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segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Lugar Antropológico - Marc Auge

Qual é o lugar de pesquisa para o etnólogo? Auge vem afirmar que seria o mesmo lugar onde ocupam os indígenas, ou aqueles a quem estuda, onde eles trabalham e defendem contra ameaças externas. Esse autor vem trazer em sua obra “Não Lugares” uma compreensão quanto a pesquisa antropológica, remetendo a ideia das pesquisas pelos etnólogos sobre indígenas. Aqui nesse texto se tentará fazer um paralelo das explicações dadas por Auge com a pesquisa na feira.

Auge vem afirmar que o lugar comum tanto dos etnólogos quanto dos indígenas pode ser considerado invenções, já que a marca social do solo nem sempre é original. O etnólogo ao reencontrar essa marcação através de sua intervenção e curiosidade, devolve aos indígenas o gosto pelas origens que os fenômenos ligados à atualidade atenuaram como a migração de cidades, novos povoamentos e extensões das culturas industriais.

Pensando isso para o campo da feira, significaria dizer que a inserção do pesquisador no meio dos feirantes poderia estar estimulando ou motivando um certo orgulho ou interesse em continuar participando da feira. Ao mesmo tempo, não se pode afirmar que não exista uma valorização sendo criada não só pelos feirantes envolvidos na pesquisa, como pelo pesquisador.

De acordo com Auge, existe uma dupla invenção ou concepções criadas na pesquisa antropológica, uma refere-se ao pensamento dos indígenas diante do lugar e outra a dos pesquisadores ou etnólogo. A primeira invenção Auge chama de Fantasia indígena que remete aos tempos imemoriais de uma terra intocada, um mundo fechado, onde tudo já se conhece e se assegura a estabilidade através da legitimidade dos relatos de origem e o calendário de rituais.

Esses artifícios ou ideias propagadas pelos indígenas exprimem a identidade do grupo, defende uma tribo contra as ameaças externas e fissões internas, conservando um sentido da identidade da linguagem. Mas essa fantasia do lugar fundado, o qual é incessantemente refundado, é considerada uma semifantasia, visto que se deve aos dispositivos de adivinhação e prevenção. A partir destas estratégias é possível fazer com que ninguém duvide da realidade do lugar comum e dos poderes que o ameaçam ou o protegem, nem a realidade dos outros grupos. Nada permite duvidar desse mundo fechado e auto-suficiente com o qual se identificavam os mitos aproximados aos solo e que fundava uma singularidade.

A feira pode ser considerada um lugar onde se construiu uma história, costumes, modos de se portar na comunidade. Há a fantasia de que ser um lugar que nunca se acabará, já que muitas gerações já passaram por esse lugar. Porém essa fantasia não se sustenta diante das diversas ameaças de uma facção de pessoas que não toleram a feira, geralmente comerciantes locais que sentem ter suas vendas prejudicadas. Algumas feiras possuem sua associação de feirantes, mas nem todas se mantém e continuam na luta pelo bem comum, enfim, algo a se investigar caso a caso.

A segunda invenção nas pesquisas antropológicas Auge denominou de Ilusão do Etnólogo o qual remete a aquilo que se estuda, a uma sociedade transparente, que acaba encontrando a semifantasia dos indígenas, sendo considerada uma semi-ilusão. O etnólogo fica tentado a identificar aquele que estuda através da paisagem e espaço descoberto e que eles indicam. Mas os indígenas ignoram a história, sua mobilidade, a multiplicidade de espaços dos quais se referem e a flutuação de suas fronteiras, por sua vez de suas identidades. Tentam se apegar a uma estabilidade do passado.

A esse movimento de querer manter uma imagem identitária arraigada ao passado poderia se chamar de “tentação da totalidade”. Auge expõe duas ideias de totalidade do fato social: uma que se remete a Mauss e outra de Levi-Strauss. A primeira se ramifica em mais duas que acredita na totalidade ser a soma das diversas instituições ou também ao conjunto das diversas dimensões que compõem a individualidade de cada um. De acordo com Mauss, o homem médio na sociedade moderna seria qualquer um que não pertencesse a elite. Nesse sentido, a sociedade moderna possuiria um objeto etnológico dominável, localizado no tempo e espaço. Levi-Strauss vem afirmar que o fato social é algo totalmente percebido, cuja interpretação está integrada a visão que se tem de qualquer um, baseando-se na concepção do homem “médio” ou “total”, que é afetado por tudo e qualquer coisa. De qualquer forma, as ideias de totalidade e sociedade localizada remetem a uma transparência entre cultura, sociedade e indivíduo.

Uma função ideal para os etnólogos é caracterizar particularidades singulares, de forma que cada etnia fosse diferente da outra. Porém essa visão culturalista da sociedade tem limites, pois substantificando cada cultura singular se ignora tanto o caráter problemático (quando há reações ante às outras culturas e movimentos bruscos da história), quanto a complexidade da trama social e de posições individuais. Apesar das desvantagens em se afirmar uma postura identitária definitiva uma sociedade, não se deve ignorar a fantasia indígena e a ilusão etnológica que, na organização do espaço e constituição de lugares, compõe as motivações e uma das modalidades práticas coletivas e individuais no interior de um mesmo grupo social.

Voltando ao campo da feira como exemplo, a concepção que se construiu ao longo da história que se tem desse lugar já produz nos indivíduos algum afeto e os prepara para o que encontram nesse ambiente. Ao mesmo tempo, cada feira tem suas particularidades, seus modos de se organizar, as pessoas que a compõem, entre outras características que são compartilhadas numa comunidade. Essas características compartilhadas contribuem para se construir uma opinião generalizada sobre esse lugar, que ao mesmo tempo faz imaginar uma identidade contribui na união entre os que fazem parte, principalmente, os feirantes. Estes podem se sentir impelidos a organizar associações que os ajudem a manter esse lugar.

Auge vem afirmar que se constitui uma necessidade para as coletividades pensar a identidade e a relação, que para tanto deve simbolizar os constituintes da identidade partilhada (conjunto de um grupo), da identidade particular (determinado grupo ou indivíduo) e identidade singular (indivíduo ou grupo não semelhante a nenhum outro). Para fazer essa simbolização, um dos meios é o tratamento do espaço, que faz com que o etnólogo se sinta tentado a dar sentido do espaço ao social, como produzindo algo definitivamente. Esse é um percurso “cultural”, que se faz passar pelos signos mais visíveis, instituídos e reconhecidos da ordem social, o qual esboça um lugar comum.

A esse lugar comum Auge chama de Lugar Antropológico, que se caracteriza por uma construção concreta e simbólica do espaço, mas que não dá conta das contradições da vida social. Referir-se-ia a todos a quem designa naquele espaço. Este lugar seria um princípio de sentido para aqueles que habitam e um princípio de inteligibilidade para quem os observa, mas com uma escala variável. Auge acredita que existam pelo menos três características comuns que são identitárias, relacionais e históricas. A primeira pode ser representada como o lugar do nascimento como constitutivo da identidade individual, um lugar próprio, singular e exclusivo. A segunda característica diz do lugar que, para Michel de Certeau, tem seus elementos distribuídos em relações de coexistência, ao lado do outro, onde num mesmo lugar podem coexistir elementos distintos e singulares. Por último, o lugar histórico ao conjugar a identidade e a relação, definindo uma estabilidade mínima. “O habitante do lugar antropológico não faz história, vive na história” (AUGE, 1994, p.53).

Os percursos e recursos que desaparecem no lugar antropológico na realidade se transformam, pois já não falam mais de lembranças e recordações do tempo que passa ou o indivíduo que muda. Os habitantes se sentem turistas da intimidade desse lugar, espectadores de si a partir do momento que projetam os lugares que viveram através de celebrações, rituais e encenações. Essas transformações trazem uma série de consequências, como no fato do lugar antropológico ser ambíguo, uma ideia parcialmente materializada ou mitificada, quando varia a depender do lugar e do ponto de vista de quem ocupa. Além disso, uma série de marcas propostas e impostas pelo lugar quando desaparecem não voltam a ser preenchidas com facilidade. O etnólogo, sensível ao que observa, busca a proximidade do sentido, os signos.

A feira se encaixa e pode ser considerada um lugar antropológico, pois apesar das mudanças que carrega durante seu percurso histórico, diante das diversas gerações que passaram por ela, ainda se compõe um sentido, modos de experienciar a feira, um identidade que marca esse lugar. Aliado a essa construção identitária da feira, existem as contradições, as pesculiaridades de cada tipo de feira, a depender da localidade, dos habitantes que a compõem, dos feirantes que a organizam, de toda uma gama de fatores que não a tornam simples de se identificar, mas não deixa de promover uma ligação forte entre aqueles que fazem a feira.

Outra característica que pode ser constatada no lugar antropológico, de acordo com Auge, é o fato de ser geométrico. É possível percebê-lo em três formas espaciais simples que são aplicadas em dispositivos institucionais diferentes, que constituem as formas elementares do espaço social. Essas formas simples são a linha, a interseção de linha e o ponto de interseção que refletem nos dispositivos de itinerários, cruzamentos e centros os quais podem até coincidir parcialmente por não serem noções absolutamente independentes. Os itinerários são definidos como os locais de ajuntamento; já os mercados são pontos fixos que se encontram nos itinerários, funcionando como centro de atração. O centro de cidades são lugares ativos onde ficam espaços de maior movimentação como lojas, bares, hotéis, praça, sendo neste lugar que funciona a feira. O sistema rodoviário é que liga esses centros através de uma rede. Constrói-se dessa maneira uma complexidade institucional com esses vários espaços.

Já se sabe que a identidade e a relação estão no cerne de todos os dispositivos espaciais clássicos estudados pela antropologia. Auge vem afirmar que a história também faz parte dos espaços, pois também possuem duração. Além disso, as formas espaciais simples só se concretizam no e pelo tempo. Criam-se as condições de uma memória que se vincula a certos lugares e contribui para reforçar o caráter sagrado. Entende-se que a noção de sagrado está ligado ao caráter retrospectivo que decorre do caráter alternativo dos rituais.

Entre outros recursos que fazem menção a história do lugar existe o monumento que indica uma idéia de permanência, duração, continuidade das gerações. Cria-se uma ilusão monumental que permite a história não ser uma abstração. O espaço social possui muitos monumentos não diretamente funcionais que trazem a idéia de preexistência e que sobreviveram. Paradoxalmente, uma série de rupturas e descontinuidades no espaço representam a continuidade do tempo.

Pode-se considerar, de acordo com Auge, o corpo humano também uma porção do espaço, um espaço construído, hierarquizado, onde pode ser investido do exterior no plano da imaginação. O corpo seria então pensado como território, um lugar de culto. Nesse sentido o corpo centralizado se transforma em um monumento e dentro de um simbolismo político faz com que se expresse o poder da autoridade unificada. Este corpo simbolizado numa única figura soberana representaria as diversidades internas de uma coletividade social.

O soberano geralmente ocupa uma residência fixa, condenado a quase imobilidade, exposto no trono real, apresentado como objeto aos súditos. Percebe-se com isso uma passividade do corpo soberano. Mas existem outros corpos ou objetos, como o trono ou a coroa, que substituem o corpo do soberano para garantir o centro fixo do reino que o condena a longas horas de imobilidade. Interessante notar que justamente essa situação de imobilidade que reforça a perenidade da dinastia, que ordena e unifica a diversidade do corpo social. É através da identificação do poder num lugar fixo onde se abriga ou exerce como monumento ou representante que consta a regra do discurso político dos Estados modernos. A centralidade seria expressão mais aproximada para se pensar simultaneamente unidade e diversidade. Percebe-se que a metáfora geográfica perece dar conta da vida política que se quer centralizada.

Há nos espaços coletivos uma reinvindicação à profundidade histórica, bem como a abertura para o exterior, um equilibre o outro. Para tanto, vem-se colocando uma série de painéis que constituem uma espécie de cartão de visitas, que atraem o passante e turista, mas que só dá certo ao relacioná-los à história e a identidade arraigados na terra. Essa alusão ao passado torna mais complexo o presente. Entre os artifícios para acrescentar essa dimensão histórica tem-se os monumentos datados também se transformam em provas de autenticidade dessa história resgatada que provoca um interesse por si só. Além disso, tem os nomes de ruas, na maior parte das vezes são notabilidades da vida social e nacional ou grandes fatos históricos. Essa incessante referência a história provoca frequentes coincidências entre itinerários, cruzamentos e monumentos.

Mas a relação com a história está em vias de se artificializar, quando cidades se transformam em museus porque surgem desvios, rodovias e trens de alta velocidade que convidam a ignorar as marcas identitárias da terra e vestígios da história. Esse contraste ou paradoxo marcado por estradas de cidades, grandes conjuntos, zonas industrializadas e supermercados são locais onde existem os painéis que convidam a visitar monumentos antigos. Os locais de passagem ou grande aglomeração efêmera de sujeitos são usados a fazer referência a aquilo que dura, que possui história. Multiplicam-se as referências às curiosidades locais que deveriam nos reter, mas que na realidade só faz apenas alusão ao tempo e lugares antigos dizendo algo daquele espaço presente.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Implicações na pesquisa antropológica por Auge

RESENHA Não Lugares – Marc Auge

O Próximo e o Distante

O estudo de espaços tem sempre uma gama de fatores relevantes e complexos que fazem jus a diversidade do que os constrói. Pensando na pesquisa de lugares, Auge afirma que a etnologia testemunha os fatos diretamente na atualidade, entrando em contato com a enunciação e o enunciante. De outro modo, o antropólogo recorre aos testemunhos dos etnólogos e apesar do interesse pela história não é um historiador.

Na inserção no campo da feira há o contato com uma diversidade de elementos do cotidiano desse lugar que não se refere a uma enunciação contínua, mas descontínua com múltiplos enunciantes, por isso a variabilidade de informações a serem captadas.

Existe para Auge a etnologia do próximo que guarda uma dupla questão: saber se tem a mesma sofisticação, complexidade, conceitualização que a das sociedades distantes; saber se os fatos, as instituições, os modos de reagrupamento e circulação específicos do mundo contemporâneo são passíveis de um olhar antropológico. Existem uma enorme quantidade de elementos de interação, além de todas as formas institucionais pelas quais é preciso passar para apreender a vida social. Realmente os desafios são muitos ao interagir com um espaço relativamente novo, estranho ao pesquisador, onde diversos fatores podem colaborar ou atrapalhar na investigação/observação do lugar, como fatores climáticos, emocional, relacional, entre outros.

No entanto, é essencial não confundir a questão do método com a do objeto (não entendi como se confundi e no que essa confusão repercute). A investigação etnológica envolve os aspectos do método (contato efetivo com interlocutores) e representatividade do grupo (falam de quem não vemos). O objeto da antropologia se refere a capacidade de generalização, elaborando hipóteses gerais a partir de inspirações particulares. Essa generalização diz respeito ao método, não ao objeto. Mas a questão do método não poderia ser confundida com a do objeto, pois o objeto da antropologia não faz descrição exaustiva.

Vale a pena distinguir método e objeto afim de se ter clareza ao o que se pretende estudar, o que ou quem se pretende entrar em contato, para finalmente saber “como abordar”, o que podemos afirmar sendo este “como abordar” o método. Poder distinguir método e objeto demonstre a riqueza do trabalho de pesquisa, a partir do momento que se descreve os desafios enfrentados, as dúvidas, percalços, questões, tudo que relate a autenticamente o estudo.

De acordo com Auge, o etnólogo de campo tem uma atividade de agrimensor social, pois trabalha sobre o presente e produz um universo significativo. Para tanto, a preocupação do etnólogo passa pela história, bem como pela antropologia ao situar o objeto de pesquisa e avaliar sua representatividade qualitativa. É uma preocupação diferente dos historiadores da micro-história que, além de questionar a representatividade dos casos que analisam, recorrem a pistas, indícios. O etnólogo tem a vantagem de trabalhar com o presente, pois parece ter mais meios de ver mais longe do que imagina. Por isso que ao estudar um campo como a feira, há o momento de observar os fatos que ocorrem no momento e situá-los como tal, mas o mesmo tempo investigar a história do lugar e a cultura que ele carrega.

Uma questão importante a respeito da contemporaneidade não é saber como se pesquisar um grande conjunto, mas saber se há aspectos da vida social contemporânea originado de uma investigação antropológica, mais especificamente que observam o distante. Nesse caso convém chamar a atenção para a precedência do objeto muitas vezes levantada por esse tipo de investigação, mas que não se encaixa com a atualidade. Isso porque são muitos os centros de interesse que surgem ou mudam, fazendo com que não seja possível um efeito cumulativo. Não se trata de evolução (interpretação minha da última frase).

Compara-se esse interesse em buscar novos objetos com as ciências da vida e ciências da vida social, que muitas vezes podem mudar os modos de agrupamento e hierarquização ou complicar os objetos que inicialmente trabalhavam. De qualquer forma, abordar novos campos reflete mais a uma curiosidade do que a uma necessidade.

Auge tentando compreender a complexidade que compõe os espaços explica que na pesquisa antropológica existem duas ocorrências que devem ser levadas em consideração. Uma é a Questão do Outro, que se refere a aquilo que se pesquisa, ao que aparece na história e se distingue do presente, tendo vários sentidos.

A antropologia aborda todo tipo de “outro” – outro exótico, outro dos outros, outro étnico ou cultural, outro social, outro interior, outro íntimo. Este outro íntimo corresponde a uma individualidade absoluta, onde se apreende a uma alteridade complementar. Demonstra-se, então, uma relação entre uma individualidade individual e coletiva. Pode-se afirmar, para o autor, que se a antropologia se interessa pela representação do indivíduo não é só por ser uma construção social, mas por ser uma representação do vínculo social. “O social começa com o indivíduo e o indivíduo depende do olhar etnológico”.

Então, ao tratar de um grupo de pessoas, estaria se estudando não só a vida individual desses personagens, como a história de vida de cada um e da coletividade. Junto a essa história coletiva se resgata também a modo como essas pessoas se relacionam, o que construíram juntas, o que existe entre elas, o que as faz continuarem juntas. Na feira é possível pensar porque feirantes e compradores continuam a se encontrar semanalmente, como convivem juntos, porque continuam ali naquele ambiente. Todo esse entendimento produz uma representação do modo de ser nesse lugar que é peculiar, individual.

Sobre individualidade, Marcel Mauss afirma que é representação da cultura ou padrão de uma sociedade. No estudo da totalidade, da análise do fato social total, esse autor acredita que a experiência é duplamente concreta, quando localizada no espaço-tempo, bem como num indivíduo qualquer, que ao mesmo tempo se identifica numa sociedade na qual ele expressa.

Nesse sentido, a concepção de cultura e individualidade são consideradas como expressões recíprocas, que aparentam uma trivialidade, um lugar comum. Porém, desconfia-se das individualidades demonstradas estatisticamente, absolutas, simples, substanciais. Nem culturas, nem identidades constituem totalidades acabadas, pois só se exprimem sua totalidade de certo ângulo.

No que tange os objetos de pesquisa, não precisa considerar todas as implicações lógicas que os constituem, mas há objetos que consideram as transformações, mudanças, distanciamentos, iniciativas e transgressões. No final faz contas, a pesquisa antropológica tem por objetivo interpretar a interpretação que outros fazem de outros nas diversas circunstancias.

Outro ponto ressaltado por Auge sobre a pesquisa antropológica é a questão do mundo contemporâneo a qual se refere às transformações aceleradas no mundo, o que repercute numa reflexão renovada e metódica sobre a categoria de alteridade, ou melhor dizendo, a diferença, a mudança. Essa visão difere de uma ideia comum da antropologia que parece se voltar a horizontes mais familiares. É possível chamar a esse conjunto de transformações de “supermodernidade”. Quanto a essas grandes transformações no mundo, observam-se três figuras de excesso.


A primeira se chama Superabundância Factual que trata da questão do tempo, o uso que se faz dele, de como a ideia de progresso parece defasada, afinal os fatos acontecem e quando menos se espera já passou. Esse movimento traz o fim das grandes narrativas, dos grandes sistemas de interpretação, o que coloca em dúvida o fato da história ser portadora de sentido.


Há, então, uma dificuldade de fazer do tempo um princípio de inteligibilidade e de identidade (dar alguma definição, fechamento). Demostra-se que vem ocorrendo o desaparecimento de referências, dos grandes temas, do que aparece publicamente, do que parece universal, mas que vem de uma verdade particular. Isso se deve a aceleração da história, da multiplicação de acontecimentos, a superabundância de informações. Os historiadores consideram os acontecimentos um problema e preferem a história como um pleonasmo entre um antes e um depois.


Essa nova dinâmica da história, de inúmeros acontecimentos, repercute em crises latentes que afetam na vida política, social e econômica que faz sentir a necessidade diária de dar sentido ao mundo, ao presente, ao excesso (superinvestimento de sentido). O tempo, que passa a estar sobrecarregado de acontecimentos, provoca uma necessidade maior de dar sentido. Percebe-se uma dificuldade de pensar sobre o tempo devido a essa superabundância factual, também de pensar o presente por não se compreender o passado próximo.


Outra figura de excesso é a Superabundância espacial que se caracteriza pelo excesso de espaço, “encolhimento do planeta”, resultado de mudanças de escala, pelas inovações tecnológicas que promoveram a conquista espacial, a invenção de meios de transporte rápidos. Tudo isso faz com que haja uma visão instantânea ou simultânea do acontecimento.


Esse excesso de espaço ou superabundância espacial faz com que se produza diversos universos simbólicos que se substituem, são parcialmente fictícios, fechados e trazem antes um meio de reconhecimento do que conhecimento. Cada universo constitui um signo composto por códigos que constroem espaços significantes, totalidades plenas, que constituem sociedades identificadas com culturas concebidas como universo de sentido dos quais indivíduos ou grupos são apenas expressões que se definem pelos mesmos processos de interpretação. Essa concepção ideológica é que existe entre a maioria dos etnólogos, mas que a supermodernidade desmancha.


Todas essas mudanças da modernidade – de mudanças de escala, multiplicação de referencias e aceleração dos meios de transportes – faz com que surjam, principalmente nas grandes concentrações urbanas, a multiplicação daquilo que Auge chama de “não-lugar” que se opõe a noção sociológica de lugar que está associada a uma cultura localizada no tempo/espaço. Os não-lugares são instalações necessárias a circulação acelerada de pessoas e bens, entre elas os meios de transporte e centros comerciais. Percebe-se um aspecto paradoxal da unidade do espaço terrestre e o clamor de particularismos.


Percebe-se os deslocamentos dos parâmetros provocados pelas superadundâncias factual e espacial trazem dificuldades da mesma ordem tanto para os historiadores como para a pesquisa antropológica. Tem que aproveitar da experiência distante de descentrar o olhar para melhor observar e compreender o mundo da supermodernidade que ainda não se conseguiu aprender a olhar.


Por fim, a figura da Individualização das referências que diz respeito de uma tendência da sociedade moderna da interpretação de por si e para si as informações que se apreende, produzir expressões particulares, uma individualização dos procedimentos.


As histórias individuais são mais explicitadas na história coletiva, ao mesmo tempo, há uma grande flutuação dos pontos de identificação coletiva. Auge afirma que a produção individual de sentido é mais do que necessária (Por que é necessária?), e que é transmitido por todo um aparelho publicitário e linhagem política, onde uma das ideias principais é das liberdades individuais. Poderia se caracterizar as antropologias como sistemas de representação nos quais são informadas as categorias da identidade e da alteridade.


Levanta-se a questão: como pensar em situar o indivíduo? Como pensar nisso diante de tantas opressões globais as quais o indivíduo sofre na sociedade moderna, principalmente na área urbana? Indaga-se, nesse sentido, ora a uma multiplicidade dos indivíduos médios, ora a média dos indivíduos.


Freud acreditava que era possível tornar a si mesmo como objeto de um processo reflexivo, de observar em si mesmo os mecanismos e efeitos da alienação. Essa é uma prática da auto-análise. Para os antropólogos, a questão remeteria a considerar a subjetividade daqueles que observam, daquele que se estuda, uma tentativa de etno-auto-análise. A individualização das referências leva a se prestar atenção nas singularidades de toda ordem, mas que se contrapõe paradoxalmente a aceleração e redução rápida processos de relacionamento a expressões homogêneas.



As condições de realização de uma antropologia contemporânea, para Auge, deve ser deslocada do método para o objeto (Não entendi porque essa afirmação). Deve-se estar atento às mudanças que afetaram as grandes categorias por meio dos quais os homens pensam a sua identidade e suas relações recíprocas. As três figuras de excesso pelas quais se tentou caracterizar a situação da supermodernidade (superabundância factual, superabundância espacial e individualização das referências) permitem apreender as mudanças sem ignorar as complexidades, as contradições e inultrapassável.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Discussões sobre "O urbano em movimento: invenções da vida numa feira livre em Aracaju"


Aqui escrevemos  algumas palavras  ditas antes, por e-mail, ao João, sobre o relatório do pibic com o  título "O urbano em movimento: invenções da vida numa feira livre em Aracaju".  Dividimos estes devaneios e dúvidas...


Existiam alguns vulcões ativos que o princepezinho sempre cutucava com a pá... era só remexê-los um pouco e uma erupção poderia ser evitada. Naquele pequeno planeta, cuja existência havia sido comprovada por um desses cientistas que estudam o céu, também havia uma rosa. Era ela a que mais preocupava o nosso pequeno príncipe. Tudo ali era pacato. O nosso jovem acordava e já sabia o que dele se esperava: vulcões, rosa, baobás. Cada qual exigia-o alguma coisa. Mas, por um motivo ou outro, o nosso protagonista resolve explorar outros planetas, romper com seu cotidiano enfadonho. De fato, ele conheceu outros asteróides e planetas - é claro que não eram iguais ao seu lar, mas cada um tinha algo que o tornava ímpar.
Ao ler o relatório, me parecereceu muito clara a relação entre o conto de Antoine de Saint-Exupery e Eufêmia. A diferença, se me permitem dizer, é que, nesta última, os viajantes atracam e cada qual tem estórias outras, de lugares outros. Eufêmia é o lugar em que se chega, em que as reuniões acontecem. O nosso príncipe, no entanto, se assemelha mais a um desses navegadores cheios de estórias. Ele conta as estórias de planetas outros; estórias sobre rosa, vulcões e baobás. Em Eufêmia, as experiência são contadas e, ela mesma, se torna uma estória pra ser contada em outro lugar. Eufêmia é destino e partida; o asteróide do príncipe, apenas saída. Saída esta não tão diferente da dos comerciantes que chegam à cidade de equinócios e solstícios... afinal, se eles chegam, eles devem ter saído de algum lugar - é sobre esse lugar que eles falam em Eufêmia. É o que dá, à ela, graça.
Acho que na feira em Aracaju o problema são esses príncipes sempre dispostos a falar sobre seus vulcões-rosa-baobás. Não digo problema em contar, mas problema em ouvir. Como preservar-se do ímpeto de dizer que isso é mais importante do que aquilo? Como preservar-se do vício da história que privilegia alguns poucos? A feira, dentro da feira, pode acarretar uma seleção involuntária, ou não? Do mesmo modo como julgamos a feira como algo possivelmente sujo e desorganizado, dentro de um lugar maior que é Aracaju, o que seria - ou, onde seria - o menos sujo e desorganizado da feira, quando comparada com ela mesma? Então, me pergunto, o que é a feira para a própria feira? O que seria Eufêmia, se tudo o que se conhecesse fosse Eufêmia? Sobre o que se falaria? O que a faria ser "diferente"?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

As cidades invisíveis dos fragmentos narrativos

“A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atingi-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações convergem em todos os solstícios e equinócios. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mesmas mercadorias que se encontram em todos os bazares dentro e fora do império do Grande Khan, espalhadas pelo chão nas mesmas esteiras amarelas, à sombra dos mesmos mosqueteiros, oferecidas com os mesmos descontos enganosos. Não é apenas para comprar e vender que se vem a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou em barris ou deitados em montes de tapetes, para cada palavra que se diz – como ‘lobo’, ‘irmã’, ‘tesouro escondido’, ‘batalha’, ‘sarna’, ‘amantes’ – os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarna, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade em que se troca de memória em todos os solstícios e equinócios.” (As Cidades Invisíveis, Italo Calvino)

***

Eufêmia, cidade invisível descrita pelo escritor italiano Ítalo Calvino, habita o tecido urbano de Aracaju. Nas manhãs de sexta feira na rua Coronel João Gonçalves do Bairro Castelo Branco (rua da famosa sorveteria Castelo Branco que dá na praça da Caixa d’água), acontece uma feira livre. Lá encontramos variados tipos de mercadorias oferecidas: vendem-se desde frutas, verduras, carnes, peixes, aves, arroz, feijão, farinha, ervas e laticínios até utensílios de casa, roupas, DVDs, relógios, cadeados, produtos de limpeza e mesmo filhotes de cães à R$ 5,00. No entanto, são coisas possíveis de serem encontradas em outras feiras ou supermercados. Seus produtos de comércio, como em Eufêmia, não dizem da sua singularidade.

Este mercado a céu aberto é organizado em três fileiras de bancas metálicas cobertas por lonas de cores opacas, criando, assim, dois corredores estreitos para o fluxo de pessoas, carrinhos-de-mão para transporte de compras, bicicletas e para a realização do negócio. Este comércio não está somente preso à disponibilidade das mesas, realiza-se também no chão e em suportes improvisados, além de alguns negociantes que vendem suas mercadorias transitando pelo local.

A feira livre do Bairro Castelo Branco constitui na rua um espaço de acontecimentos. Porém, sua geografia diz de um espaço esquadrinhado para melhor eficiência do controle e organização dos corpos. Suas bancas sugerem um ordenamento preocupado com a higiene pública que atravessa as práticas do planejamento urbano. Bancas de carnes, aves e peixes não podem existir frente aos estabelecimentos de comércio e às habitações - são então alocadas nas praças onde o odor de seus restos orgânicos pode ser melhor sanado.

Não abandonando a mesma lógica de racionalização do espaço, é importante observar as praticas de vigilância. É comum ver policiais transitando pela feira, pois existe um posto policial na praça da caixa d’água. Eles tencionam evitar o distúrbio, os furtos, as brigas e garantir um funcionamento ordeiro da vida. Com efeito, fiscais da Empresa Municipal de Serviços Urbanos verificam se as leis que regulamentam a feira livre estão sendo cumpridas. É interessante atentar, pois ele não está lá para realizar cobranças, porém exerce função exclusiva de policiamento extensivo através da organização da feira. Os negociantes o chamam de “o rapa”, pois guarda o poder de apreender os produtos e equipamentos quando não normatizados.

Estes movimentos trabalham segundo uma mesma lógica de gerência da vida que apareceu a partir do século XVI na problemática do governo - o que Michel Foucault chama de artes de governar. Ela aparece com relação a questões bastante diferentes e com dimensões múltiplas como, por exemplo, problema do governo de si; problema do governo das almas; problema do governo das crianças; problema do governo do Estado. As artes de governar, se infiltraram no aparelho estatal produzindo novas práticas que substituem as do poder soberano ao tempo que cristalizam o que se chama de razões de Estado

Então, é a lógica racionalista do Estado liberal que possibilita a instauração, na tessitura do espaço urbano, de técnicas e procedimentos para o governo dos vivos, ao que se chamou biopolítica: entendam isto como a maneira pela qual se tentou, desde o século XVIII, racionalizar os problemas propostos à prática governamental, pelos fenômenos próprios a um conjunto de seres vivos constituídos em população. Partilhando este quadro de práticas biopolíticas, foi em determinado momento de nossa história que nasceu um tipo específico de medicina que pode ser chamada de medicina social pela maneira como tematizou a questão da saúde da população e procurou intervir sistematicamente na cidade de maneira geral, objeto privilegiado de suas práticas. O urbano é visto pelos fazeres higienistas como lugar da desordem, do amontoado de corpos que se encontram e transmitem entre si males diversos. O que é então efetivado é a própria transformação da cidade; é sua adequação a um plano geral de funcionamento e evolução; é a abolição de todo acúmulo e a ordenação de todo contato. Em suma, com a medicina social do século XIX, nasce o planejamento urbano.

Na feira do Castelo Branco, as gerências da vida visam ordenar as práticas infames que permeiam o cotidiano. A cidade é então um espaço tenso entre as tecnologias de higiene para controle das populações e as difusas artimanhas das gentes inventando espaços efêmeros e precários para que a vida escape. Sobre isto se abre passagem para a potência das artes cotidianas de fazer, microfísica das resistências que se efetuam no dia a dia frente às limitações verticalmente colocadas. Como disse Michel de Certeau “No limite, esta ordem seria o equivalente daquilo que as regras de metro e rima eram antigamente para os poetas: um conjunto de imposições estimuladoras da invenção, uma regulamentação para facilitar as improvisações”.

Com um certo olhar mais demorado é possível ver nas fissuras das forças gerenciáis cidades invisíveis dentro da cidade, suas singularidades. Ali se produzem fragmentos de Eufêmia no Castelo Branco, possíveis não através de uma naturalização da feira-livre como isto ou aquilo, mas pela observância de suas práticas. Como na cidade dos solstícios e equinócios, um espaço de encontros possíveis e de histórias possíveis. Aqui habita o interesse em iluminar as vidas obscuras, existências anônimas deixadas às sombras do poder sem maiores importâncias: ou seja, produzir e fazer aparecer aos olhos, narrativas da vida dos homens infames. Objetos raros que brotam do asfalto cotidiano.

E são tantos estes infames da vida ordinária. Vidas que pertencem a essas milhares de existências destinadas a passar sem deixar rastros, não fossem os microscópicos combates urbanos, as pelejas cotidianas, as práticas efêmeras que não objetivam glorias e somem na velocidade do acaso quando do encontro com o poder coercitivo que se exerce nos meandros da vida cotidiana onde o banal é analisado segundo a fina rede cinza da administração, da mídia e da ciência. Como diria Foucault: “Assim é a infâmia estrita, aquela que, não sendo misturada nem de escândalo ambíguo nem de surda admiração, não compõe com nenhuma espécie de glória”.

São mulheres que penduram panos e lençóis por trás das bancas para protegerem-se do sol e narram histórias da vida na feira e na cidade, enquanto descarnam pés e mãos de boi ou vendem meio quilo de fígado ao freguês que para, compra, às vezes conversa e se vai. Homens que enraivecidos esbravejam contra as últimas sugestões dadas pelos órgãos públicos para regulação e progressiva higienização da feira como a possível implantação de refrigeradores que impossibilitariam financeiramente o trabalho de muitos feirantes. Jovens que trabalham indo e vindo carregando compras de outrem e fazem também a comunicação da feira com outros espaços da cidade ou simplesmente tomam, ou fingem tomar, conta dos carros em troca de algumas moedas.

As gerências da vida investem justamente no empobrecimento da experiência que é de cunho coletivo. Assim dificultam a atividade narrativa da vida infame já que apregoam um modo individualizante e disciplinado de existir. Porém é neste processo que esta pesquisa se inscreve e toma uma dimensão política. Disse Walter Benjamin que a narração é um processo artesanal e tem como matéria prima a experiência. É justamente a partir desta experiência urbana que são potencializadas essas histórias que contam miudíces dos combates inglórios, cidades invisíveis então.

Potencializar histórias do homem comum abre espaço para que a vida passe e efetue a implosão de alguns “universos carcerários” que nos atam a engessamentos do real. “Dessa implosão, pedaços de histórias incompletas, fragmentos de narrativas seriam montados pelas urgências políticas do agora, atentas às que ficaram no passado na metade do caminho, inacabadas, interrompidas pela força da barbárie ou pelo esquecimento ávido de futuro”, diria Luis Antônio Baptista. E neste sentido se intenta produzir condições para que, partindo de seus limites, efetuem-se ultrapassamentos dessas histórias esquecidas, histórias indecisas que podem funcionar como minúsculos artefatos bélicos na guerra política da vida.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Diário de Campo - 04.09.09

Após um ano morando à cerca de 500 metros da feira do Castelo Branco, fui a ela pela segunda vez. Engraçado como passei tantas vezes ao lado de, mas não por ela, e a sensação que esta diferente experiência causa. A rua pela qual costumo cortar caminho quando volto para casa de alguns lugares, não parece a mesma, some em meio a tantas imagens e sons.
Não que eu fosse totalmente “virgem” desse espaço repleto, ou melhor, atropelado, de gente, frutas, verduras, carnes, sensações. Costumava ir a feira com minha mãe há alguns anos quando morava em outro bairro, e embora não gostasse de acordar cedo aos sábados ia contente carregar as sacolas (aquele mingau que fazia de meu café da manhã, o iogurte de ameixa que levava para casa e o modo como os feirantes atendiam seus clientes sempre me chamavam atenção).
Bom, nesta minha segunda experiência ainda me sinto meio deslocado, não sei, tenho a impressão de que sou notado pelos olhares como um estranho... talvez seja só uma impressão.
Logo que chego, enquanto espero João - andar com ele parece me dá mais conforto, já que ele já não é um “estranho no ninho” – dou de cara com o carro da Emsurb no inicio da feira. Em seguida vejo um fiscal discutindo com um feirante enquanto outro “confisca” sua cesta de abacaxis. Como já fiquei sabendo não é permitido colocar produtos naquele local – no chão do início da feira.
Observo a cena: o mesmo feirante que teve seus abacaxis “confiscados” retira suas outras mercadorias para não perdê-las também, um vendedor de morangos diz que se eles vierem tomar a sua, ele joga no chão e pisa, mas não deixa eles levarem, o rapaz que vende Cd e Dvd aguarda os fiscais irem embora para abrir o porta malas e expor sua mercadoria enquanto seu som toca.
Enfim, observo tudo – que parece já pertencer ao cotidiano da feira – mas ainda meio distanciado. Ensaio ir conversar com o feirante do abacaxi mas acabo não indo, fico esperando João chegar.
João chega e vamos caminhar pela feira, alguns olhares de reconhecimento e acenos parecem dirigir-se para nós. Seu Ulisses, que eu já tinha conhecido em outra oportunidade, diz que as coisas “vão indo”. Fala da impossibilidade de atender algumas recomendações do Estado, pois o mesmo não dá condições para isso. "Como colocar freezer aqui, se não tem energia? Olha os “gatos” E estes banheiros? Ficam longe, sujos, são usados para o consumo de drogas."
Passamos pela banca do presidente da Associação dos Feirantes, mas o mesmo não se encontrava lá. João, então, resolve perguntar por Seu Antônio. Segundo sua irmã, Eleonora, ele estava em uma reunião e ela, que trabalha na Associação visitando as feiras e cadastrando o pessoal, estava substituindo-o nesse dia.
Ao falarmos da nossa pesquisa ela se mostrou interessada, a fim de conversar. Enquanto conversávamos algo interessante aconteceu: a pessoa que recebe o pagamento do aluguel das bancas de metal (os feirantes até então pagavam seis reais pelo dia) passa e para surpresa de Dona Eleonora a taxa tinha aumentado para sete reais, sem ninguém ter sido avisado. Ela diz que não irá pagar e liga para seu Antônio para saber se ele havia sido informado do aumento. Ele também não sabia e reafirma que não é para ninguém pagar.
Alguns feirantes que estavam próximos, depois de ela ter dito para eles não pagarem, falaram, preocupados, da possibilidade de serem deixados sem banca na outra semana. Ela continuou afirmando para não pagarem, que deixassem sem banca.
Por fim, depois de algumas manifestações de preocupação de serem deixados sem banca, ela concluiu: “Quem é associado não vai pagar, quem não for que pague!”.
Após esse ocorrido, nos despedimos dela e voltamos a caminhar pela feira em direção a saída. Olhei para João mas não disse nada, e ele com um balançar de cabeça e um sorriso confirmou que algo interessante perpassava aquela fala.
Fomos embora então, mas com a impressão de que, como disse João, a associação é dos associados.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

sobre os encontros de Julho

E assim se deu a falta. Naquela esquina onde comumente sentava meio que escondido a conversar com pessoas simpaticíssimas, por entre cestos de mangas, as quais tentara vender algum dia lá atrás, e grandes jacas expostas – é seis mais faz por cinco – estava um armado de alumínio e um cheiro de óleo fumegante tostando pastel e moendo de cana. Estranho. O senhor com saco plástico na cabeça, dono da pastelaria improvisada na feira, costumava ficar de frente para mim do outro lado da rua quando eu costumava sentar nas escadas da sorveteria conversando com seu Juscelino, dona Finha e Nininha, ou às vezes calado só observando as gentes, os ditos e os gestos.

Mas talvez durante o tempo que passei ausente houvesse se efetivado uma inversão, um salto de lado. Nada. Na outra margem outros rostos, nenhum dos usuais amigos da feira. Tinha trabalho a fazer, fotografias a fazer, produzir imagens da feira que serviriam para o trabalho este e um outro de fim de período. Então segui o caminho das imagens congeladas pelo aparelho digital, mas sempre de olhos abertos e orelhas em pé a procura das pessoas conhecidas e sumidas. Nada, mesmo após percorrer a feira por duas ou três vezes. Talvez estivessem doentes, mas como disse Nininha uma vez “feirante não pode ficar doente” ou algo assim. Nem mesmo ela encontrei percorrendo os corredores junto ao seu mostruário de bugigangas vendidas à fiado aos próprios feirantes.

Resolvi então arriscar e entre uma foto e outra - e foram mais de cem - perguntei à senhora que estava ali vizinha ao pastel com caldo de cana, que sempre ficara ali vendendo roupas, se a dona Finha estava doente. Ela me disse que não sabia, mas que já de muito tempo não a via mais por ali. Fiquei preocupado. Será que havia acontecido algo sério com algum deles, ou somente deixaram de ir à feira? Perguntei então ao pasteleiro de plástico na cabeça que agora ocupava o espaço se sabia de dona Finha e seu Juscelino. Ele demorou a entender a pergunta depois lembrou “ahhh a senhora que ficava aqui e o marido dela, um moreno, né? tem muito tempo que não vêm, por isso estou aqui, mas não sei dela não. ela deve ter mudado de feira. os fregueses dela sempre param aqui e perguntam por ela” ou algo assim. Mais estranho ainda, quase um ano tenho de feira e o pasteleiro sempre em frente à banca de dona Finha, mas parecia nunca terem se tocado.

Subi as escadas e fiquei parado olhando o movimento. Um rapaz com seu carrinho de mão estava do meu lado sentado, perguntei a mesma pergunta, ele disse “rapaz não sei quem é não”. Perguntei se era novo aqui, ele disse com voz sotaqueando “não, trabalhei aqui cinco anos atrás, só que me mudei para Santos, agora tou aqui de novo” ou algo assim. Ao me ver com a câmera tirando fotos perguntou “ta fazendo trabalho?”, disse-lhe que era uma pesquisa e já tava lá a quase um ano e perguntei seu nome, disse “Julio, então a gente ainda vai se encontrar mais por aqui, tchau.”. Andei, sentei, fiz fotos e com dona Rosália, senhora vendedora de biscoitos, bejus e tapiocas parei para conversar depois de tanto tempo ausente. Perguntei como estava, como ia a feira e tal. Ela questionou minha ausência, reclamou do tempo que passei fora e ofereceu como de costume três saquinhos de biscoitos. Fiz a mesma pergunta sobre dona Finha, ela disse “aquela que morreu de queda?”. Me assustei ainda mais e expliquei quem era, ela disse “ahhh então não é não, essa é outra que vendia coco” e essa história eu já também conhecia. Ela continuou “meu fiu, sei quem é essa mulher não, eu fico aqui [na parte mais central da feira], meus amigos são esses aqui [apontando para as bancas mais próximas em volta], não conheço mais ninguém de lá de longe não [indicando as duas extremidades]”.

Saí um tanto desapontado por não ter conseguido notícias e por ter ficado tanto tempo longe e ter perdido uma história para a ausência. Dona Rosália, sorridente e por vezes cansada vendedora de feituras de tapioca, disparara uma análise, uma história se fazendo ali, fragmentando algo dado como natural. Tinha claramente a idéia que os feirantes se conheciam minimamente, que formavam uma comunidade entre laços de amizade e ofício, mas agora a história se configurava de outro modo, formavam-se micro tessituras relacionais, feiras dentro da feira. Rachado. As fissuras mostravam outra coisa à qual a percepção foi se transformando para dar conta. As pessoas não sabiam de dona Finha, mesmo as mais próximas espacialmente. Findava ali uma percepção para abrir espaço para uma outra.

A única notícia concreta que tive, descobri depois que estava errada. Um garoto do carrego que já vira algumas vezes pela banca de dona Finha, e que me cumprimentava sempre, quando perguntei pela senhora, puxou pela memória, titubeou e disse “ahhh... lembro dela, ela não ta mais vindo aqui não. não é a esposa dum veio de óculos? é... ta mais vindo aqui não, mas ta trabalhando na feira do Santo Antônio dia de sábado que já vi por lá. passe lá que você encontra”. Vão rastro. Na sexta feira seguinte, em uma passagem bem mais rápida pela feira, encontrei Nininha andando por ali. Entre abraços e reclamações por causa da prolongada ausência fiz novamente a fatídica pergunta. Sua expressão nublou, com um tom de voz entristecido me disse “é... ela foi embora, se mudou para São Paulo, foi a família toda, talvez volte no fim do ano. tavam roubando de mais o sítio deles, muito perigoso... aí resolveram ir pra lá e ficar com uns parentes longe por um tempo” abaixou mais ainda o tom de voz e o olhar “agora eu tou aqui na luta sozinha, ta me fazendo uma falta a minha amiga, tou sozinha” ou algo assim.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um gosto de vidro e corte¹

Um senhor de farda e óculos escuros, rosto de quem carrega o peso de alguma coisa disse da violência que ocorre nas feiras de Aracaju: “sei apenas de um caso: o do feirante que foi assassinado no Agamenon Magalhães por ter reagido a um assalto. E um caso não é dado estatístico”. Os homens de farda efetuam um trabalho ostensivo inteligente, ou seja, verificam situação por situação, problema por problema e de forma técnica, dizem não ter dados estatísticos sobre assaltos e mortes nas feiras. Ele completa: “às vezes dizem que em certa região está acontecendo vários assaltos e quando mandamos verificar, ocorreu apenas um.”. Apenas um.

Neste mês passado, à luz de velas e sabor de bolo com refrigerante, comemorou-se um ano de falta de iluminação na feira-livre do Augusto Franco, um bem humorado pedido por mínima segurança. Seu Antônio, vendedor de tipos de queijos e laticínios e também presidente da Associação de Feirantes declara que a entidade já fez várias reclamações às autoridades competentes, porém nenhuma foi atendida e assim inventa um modo de contornar as intempéries: “eu mesmo, como já fui vítima, pego todo o dinheiro e mando por uma pessoa antes.”, “e não fui eu apenas. Aqui os assaltos são constantes. Quase todo mundo já perdeu dinheiro, carro e até mesmo a mercadoria. Os consumidores não são poupados, o que vem gerando um clima de medo no local”.

O noticiário informa que, conforme dizem os feirantes, as regiões de maior fluxo de gente são as mais afetadas pela violência, a exemplo dos conjuntos Augusto Franco, Orlando Dantas, Agamenon Magalhães, Dom Pedro, Lourival Batista, bairros Siqueira Campos, Dezoito do Forte. Acerca de um mês atrás morreu um feirante na Av. São Paulo, o seu Antônio disse que “antes os delinquentes deixavam os trabalhadores vivos, agora além de levar a renda, já estão matando”. Este foi apenas um caso, não estatística.

Adriano de Jesus Oliveira, 30 anos, outro feirante, não é um dado estatístico, talvez o mais novo apenas um. Sua morte provocou comoção entre os moradores do Agamenon Magalhães na tarde do dia 17 do ultimo mês, após assalto a mão armada no meio da rua, em plena luz do dia. Não me lembro de ter conhecido o Adriano, nem ao menos sei o que vendia e se ao menos trabalhava na feira do Castelo Branco, o nome Adriano de Jesus Oliveira é retrato e na feira as palavras, os gestos e as coisas são de vez; é então um corpo, e sua morte acaba por também matar, em mim, possibilidades de conhecer por onde passa a vida.

Não se fala nada além de sua morte, a fotografia feia da insegurança urbana é o que interessa, sua microhistória pouco importa afinal ele é um estudo de caso do medo. Sua morte não presta nem mesmo para dado estatístico; os homens infames², de cotidianos pequenos, não têm direito a uma história. A rua como lugar de possibilidade morre um tanto mais sem o Adriano e sua história e enrijece enquanto lugar do medo. Na feira híbrida um “sonho estranho” acontece, na boca fica “um gosto de vidro e corte/.../no corpo e na cidade/um sabor de vida e morte”³.

________________________
¹ Impressões sobre o texto disponível em: http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=84892&titulo=especial

² FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. in: FOUCAULT, Michel. Estratégias poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

³ Fragmento da canção San Vicente de Milton Nascimento e Fernando Brant, Clube da Esquina, 1972

segunda-feira, 16 de março de 2009

Para aproveitar a carona da minha mãe já que ela iria ficar por aquela região, nessa sexta que se passou terminei parando na feira do bairro São José( desculpem se falei o nome errado, ainda vou confirmar com minha mãe o nome do bairro mas preferi já escrever).
Ela se situa numa pequena rótula se assim posso chamar presente em uma das ruas pertencentes a esse bairro. Devido a largura da rua há um maior espaçamento entre as fileiras de barracas, tornando por essa razão a passarela mais ampla e consequentemente proporciona uma maior circulação de vento.
Diferentemente da feira do Castelo Branco ela não forma uma passarela reta , mas sim faz curvas. Ela é menos extensa, porém não deixando de possuir a grande variedade de frutas, verduras e carnes. No entanto, ela não possui barracas que vendem dvds e roupas.Um fato que me chamou atenção é que a feira não inviabiliza a total circulação pela rua visto que ela é bastante ampla e acontece em apenas uma parte desta.
Os feirantes me pareceram bastante solicitos apesar de eu chegar em um horário que grande parte deles revezavam com seus companheiros para que pudessem almoçar. Por eu ter achado o lugar mais ventilado achei mais agradável, talvez também porque já estivesse mais acostumada com o ambiente já que a feira acontece na rua em que a minha avó mora.
Nessa rua vi poucos tomaradores de conta de carros, o contrário da feira do Castelo Branco, e poucos carregadores. Apesar de existir barracas, vendedores, compradores e outros integrantes pertecentes a esta assim como na feira que visito com maior frequência, pude perceber pelas diferentes expressões e novas possibilidades que um ambiente diferente oferece as particularidades de cada feira.

domingo, 15 de março de 2009

diário de conversas 13/03/09

I.
8:15 no ponto de ônibus respirando melhor e bebendo água pra recuperar da pedalada. Aparece um menino novo e se senta bem próximo a mim em cima do seu carrinho de mão.
Fico olhando ele tirar o boné, franzir a testa e enxugar o suor. Pergunto se está cansado (pergunta óbvia, mas tinha que começar de alguma maneira) ao qual me responde com balarçar de cabeça afirmativamente.
- Desde que horas tá aqui na feita?
- Desde as cinco horas.
- A feira começa esse horário né? Cedo ein...
- É...
- E quantos carregos já pegou hoje.
- Sete.
- Isso é bom ou é pouco?
- É pouco né? Dá pra nada...
- E o dinheiro ajuda em casa é?
- É, ajudar minha mãe...
Nisso chega um outro menino com seu carrinho de mão e se senta ao lado. Fica me olhando com cara de desconfiado e fala baixo com o-menino-novo. Desconfio que seja perguntando o que acontecera por ali...
Acabo deixando a conversa pra lá e fico só observando: escuto um falando que acha que já vai embora, não aguenta mais não. Cada carrego longe...
O-menino-novo comenta algo de um carrego. Não entendo a linguagem: "fiz dois por um". Como tava distante e não confortável pra entrar na conversa não perguntei nada...
Saem e vão comprar um pastel. Voltam, comem deitados no carrinho de mão e ficam calados.
Uma senhora chama distante... o-menino-novo sai correndo e o outro fica dormindo.

II.
Agora converso com Dona Rosália. Apareço pelo banca dela, pois soube que perguntara por mim. Fui lá e fui recebida com um sorriso, como sempre! Dona Rosália ou tá dormindo ou tá sorrindo.
Pergunto como ela está e diz que está bem, só um pouco cansada. Compro meus biscoitos e enquanto espero o troco pergunto como anda as vendas dessa sexta. Ela me diz que tá tranquila... vende umas coisinhas aqui outras ali e tá tudo bem. Aproveito pra perguntar sobre o preço da banca e me diz que na sexta passada não pagou oito reias não. Pois é um absurdo! Ela e mais um monte de gente não pagou o preço que eles queriam. E completa dizendo que acha que eles vão abaixar... não sabia quanto cobrariam a ela naquela sexta, pois o fiscal não tinha passado ainda.
- E a Associação dos feirantes? Você se associou a ela?
- Ainda não. Tô pensando e analisando pra ver.
- Tá desconfiada é dona Rosália?
- É minha fia... um pouco né? A gente tem que analisar pra ver se é bom mesmo o que eles querem fazer. Tenho que ver ainda... tá cedo por enquanto.
- É... tá certa a senhora. A gente tem que analisar mesmo...
- Pois não é? Tome seu troco..
Recebo um monte de moedas. Comento que gosto pois tenho um cofre. Ela me diz sorrindo que não faz cofre não porque cofre de pobre só serve pra pagar as contas!

III.
Pra terminar o dia, acho que não tinha como ser melhor. Uma visita na banca da Iete, a tia das cachaças! No pretexto de comprar uma garrafinha de cravinho de meio litro aproveitamos pra puxar conversa e ainda perguntamos o nome dela que não sabíamos até hoje. Ela nos contou que decobre se a cachaça é boa assim: dá uma balançada na garrafa; se fizer uma bolha no meio pronto! É da boa.
Nos mostrou tudo que tinha e disse que é ela mesma que faz. Que a vinte anos trabalha com isso e com a mesma cachaça sempre. Ficou nos explicando que se tiver achando o gosto do cravo muito forte é só colocar mais um pouco de 21 que quebra o gosto. Nos disse que ela faz forte, mas dependendo do gosto de cada um é só colocar mais cachaça.
Pergunto se vende muito na feira. Ela me diz que agora nem tanto por causa do bafômetro. Digo que não dirigo, então estou tranquila! Ela ri e me dá mais um copo pra experimentar.
Damos os "até logo" e....


até próxima sexta!

Diário 13 03 09

Quando cheguei nessa sexta, dei conta pela segunda vez da falta dos meninos que costumavam me receber antes da feira. Eles ficavam tomando conta dos carros estacionados e já eram conhecidos. Mas lembro também que uma vez um deles me falou que estava ali na feira só enquanto estava de férias, supus pela sua regular falta que suas aulas tivessem começado. Pois bem.

De início, fui recebido com uma notícia triste. Ao cumprimentar dona Finha, ela falou que a moça que vendia cocos junto ao vendedor de pastel do outro lado da rua e de frente para sua banca, tinha sofrido um acidente de moto e havia morrido uma semana depois. Não me explicou direito por causa do movimento grande que a feira tem nas ultimas duas sextas. Falei, então, com seu Juscelino que finalmente aparecera após ter passado por uma operação de hérnia. Brinquei, “seu Juscelino, quanto tempo que não vejo o senhor, fiquei sabendo que passou por um ruim... te passaram a faca e cortaram alguma coisa sua, mas agora ta melhor?” ao que ele rindo falou, “melhor eu tou... mas que história feia é essa que me passaram a faca e cortaram uma coisa minha, não teve isso não, viu? Ta tudo aqui certinho. Aí gosta de ser gaitoso né?” e ficamos rindo, enquanto ele me contava coisas sobre a operação que havia feito quinze dias atrás e tentava me convencer a comer pão com requeijão. Saí com a promessa de aceitar um café na volta.

E andando pela feira, parei pra falar com dona Rosália, vendedora de bolachas, tapioca e beiju. Comprei alguns biscoitos ao tempo que conversamos sobre o carnaval dela e sua constante cara de cansada. Disse que ficava cansada, pois tinha que, no dia anterior, fazer as coisas pra vender tudo fresquinho além de viajar de Itaporanga até aqui. Perguntei se ela trabalhava só naquela feira e ela disse que aqui em Aracaju sim, mas lá em Itaporanga ela ia também a uma feira de quarta para vender e na de sábado para comprar. Lembrando da semana anterior quando foi instituído o aumento do aluguel das bancas de R$ 6,00 para R$ 8,00 - o que causou tumulto e bastante reclamação, e até uma bicicleta passando com caixas de som por entre as bancas gritando que a associação de feirantes é contra o aumento (ao que parece, passou em várias feiras da cidade, se não todas) -, puxei por esse assunto com ela. Perguntei sobre o aumento do valor e ela disse que era verdade que cobraram sem aviso prévio e sem participação dos feirantes nessa decisão. Disse de modo indignado que não era certo, pois as bancas não haviam mudado, eram as mesmas armações velhas de metal, só mudara a lona que cobre nossas cabeças do sol e da chuva. Falou ainda que eles não haviam passado naquela manhã e não sabia se o preço continuaria depois da pressão da associação. Perguntei se o preço da banca em Itaporanga era o mesmo, disse sorrindo que lá é que é bom, as bancas são todas novinhas e eles pagam somente um real.

Me despedi de dona Rosália e continuei andando e cumprimentando os já conhecidos. Devagar, acabei por sentar ao lado de seu Juscelino levando biscoitos para comer com o café. Falei-lhe sobre a possibilidade de prolongar a pesquisa por mais um ano e sobre algumas idéias que trabalhavam na cabeça sobre o que fazer lá com essa continuação, ele mostrou-se bastante entusiasmado com isso e deu algumas idéias também – ficou bastante empolgado quando sugeriu trabalhar com imagem, sejam fotos ou vídeos. Conversamos sobre a morte da vendedora de coco: ele disse que ela, dois sábados antes, havia sofrido uma queda de moto e batido a cabeça; não foi ao médico mesmo sentindo dores e após uma semana, quando saia de um banho frio, caiu desmaiada e morreu antes de chegar ao hospital, descobriram que havia formado um coágulo em sua cabeça. Perguntei então quem era o rapaz que a substituía abrindo cocos ao lado da banca do pastel com caldo de cana, ele disse que era o irmão dela, que não o conhecia, mas imaginava que já trabalhasse também com cocos em outras feiras. Falamos ainda sobre o aumento do aluguel das bancas, seu Juscelino falou que o governo tinha imposto aquilo sem ao menos informá-los, simplesmente chegaram na sexta passada e cobraram oito reais, “sorte que a associação fez barulho e agora acho que o valor vai voltar ao que era”. Disse que a associação tinha apenas cinco meses, mas que ele já vinha pensando cinco anos antes que era preciso montar uma associação para defender seus interesses. Falou que agora estava certo, pois o governo ia conversar com a associação antes de implementar algum aumento, tinham agora um representante frente às imposições governamentais.

Do outro lado da rua, na esquina da farmácia dois homens tinham em uma caixa por volta de cinco filhotes de cão. Acompanhei seu Juscelino quando foi observá-los, disseram que eram filhos do cruzamento entre um pastor alemão e um fila, a mãe de cor preta e o pai marrom, por isso quatro deles eram negros com patas marrons e um deles todo marrom. Observando isso seu Juscelino questionou porque só um deles era de cor marrom e o vendedor respondeu dizendo que era coisa da genética. Citou o exemplo curioso de um professor seu que era branco feito leite, mas que tinhas os cabelos duros, disse que era por causa da genética, pois a família do pai era branca, loura, de olhos claros e a da mãe tinha ascendência negra, “então é assim, a genética é um bicho engraçado que vai láááááááá... longe e pega umas coisas daqui e outras coisas dalí mistura tudo e bota em você”. Feita e exposição sobre genética ele disse que fazia vinte reais no cachorrinho, seu Juscelino titubeou e acabou levando um por dez. Chegou mostrando para dona Finha o que havia conseguido a um preço bastante camarada, ela reclamou dizendo “mas você não tem juízo mesmo, não ta vendo que não tem mais onde colocar cachorro lá em casa? Já são cinco...”, só que quando ele falou o preço ela saiu para olhar os restantes. Nesse momento a banca de Finha ficou vazia e chegavam fregueses perguntando preços e comprando coisas, ficamos eu e seu Juscelino tentando fazer o possível, mas como ele já tinha dito há bastante tempo, “para ser feirante tem que ter ginga, tem que ter o dom” e eu e ele não tínhamos nem a técnica. Alguns fregueses ficaram rindo de nós e outros com a demora do atendimento foram embora. Então ela voltou com mais um cachorro mangando de seu Juscelino, pois o havia comprado por cinco reais. Agora eram sete cães.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

.das andanças.

Em função da preguiça do tamanho do mundo de hoje cedinho, resolvi ir à feira no final da manhã. Tomei meu café. Coloquei comida pros meus pássaros. Resolvi uma coisa e outra. Como não tinha carona nem passe na carteirinha, peguei minha bicicleta.

Saí de casa antes de meio-dia, ou seja, sol muito quente na cabeça. Regra número 1 (pensei): não esqueça em hipótese alguma a garrafa de água quando sair de bicicleta nesse horário.
Cheguei, falei com Dona Finha que não me deu muita atenção porque tava cheia de gente pra vender. Falei com os netos dela que brincava com o novo cachorro: Lindona. E fui falar com Nininha, que já em clima de carnaval, essa sexta era uma anja. Perguntou-me o porquê de tanto tempo não aparecer, perguntou pelo Joãozinho e foi logo me dizendo que “a feira hoje não tá boa não, mas tá boa também. Vendi muito fiado, mas tudo bem, é bom que próxima sexta tenho meu dinheirinho garantido. Se não for assim, não vendo”.
Voltei pra perto de Finha pra encostar a bicicleta e chega Seu Juscelino do trabalho. “Tô todo sujo hoje” – foi logo dizendo. Falamos umas bobagens, a mesma dúvida da Nininha, respondi e fui pra sombra observar o movimento da feira.
Quando olhei o relógio já eram 12:20. O rebuliço de arrumação já começava. Um caminhão parado na frente da farmácia recolhia uns caixotes de madeira e umas últimas pessoas iam aparecendo pra comprar o que restava. Mas ali onde estava, na frente da sorveteria, os gritos de “venha pra loja” e as vendas ainda continuavam. Feirantes iam se arrumando aos poucos e era visível a pouca ou nenhuma mercadoria que sobrara.
Bebi uma coca-cola, comi um amendoim e tomei um soverte oferecidos pelo seu Juscelino e fiquei por ali na sombra conversando com eles um pouco. Dona Finha tinha vendido quase tudo. Antes mesmo de eu ir embora, a vi vendendo a ultima jaca cortada, a última remessa de manga, as de mamão e um pouco de dicuri. Disse-me que vendeu muita manga. 4 ou 5 por um real. Que se seu Juscelino tivesse por ali naquela manhã tinha mandado ele buscar mais porque o povo tava comprando mesmo. Ninguém mais na feira tinha manga, só ela.
Pelo que vi venderam muito! Seu Juscelino disse que tinha saído 3 horas da manhã e ido devagar até a feira porque levara o carro muito carregado. Falei que na próxima sexta iria bem cedo e passaria o dia todo. Dona Finha, que não boba nem nada, disse logo: coisa boa, vai ficar aqui me ajudando a vender né? Traga o Joãozinho também que ele é bonito e vai vender tudo. Vou dizer que é meu filho. Ri, claro! E pensei... regra número 2: adquira a simpatia do João!
Prestes a ir embora, Dona Finha me perguntou se tinha visto o jornal que falou sobre as feiras. Disse que não e foi logo me dizendo que estavam reclamando sobre as lonas das bancas. Mostrou-me que a cobertura nova das bancas da feira e falou que a moça que faz as carteirinhas para Associação tinha passado lá. Tirou foto e vai receber na próxima semana. Perguntei as informações que tinham dito a ela... me disse que vão reclamar por banheiros porque é tudo sujo, pelas coisas erradas que acontecem e tem que pagar 10 reais todo mês. Pelo que foi me dizendo, a maioria dos feirantes não estão gostando disso não porque tem que pagar, mas ela disse que o tanto que já chorou de raiva naquela feira que vai pagar sim pra poder reclamar. Completou que o povo é besta e não entende que essa Associação é boa. Eu não disse nada.
Despedi-me pra aproveitar e percorrer o restante da feira. A maioria das bancas já vazias e sem ninguém. Um ou outro por ali conversando e mais nada. Mas, logo lá na outra extremidade da feira tinha ainda movimentação, como do outro lado. Acho que as feiras persistem nas extremidades...
Subi na bicicleta e voltei pra casa. Morta, de calor. Mas foi bom. A cidade e mesmo o fim de feira transborda muita energia...
Quem vai comigo de bicicleta próxima sexta?! (hahahahaha)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

o sol é o melhor desinfetante*

Hoje fui à feira. A primeira vez no ano. Havia, em 2009, ido duas vezes ao mercado, no Centro. O mercado não é a mesma coisa, mas parece ter as mesmas coisas e ainda outras tantas mais. Tem de tudo naquele mercado. Farmácia, chaveiro, botecos, restaurantes, frutas, verduras, peixes, roupas, calçados, meninos fazendo carregos, gente se tropeçando, amendoim cozido, louças e panelas e uma miscelânea de artefatos difícil de descrever. Na feira, entretanto, tem algo que o mercado esconde. O sol. O sol em nossas cabeças a nos retirar a sobra do juízo e quase na ausência dele, se por mágica, não sei, há uma busca do entendimento para minúsculas decisões que se precisa tomar. Acordos se produzem numa racionalidade singular. Ímpar. Mas são feitos a todo instante na feira. Fico com a impressão que é mais provável que a raiva, o ódio e a violência frutifiquem mais num mercado fechado que na feira a céu aberto. Acho que seja importante essa relação miúda com o juízo. A feira nos permite isso. Abraço!

* não sei quem disse isso.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

diário de bordo 19/12/2008

Era uma sexta que teria de ser diferente da passada. Acabou sendo, em parte, mas não como planejado. Combinado era irmos, eu e o João, juntos novamente às 8 horas da manhã, pois o pessoal já conhecido nosso começava a estranhar e perguntar por que não íamos mais juntos. Nessa sexta mesmo, Finha perguntou pelo Joãozinho se ele apareceria ou se ia descontar da sexta anterior que eu tinha o deixado ir sozinho.

A mesma pergunta foi feita pela Nininha e seu Joselito e fazendo o comentário de que a gente só podia está brigado. Eu dei uma risada e disse que não, que só estávamos nos desencontrando e que os estudos estavam atrapalhando nossos horários.

Pois bem, seria eu sozinha naquela sexta. Sentei-me logo na sombra e quando percebi já estava gritando o preço da manga (5 por 1 real!!) para os fregueses que Finha não conseguia dar conta. Fui pegando logo uma sacola e fui socorrida por ela devido a minha falta de costume como feirante. Dei o dinheiro a ela e logo fui pegando outra sacola pra ajudá-la a colocar a jaca dentro.

Ainda assim, ela tava agoniada e deu logo uma bronca no marido e no neto (que hoje tava lá porque já estava de férias), pois eles não a ajudavam, só ficavam ali de cara pra cima vendo o povo perguntar as coisas e sem responder. A mulher ficou tão braba que mandou o marido ir dormir no carro porque ele não ajudava em nada mesmo. Fiquei olhando aquilo com sorriso de canto de boca sem querer me meter muito e sentei-me do lado do neto dela, que descascava a vagem. Bem sonolento, em um ritmo bem diferente do agitado da feira, como se não acontecesse nada ao redor.

Quem ajudava a atender os fregueses de Finha era a Nininha, mas como agora não a deixam mais trabalhar com as coisas no chão, ela tem que ficar subindo e descendo a feira pra conseguir vender alguma coisa. No final das contas perderam as duas: tanto Finha com a ajuda pra vender suas frutas quanto Nininha que antes faturava uns oitenta reais e agora não consegue chegar aos trinta direito. Um prejuízo e tanto.

Aquela região por ali da sorveteria está diferente. O lugar que Nininha ocupava com suas bugigangas agora foi tomado por um carro em que um menino vende dvd’s. Tem também música toda hora e muita gente, muita gente mesmo, comprando. Gente que sai às vezes com 10, 20 em uma sacola. Diz seu Joselito que esse menino vende por encomenda e que tem um pessoal que compra a ele pra revender por aí. E o rapa? – pergunto – não pega mesmo esse meninos? Não – responde – isso tem treta, os fiscais quando estão chegando ligam pra eles e eles saem ligando pra todos os outros e daí sai todo mundo guardando. Sem contar que eles não saem sem nada não. É tanto dinheiro que esses dvd’s dão que eles molham as mãos dos fiscais pra poder vender tranqüilo.

Não foi algo que me impressionou muito não, na verdade nunca duvidei de que o negócio pudesse ser assim mesmo. Apesar de na sexta passada, em que também estava só, enquanto acompanhava um menino que vendia DVD, o fiscal da EMSURB chegou e disse que ia levar tudo. Falou até que se não saísse logo ligava pra policia pra levar a gente. Na hora me vi no bolo sendo levada junto! Foi engraçado que só... Mas também tranqüilo porque sabia que eles não faziam nada, a função é só organizar a feira e fiscalizar.

Escutando os boatos de que a feira não seria ali por causa do Natal, saí andando a procura de alguma informação sobre isso. Parei na senhora dos biscoitinhos, que estava dormindo e acabei a acordando sem querer. Ela me deu um sorriso e perguntou o que eu iria querer. Nisso perguntava se sabia de algo sobre a feira e o natal, se mudaria alguma coisa, logo a do lado se meteu na conversa e disseram que até agora se não falaram nada é porque não mudariam.

E até a hora que fiquei, que foi até o final da manhã, os fiscais da EMSURB não tinham aparecido e assim me disseram que não apareceriam mais porque eles costumam ir cedo. Nisso Nininha, que não é boba, deixou o carrinho dela de bugigangas do lado da banca de Finha e dali gritava seus produtos e ficava de olho quem chegava próximo. Falei que dava até pra ela ficar daquele jeito, que se os fiscais chegassem, dizia que tinha parado pra descansar e que estava andando pela feira. Ela me respondeu que ia fazer isso mesmo ou então que nem a mulher das melancias na frente, que quando “os homens” iam embora, ela estirava o pano de novo e pronto.
Disse que precisava ir embora. Desejei boa feira e recebi um feliz natal. Não costumo desejar bom natal, mas o fiz assim mesmo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Despercebidos

Depois de várias sextas que por ali já tinha passado, esse meu último contato com a feira me fez pensar que eu poderia não ter percebido coisas que naquele momento me chamava demasiada atenção. Percebia um espaço, uma amplidão até então não notada. Pensei que poderia ser pela quantidade de gente. E era, em parte. O fato de ter menos gente me proporcionava uma idéia de maior espersão entre os corredores, assim como me permitia perceber lugares que até o determinado momento não havia sido explorado como o fiz.
Pequenas ruas que de tão estreitas eram ofuscadas por barracas posicionadas de uma forma que as bloqueavam vieram à tona. Não só isso, mas um salão de beleza que em dias de grande movimento apenas via a cadeira de seu estabelecimento encontrava-se totalmente visível. Podia ver o cabeleleiro sentado em um banquinho ouvindo atenciosamente um rádio encontrado à sua frente.
Durante essa mesma visita pude perceber um rosto que não me era familiar, e fiquei me perguntando se seria a primeira vez que o via ou se simplesmente não o tinha percebido ainda. Era um senhor de cabelos e longa barba grisalhos, de estatura baixa e olhar vivo. Tinha em sua cabeça um chapéu preto e enquanto mantinha uma das mãos no bolso encostava-se com a outra em uma barraca que vendia carnes. Ele não era o vendedor da barraca nem possuía nenhuma sacola de compras. Será que ele estava ali para observar? Passar o tempo? Não sei!
O cabeleleiro, as ruas, o senhor foram essas as coisas que me chamaram a atenção. O pensamento que ficou em minha cabeça foi: será que vou enxergá-los com os mesmos olhos na próxima sexta?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Diário 28 11 08 ou sobre as estórias que nos contam.

Seu Juscelino é o marido de Dona Finha, vendedora de frutas, verduras e algumas raízes. São pessoas sempre presentes em nossos relatos. Bom, desta vez que estive na feira sozinho, após andar um pouco por entre as gentes, como de costume faço, sentei próximo ao referido homem perguntando se lembrava de mim, respondeu que sim com um sorriso amistoso. Perguntei, pois era a segunda vez que encontrava com ele por lá, não é de seu costume ir à feira e ficar por lá como me relatou novamente, gostava de ir de vez em quando e observar o movimento. Não tinha o dom para ser feirante.

Desta vez conversamos mais um tanto e ele me falou coisas da feira e coisas da vida. Enquanto falávamos da festa de aniversário de sua filha, Dona Finha chegou com um saco de fava e entregou para seu Juscelino debulhar. Aproximei-me e ficamos assim os dois trabalhando para a senhora enquanto ela vendia os produtos. Não sabia que sabia debulhar fava, nunca tinha feito isso, foi algo de intuitivo e na terceira já havia entendido a melhor forma de fazê-lo: primeiro arranca uma ponta, depois retira o fio que une um lado a outro e abre para jogar os grãos na bolsa. Durante este trabalho conversamos sobre algumas coisas bastante interessantes.

Primeiro conversamos sobre a história da feira. Ele me contou que a vinte anos atrás não existia feira em Aracaju, pelo menos não daquele jeito que é agora. Falou que feira daquele tipo com bancas organizadas e acontecendo em todos os bairros havia sido trazida de fora por algum prefeito que ele não lembrava o nome, mas que já existia fora do estado, que ele já havia visto em São Paulo e no Rio quando era mais novo e viajava bastante. Disse que já morou próximo a uma feira livre lá em São Paulo e estranhou quando viu aquele tipo de coisa, pois aqui em Aracaju só existiam três feiras: uma no bairro América, outra no mercado lá no centro e mais uma chamada oficinas no Siqueira Campos. Havia mais ou menos vinte anos somente que as feiras de rua adentraram os bairros por obra de algum prefeito que copiou de fora, isso ficou burilando na minha cabeça porque pensava que a feira sempre existira nas ruas e o estado entrava a posteriori para controlar o espaço. No mínimo uma coisa curiosa.

Enquanto lá estávamos a debulhar favas, um senhor apoiado sobre uma bengala, manco, passa e cumprimenta Dona Finha e seu Juscelino. Rindo ele me conta a estória daquele senhor amarrando-a na antiga feira do mercado central. Disse que ele era conhecido antigamente como Baiano das cobras, pois, em dias de feira, portava duas cobras e uma banca vendendo remédios milagrosos, daqueles que curam de tudo, e era assim que ganhava a vida fazendo arte no passeio público. Isso ele dizia para todos, não gostava de trabalhar, não havia nascido para isso, por isso fazia remédios e arte, era na verdade um ator. Um ator, ressaltou seu Juscelino, um ator, tanto que ele continuava atuando: contou-me que não era manco nem nada, andava pela feira pedindo dinheiro dizendo-se aleijão, pois não trabalhava, antes ganhava a vida assim desde que a proibiram sua arte com as cobras. Proibiram sua arte, então ele criou outra que fosse aceita no mesmo espaço. No entanto caminhava perfeitamente, era um ator, um ator.

Seu Juscelino inferiu algumas constatações: a feira do mercado não era mais feira, segundo ele, agora ela era chata e feira tinha que ser divertida; o mercado passou por uma transformação, mas ainda tem algumas pessoas mais antigas que fazem questão de ir comprar lá, saem com cestos enormes vazios na cabeça e voltam com eles cheios. Disse novamente que na feira é preciso ter ginga para vender, ao que ele chamou de dom de feirante, um saber conquistar o freguês. Então, contou-me da sua jornada junto à dona Finha antes de ir à feira do Castelo Branco às sextas. Começam na quinta-feira a tarde comprando produtos no Ceasa, depois voltam com as coisas no carro e passam por alguns sítios próximos de onde moram para arranjar produtos mais baratos, enfim, em casa arrumam o que é de sua produção própria no carro para de manhã bem cedo, em torno de 04:00, saírem de casa e chegar às 04:30 no local da feira, só aí arrumam a barraca e esperam pela gente. Disse que essa rotina cansa e que já havia dormido duas vezes no carro desde que chegara.

Antes de sair, explicou-me ainda que dava pra viver com o dinheiro que fazia na feira, ali é sempre o começo para quem quer crescer como comerciante. E se eu me juntasse a algum amigo poderia montar uma sociedade e fazendo três feiras por semana, o que significaria três turnos numa semana, pagar a faculdade e ainda sobrava um dinheirinho pra viajar. Então depois de algum tempo de silêncio, me despedi, enquanto ele brincava com o neto que também estava por lá no dia. Disse que na próxima festa que fariam era para eu aparecer e chamar a menina, no caso mairla. Consenti com a cabeça e saí...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

diário 21 11 08 (descobrindo a associação de feirantes)

Diferente de outros dias, como havíamos resolvido na ultima sexta, fomos em dupla. Encontrei Mairla por volta de oito da manhã e voltamos pra casa próximo às onze, quase três horas se passaram sem que nos déssemos conta do tempo que o relógio marca. Nos encontramos num praça que fica por trás das bancas de frangos, a vi lá pequena sentada sozinha por trás das gentes observando. Ela me falou das pessoas que haviam notado sua presença: dois homens e suas bicicletas, quando um deles pediu para ela dar uma olhada no seu veículo enquanto comprava alguma coisa – Mairla, quem sabe virará, algum dia, guardadora de bicicletas naquela praça; os bêbados da manhã de sexta, em geral amistosos com suas garrafinhas de cachaça, pararam um instante e depois atravessaram a rua e alojaram-se na calçada do outro lado da rua. Conversamos mais um pouco sentados, quando três policiais andando como quem só toca o chão, ou talvez pisa mais forte, atravessam em meio as pessoas, os corredores da feira. As pernas nos colocaram em movimento e fomos atrás dos fardados para ver o que dava.

Seguimos mas nada se deu, imaginamos que fosse pegar ônibus no ponto para ir ao trabalho. Daí encontramos com Dona Finha e Nininha que trabalhavam sob o sol quente, como de costume, sorrisos e comovais, tudobens. Instantes depois passam novamente os policiais com dois rapazes sob os punhos cerrados e por instantes os olhos da feira voltaram-se para a cena. Perguntamos como havia sido a festa da filha de Dona Finha e Seu Juscelino sob o pretexto de comemoração de anos. Havia sido boa e fomos questionados por que não havíamos aparecido por lá, algumas desculpas e ficaprapróxima. Nininha, toda encapuzada, sob o sol quente suava, estava um tanto adoentada devido exposição solar, resolvera, então, se proteger mais enquanto no trabalho. Um tanto entristecida, porém forte, ela nos falou que na próxima semana não poderia mais vender suas coisas no chão, mesmo pagando ao fiscal o valor tributário ao uso do chão para expor mercadorias, o rapa avisara que levaria suas mercadorias apreendias se ainda estivessem utilizando o chão da manhã de sexta. Resultante, disse que venderia suas coisinhas agora no carrinho que carregava perambulando pela feira. Um problema, pois como Mairla observou, Nininha dava conta também dos produtos da banca de Dona Finha quanto esta não estava presente ou se embananava meio ao acumulo de gente.

Ah! Teve o carinha lá do carrego no dilema de levar ou não uma pochete de Nininha. Ele tentando convencê-la de pagar na próxima semana ou mais tarde, argumentou que a feira estava fraca no dia e não tinha conseguido muita coisa, o que confirmou nossa percepção anterior que a feira estava realmente mais vazia. E também algumas pessoas da fiscalização certificavam-se sobre a correta medida das balanças. Daí, de novo em movimento, fomos atrás de uma moça que, de acordo com a descrição feita a posteriori por Mairla, vestia um palmo de short e uma blusa amarela mostrando a barriga esburacada horrorosa, devo concordar com essa observação, pois vi com estes olhos que a terra há de comer. Fomos atrás, pois comentei que ela faria sucesso com os marmanjos da feira, mas não ouvimos nada e continuamos andando enquanto ela fazia suas compras. Andamos mais e passamos novamente pela praça dos banheiros químicos vendo a movimentação, alguns bebiam lá, outros descansavam, e Mairla quis voltar pela rua de trás devido olhares estranhos direcionados a nós naquela parte, mas insisti e resisti ao medo dela e voltamos pela mesma rua e nada aconteceu. Então sentamos na praça do parquinho e ficamos observando alguns homens que conversavam e tomavam pinga por ali. Penso que a feira tem mesmo destes espaços de sociabilidade que estão além da feira, juntam em um mesmo lugar crianças no parque e bêbados que bebem conversam e chamam gato, cachorro, periquito e gente de carniça. Ôh carniça! Sai daqui carniça! Então apareceu o sorveteiro pela rua e um dos meninos do carrego que estavam ali na praça comprou um e recebeu o conselho de não dar sorvete aos outros para que ele pudesse vender outros! É mole?! Demoramos-nos um bocado na praça observando ao que o corpo de Mairla respondeu com bocejos. Levantamos para acordar, enfim.

Andando novamente, vimos uma senhora com alguns papeis em mãos, ela conversava com algumas senhoras feirantes, mas não era consumidora, estava ali com outros intuitos. Rondamos, circulamos por perto como moscas de padaria para perceber seus interesses até que, conseguimos ler na página superior que ela carregava algo como “Cadastro... Associação de Feirantes”. Aquilo nos inquietou, mas não conseguimos espaço para conversar com a tal mulher. Então fomos a uma banca que vendia beiju, tapioca e bolachas. Comprei alguns biscoitos e Mairla um beiju, aproveitamos a desculpa para perguntar a senhora vendedora sobre quem era aquela mulher e o que ela estava fazendo. Ela fez uma cara feia de desconfiada e falou que era alguma coisa da associação de feirantes que estavam inventando, porém era muito cedo para saber ou dizer alguma coisa. “É, tá muito cedo ainda, muito cedo!”

Recorremos a nossa banca de conhecidos para conversar com Dona Finha sobre a tal associação. No caminho, um detalhe emergiu do campo: já havia alguns feirantes com crachás indicando participação na tal associação de feirantes. Curioso, pois não havíamos dado conta deste detalhe anteriormente e justamente as pessoas que portavam a identificação são aquelas que fazem na feira uma outra feira, aquelas que tem outros tipos de cuidados com suas mercadorias e efetuam outro tipo de marketing. Chegando à banca de nossos amigos, conversamos com Nininha sobre o que vimos, ela nos explicou que não sabia ainda direito o que era e fazia pouco tempo que haviam começado com aquilo, mas que precisava pagar dez reais por mês e que não serviria de muita coisa, pois só dava assistência ao feirante que caia doente e “quem já viu feirante cair doente? Feirante não cai doente não”. Falou, ainda, que não estavam explicando a história direito não, sabia das coisas superficialmente e que não ia ajudar em nada a ela porque de todo modo ela deveria tirar suas mercadorias do chão após o ultimato dado pelo rapa.

Aqui nos atravessa uma história enquanto estávamos novamente sentados próximos à Dona Finha e Nininha. Um certo rapaz chamado Márcio, o qual trabalha fazendo carrego de mercadorias, nos vez rir com suas histórias da feira por algum bom tempo. Contou-nos uma história de uma “veia que paga bem, mas é chata feito o infiliz”, disse ele que ela pagava dez reais por carrego, mas quando chegava à casa dela, trancava o portão e tentava evangelizar o rapaz. “Ela me vinha com uma aguinha com açúcar sem graça e uma bíblia dizendo que eu tinha que ser testemunha de Jeová. Testemunha de quê, minha veia? Eu nem tava lá, eu nem era vivo, nem conheci esse tal Jeová! Testemunha do que eu nem vi? Vou acabar é sendo acusado! Se ainda tivesse umas coisinha, um agrado, um suco, uma filhinha, umas gracinha, mas não só tem veia! São três veias morando tudo junto. Ela paga bem, é dez reais, mas também tome cinco horas de veia lendo bíblia! Pois... ninguém daqui suporta essa veia, todo mundo foge, só um veio lá que também é crente e gosta das rezas.” Daí perguntei se tinha muito disso por lá, de pessoas que o pessoal do carrego fugia: “Vixe! Muita gente! Muita gente chata mesmo!”. Então ele saiu sem se despedir pra tirar graça com outro rapaz do carrego e depois saíram os dois para trabalhar.

Também nos levantamos e fomos procurar saber mais sobre a tal associação de feirantes junto ao pessoal que já portava o crachá. Uma mulher que vendia verduras trazia escrito em seu indicativo “Diretoria”, paramos junto a ela para conversar sobre a associação e ela nos indicou ao senhor que vende queijos na banca ao lado: “Olhe fale com Antônio pra ele explicar melhor pra vocês, ele é o presidente, quem teve a idéia e criou a associação”. Antônio vende queijos em sua maior parte, mas também castanhas e biscoitos, já havíamos percebido algo diferencial em sua postura de comerciante frente aos outros feirantes: a organização da sua banca e o manejo com as mercadorias indicavam sua diferença, algo sutil, que poderia até ser chamado de “mais limpo”, mas também um outro jogo relacional com o cliente algo que trabalha também pela propaganda. Ele nos falou que criou a associação para fortalecer a classe dos feirantes que, segundo ele, estavam correndo risco, pois a prefeitura junto aos grandes supermercados estava tentando acabar com as feiras livres e transformá-las no que tinham feito com as feiras do mercado central, do augusto franco e do orlando dantas. Disse ainda que a feira é “um patrimônio cultural da humanidade” e que não poderia morrer. Além disso, falou que os associados tinham benefícios garantidos, tais quais lazer no clube cotinguiba e assistência médica na rua Bahia. A associação foi criada há apenas um mês e não possui filiações políticas, segundo o presidente, e tudo feito com iniciativa e dinheiro dele próprio. “Já existe sede com computador e tudo, inclusive e-mail, mas ainda é muito novo, a gente ainda ta conversando com o pessoal”.

Disso voltamos para a banca de Dona Finha e conversamos com Nininha contando do que ficáramos sabendo. Mesmo assim ela não mostrou muita confiança e falou que se fosse assim mesmo a idéia seria boa, mas “tem que ver, tem que ver...”. Fomos então embora, após quase três horas de feira, sem nem ao menos termos nos dado conta do tempo que o relógio marca.