esposo dela também participaram do ensaio, cada um com um intrumento musical. Figuras estranhas, assim como o Marcos...
Bom, outra novidade que a mim se apresentou foi a presença de idosos que nunca tínhamos visto às terças. Por volta de quinze pessoas estavam lá, mas permaneceram sentados durante a maior parte do tempo.Liguei essa postura a dois motivos. Num primeiro momento acreditei que porque se tratava de um ensaio e como muitos daqueles não sabia o que se passava, seria difícil para eles acompanharem as atividades. Depois acabei descobrindo não se tratar exatamente disso. Daqui a pouco retornaremos nesse ponto.

ii.) Como eu também não podia participar das atividades de dança, resolvi sentar e assistir. Ao meu lado estava uma idosa de 58 anos que havia faltado às ultimas quatro reuniões em virtude de uma artrose no joelho direito. Segundo ela me disse, apesar de ainda sentir dores, “não agüentava mais ficar sem vir”. Perguntei o porquê. “Ela me disse que achava as reuniões divertidas, que ia para elas para rir. Por que é engraçado ver um monte de velhos fazendo essas coisas.” Depois de falarmos sobre os benefícios dos analgésicos, da natação e do repouso pra inflamações nas articulações, voltamos a falar sobre as reuniões. Perguntei a ela o que os filhos achavam de ela sair com o joelho doente para uma reunião. Ela me disse que eles riem dela, mas que apóiam. “Eles dizem que é melhor do que ficar em casa sem fazer nada. E se eles viessem ia ver que é engraçado mesmo!”

iii.) Não sei exatamente como, mas quando dei por mim estava sentado ao lado das idosas que nunca tinha visto antes nas reuniões. Resolvi falar com uma delas. Ela se chamava Dona Zete e estava pela primeira vez no grupo. Ela me disse que participava das reuniões há muito tempo atrás (antes da era Marcos Monteiro), ainda no centro paroquial, mas que por causa da saúde debilitada havia se afastado. Apesar de conhecer muitos dos idosos ali presentes, d. Zete estava um pouco assustada porque as reuniões que freqüentava antigamente eram bem diferentes. Ao invés de dançarem e se exercitarem, as pessoas iam aprender a bordar, costurar, fazer crochê. E também não tinha tanta gente velha, eram muito mais novas.” Dona Zete não soube me dizer se ficaria mais à vontade numa reunião com pessoas mais jovens ou com idosas, mas gostaria que ainda existissem as oficinas.
Dona Zete também me contou de suas experiências em outros grupos. Já fez, por exemplo, natação e ginástica noutros projetos desenvolvidos pela Universidade. “E agora voltou pra o grupo?”, lhe perguntei. Depois de um pois é, ela me disse que estava lá para ver como era que funcionavam as reuniões, também iria ao Lions, mas ainda não sabia como chegar lá. Disse-me também que era melhor estar freqüentando as reuniões do que estar em casa: “pra quê ficar perdendo tempo pensando nos problemas, se isso não vai resolver nada?”, foi o que me disse. Mas dona Zete não veio sozinha, ao seu lado estava sua vizinha e amiga, dona Gildete.
Dona Gildete, sorriso aberto e conversa solta. Num certo momento da conversava com dona Zete começamos a falar sobre a interferência dos filhos e a amiga foi instada a participar. Gildete tem “quase 60”, é viúva há dezoito anos e mora com um filho de 35 anos. Segundo ela, ele não interfere mais na vida dela. Ainda está “amarrado à barra da saia, mas não se intromete mais”. Segundo ela, depois de ter mostrado a ele que nessa altura da vida a única coisa que se pode fazer é brincar, ele se resignou (“já perdi minha juventude, então tenho que aproveitar o que resta”, disse ela).
Como tem “quase 60” dona Gildete disse que estar ansiosa para completar 60 anos logo. Pois com essa idade ela pode andar gratuitamente no transporte público e poderá, finalmente, freqüentar os bailes da terceira idade que acontecem de domingo a domingo em Aracaju: “Quando trocar a carteirinha, aí não vai prestar não!” E, para me provar que não estava mentindo, ela listou, disse o horário de início e término e onde ocorriam cada um dos principais bailes!
Sua única queixa é o fato de haver muito mais velho do que novos freqüentando esse tipo de festa. “velhos”, leia-se homens mais velhos. Por isso, pelo menos no melhor dos bailes que freqüenta (nos domingos à noite), dona gildete só chega depois das seis da tarde. A festa começas às quatro, mas só depois das seis é que começam a chegar os coroas, até aí a maioria é de idosos que vão para casa porque tem que dormir cedo.
Não pude deixar de perguntar se ela costumava namorar nesses encontros. Depois de um sorrizinho malicioso ela acenou positivamente com a cabeça. Então, com ar de surpreso, lhe perguntei como era isso, de namorar nessa idade e como era que acontecia. Ela me disse que era “normal”, mas que deixava claro que não queria se envolver profundamente com ninguém. Ainda meio sem saber o que dizer, repeti a pergunta. Ela, então, resolveu me explicar com um exemplo.
Falou-me de um passeio a que ela tinha ido na semana anterior. Disse que lá havia encontrado um senhor e se interessado por ele. Ressaltou que gostou da idéia de ele ser de outra cidade, “assim nunca mais a gente volta a se encontrar!”. Depois de um certo tempo de paquera, os dois resolveram aproveitar o passeio juntos. Ainda não sabia o que lhe perguntar, estava meio assustado de encontrar e soltei um “e deu para aproveitar?” Vi novamente aquele sorrisinho de canto de boca. Dona Gildete olhou para mim e disse: “a gente tinha o dia inteiro...” Dizer mais o quê?