segunda-feira, 19 de abril de 2010

Agora eu já sei o que responder...

Desculpa tá tomando o espaço de voces, achei isso num blog, pus noutro e tambem to pondo aqui. Nem sei se podia, mas às vezes a gente tem que ser pentelho mesmo...

"Ajudamos a controlar crianças inquietas na escola, a melhorar a disciplina, a controlar a sexualidade; contribuímos com nosso saber para asilar os loucos, as prostitutas, os desempregados; ajudamos a ocultar a produção das desigualdades sociais justificando-as como diferenças individuais; criamos instrumentos de seleção e categorização; pusemos o homem certo no lugar certo; isentamos a escola de suas deficiências com nosso conceito de dificuldades de aprendizagem; chegamos até a justificar acidentes de trabalho pela pulsão de morte; construímos exclusão de minorias através da concepção de patologia nas condutas. Apresentamos como necessária e normal a constituição da família burguesa das camadas médias e condenamos as famílias das camadas de baixo poder aquisitivo à patologia; fizemos do homem branco, europeu, heterossexual, das camadas médias, o modelo da normalidade (...) Justificamos e reafirmamos a normalidade das condutas das camadas dominantes, apresentando-as como naturais. Retiramos desta natureza o conceito de normalidade. Enfim, tornamos normal o que é dominante. Esse tem sido o nosso compromisso social". (Ana Bock)

http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/

sábado, 10 de abril de 2010

Impressões da Feira de Laranjeiras (II)






Com o intuito de verificar se a notícia de que a Feira da cidade de Laranjeiras iria sofrer uma mudança de lugar, com a visita ao local, obtive as seguintes impressões.



A feira livre é um local público que em determinadas épocas e dias fixos, se expõem e vendem mercadorias. Como acontece em diversas cidades do país, a feira da cidade de Laranjeiras, situada no interior do estado do Sergipe, é um fenômeno econômico social muito antigo, que já conta com mais de 17 anos de existência, mas que como toda e qualquer feira tem suas implicações de ordem pública e possui regras de criação e funcionamento que dependem da intervenção e da garantia do município.



Como as feiras se originaram há muito tempo, quando as pessoas se reuniam periodicamente em algum ponto pré-determinado da cidade para vender seus produtos à população ou mesmo realizar trocas, com o tempo o número de mercadores foi aumentando e o poder público interveio com o objetivo de disciplinar, fiscalizar e, é claro, cobrar impostos.



O papel das feiras tornou-se verdadeiramente importante a partir da revolução comercial, nessa época os mercadores realizavam transações comerciais e intermediavam trocas numa atividade eminentemente itinerante. Esta prática tornou necessário o uso do dinheiro, como havia pessoas que vinham de diversos lugares, existia então, uma grande variedade de moedas em circulação, o que ajudou e muito a desenvolver os bancos e o câmbio. As feiras eram localizadas em lugares estratégicos, como num cruzamento de rotas comerciais e algumas chegaram a ter abrangência internacional.



As feiras livres existem no Brasil desde o tempo da colônia e apesar dos tempos modernos e dos contratempos que elas causam nas cidades, elas não desapareceram, embora corra o risco, em muitas cidades do interior do país, elas são o principal e, às vezes, o único local de comércio da população, funcionando também como centro cultural e de lazer. Algumas pessoas circulam, examinam, pechincham ou simplesmente estão à procura do que desejam. Outras pessoas já têm suas barracas preferidas, conhecem o feirante de longa data e parecem mais amigos do que fregueses. Pode-se dizer que a feira é uma referência cultural, muitas vezes visitada por turistas e bastante frequentada por pessoas de cidades vizinhas.



Mas a feira está sendo descaracterizada, está sendo deslocada das áreas estratégicas para áreas de pouca movimentação e convívio social, geralmente distantes da zona de concentração populacional, áreas pouco habitadas ou mesmo desvalorizadas.



É o que está acontecendo na cidade de Laranjeiras. Numa visita a cidade, conversando com as pessoas que frequentam a feira, de uma maneira geral, a maioria se mostrou contra a mudança da feira para a praça de eventos da cidade, um dos principais motivos para que ocorra essa mudança é que a feira ocorre nas imediações do campus da Universidade Federal de Sergipe, além de interromper o trânsito, impedindo a circulação dos veículos, mas as pessoas alegam que a feira só funciona aos sábados pela manhã, e que já há uma tradição, um costume da feira naquele local, com a mudança de lugar haveria uma grande dificuldade de acesso, já que a feira seria dividida, pois o mercado de corte e cereais permaneceria no prédio vizinho a Universidade, mas as barracas de frutas e verduras seriam transferidas para a praça de eventos que fica do outro lado do rio, apesar da construção de uma passarela, os mercadores relatam que “os fregueses que forem ao mercado de corte, não vão atravessar a passarela para olhar se o tomate ou a cebola estão na promoção”, o que poderia acarretar prejuízos.
Enfim, a feira mais parece uma “confusão” perfeitamente organizada onde tudo funciona na hora e no lugar certo. É um lugar caricaturesco cheio de figuras ou personagens, cada um com sua história, um lugar com cheiros, sons, cores e luzes a serem descobertas, exploradas, fotografadas... na memória e na história.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

RELATO DA VISITA À FEIRA DE LARANJEIRAS

Teve o objetivo de averiguar o que as pessoas ligadas à feira de Laranjeiras - feirantes, vendedores ambulantes, comerciantes do local e compradores – achavam quanto à informação sobre a mudança da feira para a praça de eventos de Laranjeiras.

A feira acontece próximo ao recém chegado campus da Universidade de Sergipe no município, sendo estes um dos motivos apontados para tal mudança. Além disso, alegam que outro motivo da mudança se deve a feira estar atrapalhando a circulação de automóveis e outros transportes. A notícia da mudança era sabida pela maioria dos entrevistados, sendo que alguns comentavam saber a pouco mais de um ano e outro só a um mês. Uma compradora, que diz ser assídua, revela que não sabia da notícia da mudança e fica surpresa inclusive por saber que a entrevistadora que é de outro município sabia.

De um modo geral, a maioria dos entrevistados era contrário à mudança e estão descontentes com a mudança da feira. Entre os argumentos dessa contrariedade é que grande parte dos feirantes está acostumado com a feira nesse local, já que a mesma se encontra lá há muitos anos e acreditam que essa mudança da feira será para pior, seja para o comercio dos feirantes, visto que dificultará o acesso dos compradores à feira, apesar da passarela a ser construída, comentada por muitos entrevistados. Acreditam também que a feira ficará dividida, pois uma parte será transferida ao mercado (parte de “corte”) e a parte restante de frutas, verduras e etc, irá para a praça de eventos. Outros feirantes acreditam que o futuro espaço será insuficiente para comportar o tamanho da feira.

De modo controverso, uma compradora relata que a mudança pode ser interessante já que a feira se encontra muito apertada, o que dificulta conhecer as promoções, além de o atual local da feiras ser sobre pedras que dificultam o caminhar dos compradores, que correm o risco de tropeçar, por exemplo.

Curiosamente, um feirante comenta que o preço que paga pela estrutura montada da feira é de 7 reais por semana, sendo que antes era 6 reais e em época de eleição o valor era dividido entre o feirante e a prefeitura.

Quanto a opinião de uma vendedora da loja de material de construção que fica próxima à feira, menciona que a mudança trará vantagens e desvantagens para ela: de um lado proporcionará à loja que os veículos que transportam o material tenha fácil acesso para carregar e descarregar o material aos sábados (dia em que a feira acontece); por outro lado acredita que com a feira em outro local, poderá de certo modo diminuir o número de clientes na loja, além dela mesma ser compradora da feira e a mudança da feira de local dificultar seu acessa a ela.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Da Fabricação à Realidade (I)

Palavras e coisas. Entre os dois, um abismo colossal que tentamos suprimir com nossas engenharias de correspondência e representação. Com o Bruno Latour, a conversação é outra. Não mais a verticalidade do abismo entre discurso e mundo, mas a transversalidade das artérias pelas quais circulam as cadeias de transformações. O único discurso razoável e verossímel de uma mente sobre o mundo seria aquele que considerasse o maior número de relações que possibilita à ciência - e a própria mente, não mais isolada - existir! Se numa epistemologia tradicional quer-se libertar a ciência da sociedade, trata-se agora de ligar nossos saberes ao coletivo.
É comum escutarmos, pelos salmos dos estudiosos da ciência, jargões como "construção", "fabricação" e símiles no tocante à ação da ciência no mundo. Bonito, isso! Coisas, objetos, mundo; tudo é construído! Não obstante, essa metáfora bonita nos passa a idéia de que, se algo é fabricado, construído ou qualquer coisa que o valha, então este algo é falso e merece ser descontruído! "Coisa de pós-moderno frouxo!", resmungam os soldados da ciência. "Construir" e "fabricar" devem - segundo o Latour - ganhar novas significâncias, para além da analogia do mundo enquanto playground vazio à espera dos humanos brincantes.
Para a tarefa de Hércules, Latour se apropria do Mémoire sur la fermentation appelée lactique, considerado um dos textos mais importantes de Louis Pasteur. Através deste, Latour põe em ação duas narrativas: uma primeira, ontológica, sobre a conversão de atributos/desempenhos em uma substância/competência coesa (o que se aplica tanto ao ácido lático quanto ao próprio Pasteur); e uma segunda, epistemológica, acerca da construção dos fatos (e as implicações humanas e não-humanas deste desenrolar).
Logo no comecinho de seu artigo, Pasteur dita que a fermentação do ácido lático não possui uma causa óbvia. Se há algum fermento no meio desse processo, seria apenas um produto acidental e desprezível envolvido numa fermentação puramente química. Mas deixem-me situar, ligeiramente, o cenário de nossa historieta! Século XIX, círculos científicos, química de Liebig. Afirmar que um organismo vivo é o responsável por um processo de fermentação seria dar um passo atrás nas contribuições do senhor Justus e retornar às antigas explicações vitalistas que colocavam mais entraves e problemas que soluções e encaminhamentos.
Pasteur, ao que parece, pega bem essa onda. Não obstante, numa escrita abrupta, Luís grita: É ele - sim! - é ele, o fermento, que desempenha o papel principal! E, com este grito mágico, o fermento - que não passava de uma massa cinzenta aderida nos lados superiores do recipiente - torna-se, deveras, um fermento; deixa de ser nada e passa a ser alguma coisa! E o Pasteur, assim como a massa cinzenta do recipiente, também é transformado num outro, diferente daquele de antes do experimento! Este último ponto, prometo, ficará claro logo mais adiante. Tenham paciência, caros, e continuem a acompanhar nossa aventura. De começo, o leitor do artigo encara um mundo no qual o fermento/matéria orgânica é um substrato irrelevante ou mesmo decadente ao processo químico. Ao final do artigo, o leitor é transportado a um mundo no qual o fermento é uma forma de vida bem identificada e essencial ao processo químico em questão. Latour põe o problema: como Pasteur fez surgir, daquelas manchas cinzentas, uma entidade coesa (a saber, o levêdo da fermentação do ácido lático...)? Sua resposta: a nova entidade é um objeto que circula campos e mais campos de provas e transformações!
Não falei coisa com coisa, eu sei! Tentei explicar e trouxe mais confusão à saga. Mil desculpas! Uma vez mais peço mansidão aos corações dos senhores. Toquemos o barco que, assim espero, esta questão também será clareada. Sério! E, para abrir a mata rumo à essa clareira, Latour nos apresenta o seu conceito de nome de ação: uma série de desempenhos precede a criação duma competência que, no futuro, será considerada a causa destes desempenhos mesmos! Pegadinha: posso ser polvilhado, provoco reações de fermentação, turvo líquidos, consumo giz, formo depósitos, produzo gases, gero cristais e sou viscoso. Quem sou eu? Em primeiro, isto é apenas uma lista de itens que o Pasteur, provavelmente, registrou em seu caderninho enquanto traquinava no laboratório. O máximo que conseguimos tirar desta lista de itens é um ente frágil e indeterminado que, por enquanto, não passa de fruto da imaginação do Pasteur!
Seu Luís, não obstante, esmera-se para dar um estatuto ontológico à massa cinza que bordeia o recipiente. Mas do mesmo jeitinho que não basta ao bom candidato mostrar seu talento para ser considerado um ator, não basta fazer coisas para ser uma coisa! É necessário um contato, um peixe, uma ação por fora do palco, um ato por detrás das cortinas! Pasteur não hesita em mexer seus pauzinhos para pôr seu candidato sob os holofotes e compara o seu funcionamento, seu estilo de atuação, ao do já consagrado lêvedo de cerveja. A massa cinzenta recorre a um ator já estabelecido nos palcos da academia e, de mancha viscosa, passa à condição de entidade biológica, podendo inclusive ser organizada taxonomicamente. Não é, tão somente, um caso de transporte de informações que se transformam, mas é o próprio fermento que possui sua história de alterações ontológicas, passando de uma lista de atributos vagos à uma substância plena e viva!
Um ator se define através de suas atuações. Inferência simples, esta. E, para que o fermento bem-atue, o cientista elabora testes para o atuante mostrar quem é e como interage com outros atuantes. As cortinas do laboratório-cenário são levantadas por Pasteur para que seu novo candidato possa ser testado nesse mundo artificial. Desempenhos agregam-se numa competência! A mancha torna-se "O Lêvedo do Ácido Lático"! Num movimento posterior, a peça é encenada aos colegas acadêmicos de Pasteur, que dão o veredito quanto ao espetáculo. Noutros termos: há um primeiro teste, que se resume num conto de fadas, uma historieta linguística; um segundo teste, que é a configuração duma situação (aparentemente) não-linguística (tubos de ensaio, o fermento, o próprio Pasteur e seus ajudantes); e um terceiro, que é a tentativa de Pasteur - nos dois testes anteriores - em atribuir a competência do fermento ao próprio fermento, e não a sua habilidade retórica em inventar um teste para revelar um novo ator!
Um experimento, destarte, é um texto escrito para ser avaliado por outros para saber se é, tão somente, um texto. Caso a prova final seja bem-sucedida, entende-se que o texto não é, simplesmente, literatura ficcional, e que há verdade por detrás dele. O ator prova sua competência e o autor da novela, claro, também é modificado no processo; se Pasteur, através de seus testes, ajudou o fermento a se revelar para o mundo, o fermento ajudou Pasteur a ganhar uma medalha, a publicar um artigo e a se afamar na academia!
O fermento muda, Pasteur muda, a academia muda. Mas o que é exigido, no meio de tanta mudança, é a estabilidade do fermento. Não importa o quão engenhoso foi Pasteur ao criar seus dispositivos artificiais, os testes de seus colegas devem atribuir a invenção do fermento ao próprio fermento. Fato e artefato. Deste lado, as coisas são construidas; daquele, não há artificialidade nas coisas. E aqui esbarramos no principal entrave dos conceitos "construir" e "fabricar": tudo o que acontece, no vocábulo da ciência, é a descoberta do que já estava lá, seja "lá" a natureza ou a sociedade ou o que quer que seja. Um experimento - fabricado e não-fabricado ao mesmo tempo, saliento - enquanto "descoberta do que já estava lá" sempre vai apresentar um buraco, uma incógnita para a compreensão da originalidade na ciência. Para tampar este buraco, temos numerosas arquiteturas: a natureza exterior, sujeitos transcendentais, paradigmas sociais. A novidade científica, entretanto, se dá porque o experimento não é um "jogo zerado" ou um playground vazio à nossa espera; desvelamentos, a priorismos e potencialidades são apenas rebocos para sustentar um prédio destinado a ruir.
A ciência evolui por meio do experimento. Verdade. Mas o experimento não é uma descoberta, mas um evento circunstancial e histórico; história, esta, de humanos e não-humanos. Um evento no qual todos os envolvidos saem diferentes de como entraram: vide o fermento e Pasteur e mesmo a química acadêmica! Experimento enquanto evento e evento enquanto transformação. Espero, com este post, ter trazido alguma luz - ou, ao menos, não obscurecido de vez - à discussão desempenhos/competência para, assim, poder entrar de vez na temática de construção de fatos e o conflito - enfrentado pelo Pasteur - entre construtivismo e realismo...
LATOUR, Bruno; “Da Fabricação à Realidade";
In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 133-148.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Latour é o Dr. Quantum...(?)



Lembrar-se do exemplo da cidade imaginária de Planolândia, utilizada por Carl Sagan* em sua série “Cosmos”, pode refletir bem a questão moderna sobre a necessidade do “estar fora” para explicação as leis do mundo. O exemplo de Planolândia se refere à outras dimensões, mas pode, sem prejuízo algum, ser utilizado como metáfora para a parte inicial do capítulo 4 de Latour.
Estando “fora”, ou sendo possuidor de uma dimensão a mais, o Dr. Quantum**, - personificação da maçã utilizada por Sagan no seu discurso original e presente nas versões mais recentes de sua exemplificação - é capaz de ver além. Essa capacidade aterroriza um dos cidadãos que habita as duas dimensões. Tendo esse fato em vista, me pergunto, até onde Latour pode estar certo em criticar essa visão “fora/dentro” que perpassa o acordo moderno? Ele não nega as descobertas feitas por esse acordo, mas não nos mostra eventos que realmente tenham feito a diferença no mundo atual. O que Latour faz, até o ponto em que estamos, é voltar-se ao passado e verificar por sua conta e risco o seu modelo inserido ali; Latour se parece bem mais com o servente que move o alvo para que este se molde à flecha atirada pelo arco de seu amo. Até aqui, os argumentos não são costurados convenientemente, mas embolados tal qual um novelo de lã... Espero que, assim como ele tenta explicar a referência circulante na envolvente história da questão savana-floresta, e como, no presente capítulo, da odisséia do fermento - que não era fermento e que, se tornou, de fato, fermento - explique também como ele, um móvel-imóvel, translade-se de servente a amo, e que nos diga qual o rumo de sua flecha, que, aliás, se parece com a de Zenão (ou era uma tartaruga?).
Latour fala de futuro. Ele mesmo fala de sociedade e actantes. Mas não é ele mesmo que está sentado em seu escritório em Paris, escrevendo um livro motivado por uma inquietação pessoal? Onde está a sociedade, ou melhor, o coletivo, no trabalho que escreve? Eu não vejo nada além de sua própria caneta (Me desculpe se não uso os óculos certos, se não sei manejar o bonequinho e fazer teatro, se os meus insumos não estão produzindo a coisa certa, ou se minha trilha possui uma curva demasiado fechada, e se eu não faço as articulações corretas... mas eu estou tentando desvendar essa nossa “referência que circula”). O que há mais “fora” do que sentar e escrever?
 Por enquanto, admiro Latour pela posição pela qual ele encara todas as coisas, mas, a meu ver, assim como no acordo moderno, ele incorpora o nosso Dr. Quantum. Pra mim, é difícil imaginar um olhar-entre. Será que o peixe sabe que o mundo não é apenas feito de água? E não saberia o homem que pesca, que esse mesmo mundo é água, ar, fogo e terra?  Quem está fora e quem está dentro?
Os homens sabem que o mundo possui 4 elementos. Mas o homem não é capaz de ver as correntes quentes e frias presentes em um rio, por exemplo, coisa facilmente assimilável por um peixe, eu diria. O peixe perde em visão geral, mas ganha em visão específica. De igual forma, o homem não sente as correntes de ar que os pássaros seguem. Estes últimos, ainda, possuem a capacidade de enxergar além: vêem a terra dos homens, os rios, lagos e mares dos peixes, e o horizonte que se desdobra em mil e uma cores diante deles. Além disso, creio que eles também saibam dos elementos. Se o homem perde em visão geral, neste caso, ele ganha em específica: ele pode não ver todas as correntes de ar, mas sabe que de tempos em tempos uma ave passa por ali, o que o faz ser hábil na caça, digamos. Quando se ganha em generalidade perde-se em especificidade...O que é estar fora e o que é estar dentro?


 *http://www.youtube.com/watch?v=aZyfkHg1H8Q&feature=fvw
**http://www.youtube.com/watch?v=GF_4J-hq0FI

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Uma breve história sobre sistemas e órgãos

Aprendemos na escola que um sistema é um conjunto de órgãos; um órgão é um conjunto de tecidos; um tecido é um conjunto de celulas. As células são as unidades básicas que compõem um organismo vivo. E as células, por sua vez, são formadas por várias outras microentidades chatas das quais não lembro o nome e que não fazem a menor diferença na minha vida, apesar de eu ser formada por elas também. Explicando melhor, fazem diferença no sentido de que meu corpo é também assim formado, mas não fazem diferença os nomes pelos quais são classificadas e nem todo o repertório de conhecimento científico acerca dessas microentidades, pois, enquanto microentidades, não sei se são de fato aquilo de que meu corpo é composto.
Há aí então uma certa distância entre eu, o objeto de conhecimento, e o conhecimento de fato. Bom, parece que esse distanciamento não tem ocorrido só no que diz respeito aos conhecimentos gerados acerca do corpo humano, mas a toda espécie de conhecimento científico. Ao menos, essa é a opinião de Bruno Latour, e a minha também já que ele acabou por me convencer. Para embasar essa opinião, Latour recorre à metáfora do sistema circulatório da ciência. Como já foi dito antes, um sistema é um conjunto de órgãos. No caso do sistema circulatório, ele é composto por sangue, coração e vasos sanguíneos e tem como uma de suas funções distribuir oxigênio e nutrientes para todo o corpo. Então, através da metáfora do sistema circulatório, Latour tenta nos mostrar quais são os órgãos que mantêm a ciência respirando e bem alimentada. Para ele, um mau* entendimento desse sistema tem alimentado a distância entre o conhecimento científico e seus objetos de conhecimento, e é também o que tem contribuído para uma noção errada do fazer ciência e do “adjetivozinho social”. Para ilustrarmos onde estão os erros e os acertos, acompanhemos o exemplo dado por Latour através da história de Joliot.
Joliot levava uma vida calma e feliz ao lado de seus amigos e família, até que um dia resolveu ser cientista e pior, levar a sério o que fazia! Joliot, empenhado em fazer bem o seu trabalho, um dia descobriu características maravilhosas do urânio com o que poderia construir um reator atômico. Então Joliot, compromissado que era, arregaçou as mangas e se pôs a trabalhar. Não tinha mais uma noite sequer de sono pensando no que precisaria fazer para conseguir o seu reator, pois, como diz o ditado, se quer algo bem feito faça você mesmo. Enumerando as coisas das quais precisava para dar vida ao seu reator, Joliot viu que suas atribuições iam muito além do que aprendeu na faculdade. Seu raciocínio foi mais ou menos assim: “preciso conseguir urânio para poder estudar melhor suas propriedades, preciso de outros cientistas para me ajudarem nos estudos, precisaremos de dinheiro para levar adiante os estudos, precisaremos convencer pessoas de que os nossos estudos chegaram algum lugar se quisermos receber financiamentos, e isso só pra começar!”
Parando por aqui a história de Joliot, antes que vertam lágrimas dos nossos olhos, vamos agora apontar onde estariam os erros e os acertos de possíveis interpretações dessa história. De um lado, alguém vidrado em narrar os fatos “puramente científicos” poderia se ater apenas a contar a história de Joliot narrando apenas as descobertas científicas. Por outro, alguém interessado em tramas políticas contaria apenas sobre os acordos e negociações envolvendo a corrida pelo reator atômico. Uma versão científica e outra social. Onde estão os erros? Nas duas! Para Latour, nem uma nem outra se aproximariam mais da realidade. O que chega mais perto é a versão em que ambos os aspectos são levados em conta, uma versão que admita os intricamentos entre política e ciência. Sendo que aquele que tenta contar a história puramente científica vai acabar esbarrando em questões políticas, mas considerará que essas questões não estão senão poluindo a sua narrativa, e assim também quem contar a história meramente política considerará elementos científicos como meros figurantes do espetáculo.
Então, como faremos para contar corretamente a história do nosso querido amigo Joliot e outras tantas que conhecemos? É aí que entra a questão do sistema circulatório! Se você falar do sangue não necessariamente você está falando do coração; se falar do coração pode não estar falando dos vasos; e falando dos vasos não é obrigado a falar do sangue. Mas, falando do sistema, você não só estará falando de todos eles, mas também de como eles se comunicam e relacionam, assim, a história ficará completa. Vejamos então por quais órgãos é composto o sistema circulatório da ciência.
Segundo Latour, para se compreender de forma realista o que determinada disciplina científica procura, deve-se considerar, em primeiro lugar, cinco tipos de atividades dos estudos científicos: mobilização do mundo; autonomização; alianças; representação pública; e vínculos e nós. Expliquemos cada uma delas. Através da mobilização do mundo os cientistas podem carregá-lo para onde quer que forem, pois o mundo agora está entendido através de padrões que serão os mesmos onde quer que seja. A autonomização diz respeito ao mérito que certa disciplina científica conquistou; para ser uma disciplina isolada ela precisa de profissionais específicos e conhecimentos suficientes para se tornar independente de outras. As alianças se referem a outros campos com os quais essa disciplina precisa conversar se quiser se manter ativa, esses campos podem ser científicos ou não. A representação pública mostra que os cientistas precisam convencer leigos de sua relevância e veracidade, pois se uma disciplina científica não conquista o apoio da população, que fim terá ela? E, por último, os vínculos e nós são o que os cientistas chamariam de conteúdo conceitual, mas que recebe outro nome para não ser entendido como algo que se basta, pois, vínculos e nós são coisas que exercem a função de interligar pontos. Os vínculos e nós estão perpassando os outros quatro circuitos, e estes por sua vez também estão conversando entre si.
Se o pensamento de Joliot fosse expresso através da nomenclatura desses órgãos ele poderia pensar: "é preciso mobilizar o urânio baseado em todas as características necessárias que contribuam para a realização do reator atômico nodular; ara conseguir isso preciso que a minha disciplina seja reconhecida como autonôma e de colegas empenhados nessa mesma disciplina; preciso também de colaboradores de outras áreas que possam subsidiar o meu projeto; preciso de uma certa porcentagem de apoio da população para que os colaboradores se sintam um pouco mais pressionados e seguros em nos apoiar; e, é claro, que toda essa rede de relações está girando em torno da concretização do reator que serve aqui como ponto de intersecção entre todos os outros pontos.
Assim, com essa representação de sistema circulatório, nenhum órgão será menos importante que outro. Cada um em seu lugar, executando sua função, não pode ser entendido sem a compreensão dos outros quatro e o resultado que conseguem juntos não seria atingido se faltasse um sequer. A história do social não pode ser separada da científica, esse abismo é criado porque nos acostumamos a olhar apenas para uma das extremidades e o que está passando entre elas é justamente o trabalho executado por diferentes órgãos do sistema e que merecem igual atenção para a compreensão de todo o processo.

(texto elaborado a partir do capítulo 3 do livro "A esperança de pandora", Bruno Latour)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Discussões sobre "O urbano em movimento: invenções da vida numa feira livre em Aracaju"


Aqui escrevemos  algumas palavras  ditas antes, por e-mail, ao João, sobre o relatório do pibic com o  título "O urbano em movimento: invenções da vida numa feira livre em Aracaju".  Dividimos estes devaneios e dúvidas...


Existiam alguns vulcões ativos que o princepezinho sempre cutucava com a pá... era só remexê-los um pouco e uma erupção poderia ser evitada. Naquele pequeno planeta, cuja existência havia sido comprovada por um desses cientistas que estudam o céu, também havia uma rosa. Era ela a que mais preocupava o nosso pequeno príncipe. Tudo ali era pacato. O nosso jovem acordava e já sabia o que dele se esperava: vulcões, rosa, baobás. Cada qual exigia-o alguma coisa. Mas, por um motivo ou outro, o nosso protagonista resolve explorar outros planetas, romper com seu cotidiano enfadonho. De fato, ele conheceu outros asteróides e planetas - é claro que não eram iguais ao seu lar, mas cada um tinha algo que o tornava ímpar.
Ao ler o relatório, me parecereceu muito clara a relação entre o conto de Antoine de Saint-Exupery e Eufêmia. A diferença, se me permitem dizer, é que, nesta última, os viajantes atracam e cada qual tem estórias outras, de lugares outros. Eufêmia é o lugar em que se chega, em que as reuniões acontecem. O nosso príncipe, no entanto, se assemelha mais a um desses navegadores cheios de estórias. Ele conta as estórias de planetas outros; estórias sobre rosa, vulcões e baobás. Em Eufêmia, as experiência são contadas e, ela mesma, se torna uma estória pra ser contada em outro lugar. Eufêmia é destino e partida; o asteróide do príncipe, apenas saída. Saída esta não tão diferente da dos comerciantes que chegam à cidade de equinócios e solstícios... afinal, se eles chegam, eles devem ter saído de algum lugar - é sobre esse lugar que eles falam em Eufêmia. É o que dá, à ela, graça.
Acho que na feira em Aracaju o problema são esses príncipes sempre dispostos a falar sobre seus vulcões-rosa-baobás. Não digo problema em contar, mas problema em ouvir. Como preservar-se do ímpeto de dizer que isso é mais importante do que aquilo? Como preservar-se do vício da história que privilegia alguns poucos? A feira, dentro da feira, pode acarretar uma seleção involuntária, ou não? Do mesmo modo como julgamos a feira como algo possivelmente sujo e desorganizado, dentro de um lugar maior que é Aracaju, o que seria - ou, onde seria - o menos sujo e desorganizado da feira, quando comparada com ela mesma? Então, me pergunto, o que é a feira para a própria feira? O que seria Eufêmia, se tudo o que se conhecesse fosse Eufêmia? Sobre o que se falaria? O que a faria ser "diferente"?