quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Implicações na pesquisa antropológica por Auge

RESENHA Não Lugares – Marc Auge

O Próximo e o Distante

O estudo de espaços tem sempre uma gama de fatores relevantes e complexos que fazem jus a diversidade do que os constrói. Pensando na pesquisa de lugares, Auge afirma que a etnologia testemunha os fatos diretamente na atualidade, entrando em contato com a enunciação e o enunciante. De outro modo, o antropólogo recorre aos testemunhos dos etnólogos e apesar do interesse pela história não é um historiador.

Na inserção no campo da feira há o contato com uma diversidade de elementos do cotidiano desse lugar que não se refere a uma enunciação contínua, mas descontínua com múltiplos enunciantes, por isso a variabilidade de informações a serem captadas.

Existe para Auge a etnologia do próximo que guarda uma dupla questão: saber se tem a mesma sofisticação, complexidade, conceitualização que a das sociedades distantes; saber se os fatos, as instituições, os modos de reagrupamento e circulação específicos do mundo contemporâneo são passíveis de um olhar antropológico. Existem uma enorme quantidade de elementos de interação, além de todas as formas institucionais pelas quais é preciso passar para apreender a vida social. Realmente os desafios são muitos ao interagir com um espaço relativamente novo, estranho ao pesquisador, onde diversos fatores podem colaborar ou atrapalhar na investigação/observação do lugar, como fatores climáticos, emocional, relacional, entre outros.

No entanto, é essencial não confundir a questão do método com a do objeto (não entendi como se confundi e no que essa confusão repercute). A investigação etnológica envolve os aspectos do método (contato efetivo com interlocutores) e representatividade do grupo (falam de quem não vemos). O objeto da antropologia se refere a capacidade de generalização, elaborando hipóteses gerais a partir de inspirações particulares. Essa generalização diz respeito ao método, não ao objeto. Mas a questão do método não poderia ser confundida com a do objeto, pois o objeto da antropologia não faz descrição exaustiva.

Vale a pena distinguir método e objeto afim de se ter clareza ao o que se pretende estudar, o que ou quem se pretende entrar em contato, para finalmente saber “como abordar”, o que podemos afirmar sendo este “como abordar” o método. Poder distinguir método e objeto demonstre a riqueza do trabalho de pesquisa, a partir do momento que se descreve os desafios enfrentados, as dúvidas, percalços, questões, tudo que relate a autenticamente o estudo.

De acordo com Auge, o etnólogo de campo tem uma atividade de agrimensor social, pois trabalha sobre o presente e produz um universo significativo. Para tanto, a preocupação do etnólogo passa pela história, bem como pela antropologia ao situar o objeto de pesquisa e avaliar sua representatividade qualitativa. É uma preocupação diferente dos historiadores da micro-história que, além de questionar a representatividade dos casos que analisam, recorrem a pistas, indícios. O etnólogo tem a vantagem de trabalhar com o presente, pois parece ter mais meios de ver mais longe do que imagina. Por isso que ao estudar um campo como a feira, há o momento de observar os fatos que ocorrem no momento e situá-los como tal, mas o mesmo tempo investigar a história do lugar e a cultura que ele carrega.

Uma questão importante a respeito da contemporaneidade não é saber como se pesquisar um grande conjunto, mas saber se há aspectos da vida social contemporânea originado de uma investigação antropológica, mais especificamente que observam o distante. Nesse caso convém chamar a atenção para a precedência do objeto muitas vezes levantada por esse tipo de investigação, mas que não se encaixa com a atualidade. Isso porque são muitos os centros de interesse que surgem ou mudam, fazendo com que não seja possível um efeito cumulativo. Não se trata de evolução (interpretação minha da última frase).

Compara-se esse interesse em buscar novos objetos com as ciências da vida e ciências da vida social, que muitas vezes podem mudar os modos de agrupamento e hierarquização ou complicar os objetos que inicialmente trabalhavam. De qualquer forma, abordar novos campos reflete mais a uma curiosidade do que a uma necessidade.

Auge tentando compreender a complexidade que compõe os espaços explica que na pesquisa antropológica existem duas ocorrências que devem ser levadas em consideração. Uma é a Questão do Outro, que se refere a aquilo que se pesquisa, ao que aparece na história e se distingue do presente, tendo vários sentidos.

A antropologia aborda todo tipo de “outro” – outro exótico, outro dos outros, outro étnico ou cultural, outro social, outro interior, outro íntimo. Este outro íntimo corresponde a uma individualidade absoluta, onde se apreende a uma alteridade complementar. Demonstra-se, então, uma relação entre uma individualidade individual e coletiva. Pode-se afirmar, para o autor, que se a antropologia se interessa pela representação do indivíduo não é só por ser uma construção social, mas por ser uma representação do vínculo social. “O social começa com o indivíduo e o indivíduo depende do olhar etnológico”.

Então, ao tratar de um grupo de pessoas, estaria se estudando não só a vida individual desses personagens, como a história de vida de cada um e da coletividade. Junto a essa história coletiva se resgata também a modo como essas pessoas se relacionam, o que construíram juntas, o que existe entre elas, o que as faz continuarem juntas. Na feira é possível pensar porque feirantes e compradores continuam a se encontrar semanalmente, como convivem juntos, porque continuam ali naquele ambiente. Todo esse entendimento produz uma representação do modo de ser nesse lugar que é peculiar, individual.

Sobre individualidade, Marcel Mauss afirma que é representação da cultura ou padrão de uma sociedade. No estudo da totalidade, da análise do fato social total, esse autor acredita que a experiência é duplamente concreta, quando localizada no espaço-tempo, bem como num indivíduo qualquer, que ao mesmo tempo se identifica numa sociedade na qual ele expressa.

Nesse sentido, a concepção de cultura e individualidade são consideradas como expressões recíprocas, que aparentam uma trivialidade, um lugar comum. Porém, desconfia-se das individualidades demonstradas estatisticamente, absolutas, simples, substanciais. Nem culturas, nem identidades constituem totalidades acabadas, pois só se exprimem sua totalidade de certo ângulo.

No que tange os objetos de pesquisa, não precisa considerar todas as implicações lógicas que os constituem, mas há objetos que consideram as transformações, mudanças, distanciamentos, iniciativas e transgressões. No final faz contas, a pesquisa antropológica tem por objetivo interpretar a interpretação que outros fazem de outros nas diversas circunstancias.

Outro ponto ressaltado por Auge sobre a pesquisa antropológica é a questão do mundo contemporâneo a qual se refere às transformações aceleradas no mundo, o que repercute numa reflexão renovada e metódica sobre a categoria de alteridade, ou melhor dizendo, a diferença, a mudança. Essa visão difere de uma ideia comum da antropologia que parece se voltar a horizontes mais familiares. É possível chamar a esse conjunto de transformações de “supermodernidade”. Quanto a essas grandes transformações no mundo, observam-se três figuras de excesso.


A primeira se chama Superabundância Factual que trata da questão do tempo, o uso que se faz dele, de como a ideia de progresso parece defasada, afinal os fatos acontecem e quando menos se espera já passou. Esse movimento traz o fim das grandes narrativas, dos grandes sistemas de interpretação, o que coloca em dúvida o fato da história ser portadora de sentido.


Há, então, uma dificuldade de fazer do tempo um princípio de inteligibilidade e de identidade (dar alguma definição, fechamento). Demostra-se que vem ocorrendo o desaparecimento de referências, dos grandes temas, do que aparece publicamente, do que parece universal, mas que vem de uma verdade particular. Isso se deve a aceleração da história, da multiplicação de acontecimentos, a superabundância de informações. Os historiadores consideram os acontecimentos um problema e preferem a história como um pleonasmo entre um antes e um depois.


Essa nova dinâmica da história, de inúmeros acontecimentos, repercute em crises latentes que afetam na vida política, social e econômica que faz sentir a necessidade diária de dar sentido ao mundo, ao presente, ao excesso (superinvestimento de sentido). O tempo, que passa a estar sobrecarregado de acontecimentos, provoca uma necessidade maior de dar sentido. Percebe-se uma dificuldade de pensar sobre o tempo devido a essa superabundância factual, também de pensar o presente por não se compreender o passado próximo.


Outra figura de excesso é a Superabundância espacial que se caracteriza pelo excesso de espaço, “encolhimento do planeta”, resultado de mudanças de escala, pelas inovações tecnológicas que promoveram a conquista espacial, a invenção de meios de transporte rápidos. Tudo isso faz com que haja uma visão instantânea ou simultânea do acontecimento.


Esse excesso de espaço ou superabundância espacial faz com que se produza diversos universos simbólicos que se substituem, são parcialmente fictícios, fechados e trazem antes um meio de reconhecimento do que conhecimento. Cada universo constitui um signo composto por códigos que constroem espaços significantes, totalidades plenas, que constituem sociedades identificadas com culturas concebidas como universo de sentido dos quais indivíduos ou grupos são apenas expressões que se definem pelos mesmos processos de interpretação. Essa concepção ideológica é que existe entre a maioria dos etnólogos, mas que a supermodernidade desmancha.


Todas essas mudanças da modernidade – de mudanças de escala, multiplicação de referencias e aceleração dos meios de transportes – faz com que surjam, principalmente nas grandes concentrações urbanas, a multiplicação daquilo que Auge chama de “não-lugar” que se opõe a noção sociológica de lugar que está associada a uma cultura localizada no tempo/espaço. Os não-lugares são instalações necessárias a circulação acelerada de pessoas e bens, entre elas os meios de transporte e centros comerciais. Percebe-se um aspecto paradoxal da unidade do espaço terrestre e o clamor de particularismos.


Percebe-se os deslocamentos dos parâmetros provocados pelas superadundâncias factual e espacial trazem dificuldades da mesma ordem tanto para os historiadores como para a pesquisa antropológica. Tem que aproveitar da experiência distante de descentrar o olhar para melhor observar e compreender o mundo da supermodernidade que ainda não se conseguiu aprender a olhar.


Por fim, a figura da Individualização das referências que diz respeito de uma tendência da sociedade moderna da interpretação de por si e para si as informações que se apreende, produzir expressões particulares, uma individualização dos procedimentos.


As histórias individuais são mais explicitadas na história coletiva, ao mesmo tempo, há uma grande flutuação dos pontos de identificação coletiva. Auge afirma que a produção individual de sentido é mais do que necessária (Por que é necessária?), e que é transmitido por todo um aparelho publicitário e linhagem política, onde uma das ideias principais é das liberdades individuais. Poderia se caracterizar as antropologias como sistemas de representação nos quais são informadas as categorias da identidade e da alteridade.


Levanta-se a questão: como pensar em situar o indivíduo? Como pensar nisso diante de tantas opressões globais as quais o indivíduo sofre na sociedade moderna, principalmente na área urbana? Indaga-se, nesse sentido, ora a uma multiplicidade dos indivíduos médios, ora a média dos indivíduos.


Freud acreditava que era possível tornar a si mesmo como objeto de um processo reflexivo, de observar em si mesmo os mecanismos e efeitos da alienação. Essa é uma prática da auto-análise. Para os antropólogos, a questão remeteria a considerar a subjetividade daqueles que observam, daquele que se estuda, uma tentativa de etno-auto-análise. A individualização das referências leva a se prestar atenção nas singularidades de toda ordem, mas que se contrapõe paradoxalmente a aceleração e redução rápida processos de relacionamento a expressões homogêneas.



As condições de realização de uma antropologia contemporânea, para Auge, deve ser deslocada do método para o objeto (Não entendi porque essa afirmação). Deve-se estar atento às mudanças que afetaram as grandes categorias por meio dos quais os homens pensam a sua identidade e suas relações recíprocas. As três figuras de excesso pelas quais se tentou caracterizar a situação da supermodernidade (superabundância factual, superabundância espacial e individualização das referências) permitem apreender as mudanças sem ignorar as complexidades, as contradições e inultrapassável.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Carta Anônima

Faz tempo que não escrevo pra mim mesma como se fosse para alguém. Qualquer pessoa que possa ler nessa “mal traçadas palavras” algo de mim, meus pensamentos, angústias, enfim, um pouco de minha vida. Já foi um hábito para mim escrever quando passava por algum momento muito delicado meio como um modo de desabafar o que estava por dizer como se fosse para dizer a alguém específico o que queria.
Agora não penso em dizer nada de tão importante, ao mesmo tempo acaba tendo algo de mim, porque de algum modo escrever é expor algo de si, ao mesmo tempo também pode ter algo de outro ou qualquer pessoa. De você que está me lendo, quem sabe não se reconheça nas divagações que pretendo escrever. Aliás, perdoe a letra ilegível, porque é um risco de hoje em dia para quem está tão habituado a digitar, teclar, apertar letrinhas, organizar bonitinho seus textos e pensamentos. A gente ou eu mesma que muitas vezes só escrevo de vez em quando sinto minha mão doer com o mínimo esforço de querer escrever ininterruptamente.
É tão engraçado ver que os hábitos do mundo mudaram, as coisas se transformaram, os modos de fazer as coisas se reconfiguraram, mudam o jeito, mas continuam. Por exemplo, falar de si, falar dos outros, pensar no mundo, na vida. Nesses pontos nos encontramos, eu, você e todo mundo.
Falar de si quase todo mundo quer, gosta, precisa. Externar os sentimentos, aflições, dúvidas, alegrias, tristezas. Essa extrema necessidade de falar de si requer confiança e intimidade como antigas cartas entre amigos e amantes do séc. XVIII. As vezes nem tanto de intimidade, quando contamos algo de alguém circunstancialmente, que estava junto.
Ou nos blogs onde se fala de um tudo de si e de qualquer coisa e todo mundo vê. Os blogs meio que substituíram os antigos diários onde se guardavam os segredos mais escondidos. Não sei se nos blogs as pessoas contam seus segredos... acho que não. Apesar de que o lema da contemporaneidade é a exposição de si nos orkuts, twitters, fotologs, etc, me parece que os segredos ainda irão existir e ainda serão escondidos como algo que só fica para si ou alguém que se confia muito.
Aliás, talvez por isso mesmo exista aquele a quem possamos contar tudo graças a uma relação contratual e ética de profissão: o Psicólogo. Profissãozinha muito doida se for pensar que aquele que depositamos nossa confiança e nos abrimos não é o nosso amigo, não passa de um contrato! Vai nos tratar, nos ajudar a pensar, cutucar feridas, consolar as tristezas, enfim, um depositário de emoções que não pode ser seu amigo, caso contrário, não pode ser seu psicólogo.
Essa idéia que recorremos ao psicólogos para trocar idéias sobre si me faz pensar no quanto parece ser raro encontrar amigos, confiar nas pessoas. O amigo poderia até assumir essa função do psicólogo, em certa medida, mas claro que em nem todos os casos. Casos patológicos nem pensar. (amigo não é especialista, mas ajuda um bocado).
Ainda divago muito quanto a saber a quem podemos considerar amigo. Amigo virou palavra banal, mas as relações se tornaram cada vez mais esporádicas, casuais, superficiais. Não gosto de generalizar, longe de mim. Poderia afirmar que essas relações rasas sejam um tendência. As pessoas tem se tornado cada vez mais desconfiadas, principalmente com o capitalismo, em que a vontade de sair no lucro, o interesse nas relações, enfim...Pode ser que esteja expondo aqui meu ressentimento com minhas amizades frustradas.
Nunca entendi muito em que medida as pessoas preferem ficar mais com umas do que com outras. Formação de grupos, afinidades, proximidade, faz com que excluam os outros sem quê nem pra quê. Hoje até compreendo que tudo isso seja resultado de todo um encadeamento de fatos historicamente construídos que de alguma forma influenciaram o fazer humano. Mesmo assim a dor permanece.
Mas não podemos achar que somos vítimas da história, que não temos condições de mudar alguma coisa, se não no macro, no micro, se não no micro, em si e ao redor de si, o que já é muito. Ser co-responsável pelas coisas que nos acontecem... muitas coisas são pelo acaso, outras são consequências de nossos atos, nossas decisões. Como é difícil decidir coisas, tomar decisões, fazer planos, traçar metas, se definir. Saber que algo que se decidi vai acarretar algo, mesmo que depois se mude de idéia, não é a mesma coisa caso tivesse tomado aquela decisão antes. O tempo passou... Queremos recuperar o tempo perdido de uma decisão mal tomada, mas isso não existe. (O tempo não para, já dizia Cazuza).
E o pior, saber que nossas decisões afetam outros, mesmo que não queira, mesmo indiretamente. Já pensei até que o melhor seria viver sozinho, não se relacionar com ninguém, não viver obrigação com ninguém. Mas isso seria impossível, afinal só se vive em relação, com tudo e com todos. Assim, devo ser responsável com aquilo que faço, ter cuidado comigo e com os outros ao meu redor. Porque o que eu faço comigo interfere nos outros. Então, o que faço de mim?
Nossa, as vezes me dou conta de quanta coisa tenho que pensar, em mim, na minha família, nos amigos ou colegas, no namorado, no animal de estimação, no animal de rua, no mendigo, nos necessitados, na rua, na universidade, no mundo, na vida. Pensar em tudo não como algo qualquer, mas entender o que passa, porque acontece, estranhar o cotidiano, problematizar as coisas mais simples, se libertar do estado de “menoridade” que faz aceitar a “autoridade”, buscar a diferença.
Mas todo esse movimento de pensar fora do automático, de problematizar e estranhar as coisas requer um esforço, cansa. Imagine então estranhar tudo o tempo todo? Olhar ao redor todo dia e se questionar de tudo e de todos, em qualquer lugar, quando então descansar? Será que devemos nos dar descanso? Descansar é o mesmo que se deixar iludir, se conformar? Afinal viver é se cansar, não é? Porém, tem vezes que sinto vontade de parar, parar de pensar, não pensar em nada.
Nossa, agora mesmo percebo o quanto divaguei, o quanto escrevi, o quanto oscilei em meus pensamentos, que podem ser de outros também, que podem ser seus. Aqui nessa carta troco com você um pouco de mim, que tem um pouco dos outros. Poderia divagar sobre tantos outros temas, mas já estou um pouco cansada. Quem sabe num outro momento, numa outra oportunidade. Mas obrigada por me ler, obrigada por chegar até aqui na carta e compartilhar de um pouco de mim. Acredito que tudo que lemos, escrevemos, trocamos, reverbera em nós, nos outros.
“A carta torna o escritor “presente para aquele que envia”...”Escrever é, portanto, ‘se mostrar’, se expor, fazer aparecer seu próprio rosto perto do outro” (Foucault, p.156, 2004).
Até breve! Inté!
Ass.: Alguém...Ninguém... Quem sabe?!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Prezada Senhora Ana Cecília

Tenho, pois, de escrever uma correspondência e quis o destino, isto é, o sorteio que foste tu a minha destinatária. Na verdade, o que escreverei aqui certamente escreveria para quaisquer destinatários, porque o que importa é escrever, “expor-se, fazer aparecer seu próprio rosto perto do outro” (DE V, p. 156). Também importa ser lido, também importa saber quem vai ler, mas nesse caso o universo não se limita a ti. Quaisquer sujeitos presentes no dia 10 de novembro de 2010 na aula foucaultiana poderiam receber esta carta. Então, vamos lá.
Sobre o que escreverei? Sobre qualquer coisa, diriam alguns. Ora, mas não existem quaisquer coisas; todas as coisas têm a sua verdade, ainda que inconstante, que transitória. E atrás dela correram, por muitos séculos, diversos cientistas. Alguns deles sustentaram tê-la e morreram sem saber que “a própria verdade científica de hoje não passa de um episódio” (DE II, 1985, p. 361). Aliás, para construir a história dos viventes, foi preciso buscar estudar a morte, o feio e o erro; não para que a partir daí se chegasse à vida ou ao bonito ou ao certo. Mas para que a partir daí se percebessem as relações entre uma coisa e outra, se percebesse que no emaranhado em que elas estão não se fazem opostas, não se fazem melhores ou piores; o que importa é a relação que se estabelece entre as pessoas, entre elas e os objetos.
Toda relação é um entretenimento. Sem entretenimento não se vive. É um jogo de poder. Um jogo que não dispensa ninguém. Tão logo nascemos, entramos no mundo da linguagem e, então, começou a partida. Uma partida em que cada componente é singular; o contingente é a arena em que se joga e o que move o jogar, além da busca pela verdade, é saber que o tempo do jogo é o presente; não se joga para ganhar ou perder, joga-se para simplesmente viver. Isto pode parecer pouco, mas é o destino de quem mergulhou no mundo da linguagem e conseguiu emergir, ou seja, constituir-se como sujeito. O mundo é feito de “coisas ditas”. O sujeito é tecido no discurso, entrelaçado por ele, e se faz discurso, pois, efetivamente, o sujeito se pronunciará por meio das negações, das súplicas, das dúvidas, etc.
E o discurso de onde vem e para onde vai? Talvez, ele não vá nem venha, pois está aí por todo o sempre na história: “não se pode dissociar o mundo histórico em que vivemos de todos os elementos discursivos que habitaram esse mundo e ainda o habitam” (DE III, p. 404). Constituímo-nos de linguagem e por meio da apreensão que fazemos dela nos expressamos e nos inserimos nas centenas relações de poder; assim em meio a elas abriremos resistências. Nas relações de poder há submissão, entrega, mas há acima de tudo, na repetição dessas relações, resistências, escapes. Essa agitação leva o sujeito a emitir “enunciados que serão considerados verdadeiros” (DE IV, p. 233). Verdadeiros porque foram ditos, ainda que inventados. Afinal, o que conta é “saber o que somos nesse tempo que é o nosso” (DE V, p. 301).
O que somos?
Não somos substância. O sujeito “é uma forma, e essa forma nem sempre é, sobretudo, idêntica a si mesma” (DE V, p. 274). Somos sujeitos que entramos em um ou outro jogo de verdade. As relações que vivenciamos são diversas e distintas; “móveis, reversíveis e instáveis”, logo, fazem-nos sujeitos “com diferentes formas”, imbuídos de poder e de liberdade. Por meio da liberdade é que nos posicionamos diferentemente de acordo com o que exige a história que nos cerca, as contingências que nos surpreendem. Enfim, constituímo-nos plural. Se o mundo fosse um objeto estático, mesmo assim, o homem agiria em relação a ele de modo dinâmico pois o homem se deslocaria em torno desse objeto, olhando-o diversas vezes em circunstâncias completamente distintas. Imagina que o mundo gira, o homem gira, somos uma roda viva.
Veja o que ocorreu em nossas aulas foucaultianas. Quantas rodas de conversa foram feitas, quantas promessas de discutir o texto foram cumpridas e descumpridas, quantas divagações, quantas balas de banana, quantas revelações. Quem tinha o domínio da palavra? Quem direcionava as aulas? Quem se esquecia de ler o texto para a aula? Quem se calava?
Percebeu? Todos fizeram tudo, porque as aulas giravam. A depender da rotação você falava mais, falava menos, não falava. E daí? Numa relação de liberdade e ética, todos estavam construindo a longa escrita de si. A compreensão do Foucault, mas não a compreensão única de um mestre dotado do saber. Chegamos até a duvidar da verdade do Foucault!! Chegamos até a fingir ser o “filósofo mascarado” para que no fingimento escrevêssemos as nossas verdades e mentiras momentâneas!!
Por fim, Cecília, tenho de parar e contestando o início da carta, eis que escrevo algo que é exclusivamente para você, isto é, para mim e para você: “a vida só é possível reinventada”!

Até breve,

Quem assina a carta?


Por ora, sou Herculine Barbin. Por quê? Porque sou homem e sou mulher, verdadeiro e mentiroso, escritor e leitor, ateu e crente, político e nefelibata, rico e pobre, sadio e doente, bonito e feio, forte e fraco; enfim, sou Hércules Barbie.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Já é noite quando me sento para redigir esta carta. Na verdade, ela já deveria estar pronta, já deveria ter sido enviada... acho até que se os prazos tivessem sido cumpridos por mim no momento em que escrevo já teria sido lida. Peço perdão. Alguns imprevistos e contratempos do percurso contribuíram para o atraso, mas agora que posso, sento e escrevo. Escrevo com satisfação. Há muito que um trabalho acadêmico não se apresenta tão interessante aos meus olhos. Fico feliz por ter participado dessa disciplina que se desenrolou de uma maneira muito gostosa ao longo do semestre e que encontrou uma maneira igualmente gostosa de se encerrar: escrever uma carta anônima! Posso afirmar com toda certeza que, muito mais do que Foucault, que foi a figura, a instituição, o autor em torno do qual nos reunimos durante esse tempo, somos nós, eu, você e os demais integrantes do grupo, os responsáveis pelo sucesso da disciplina. Uso a palavra sucesso não pensando em padrões que foram conquistados ou metas que foram atingidas, mas pensando nos encontros que foram proporcionados, nas questões que foram levantadas e nos afetos que foram produzidos.
Pensando em afetos e em todas as coisas que me mobilizaram nesse percurso nem sei se todas são transponíveis em palavras. Mas, sobre as que consigo, ou acho que consigo, falar vou recorrer inicialmente às palavras de outra pessoa, um não-anônimo, nosso conhecido:
Um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois
e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for
bem abraçada no lençol da cama vai chorar por nós
pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz
vai acariciar seu próprio corpo e na imaginação
fazer de conta que a sua agora é a minha mão
mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir
sozinha no seu quarto de dormir.¹

O trecho acima é de uma música intitulada “quarto de dormir” e me faz pensar em coisas íntimas e secretas. Essa carta, por exemplo, se não for íntima, é no mínimo secreta em função do seu caráter anônimo, apesar de ao mesmo tempo ser compartilhada por toda a turma. Já se pensarmos em nós, individualmente, se não somos secretos, não temos como renegar à intimidade que nos constitui. Nos constitui? É-nos imposta? Ou impera sobre nós? Os três não são necessariamente excludentes. Aquilo que dedicamos à esfera do nosso quarto de dormir, inclusive dormir, é parte fundamental disso que foi referido acima como individualidade e que guarda uma certa verdade sobre cada um de nós. Verdade essa que abrange inclusive nossa intimidade e nossos segredos.
Fico me perguntando se não estaria você tentando adivinhar quem sou eu. Quem, dentre as pessoas que foram seus colegas de turma durante um semestre inteiro, estaria te dedicando estas palavras? Em algum momento, para encontrar o mascarado escritor desta carta as coisas ditas precisarão se unir a uma ou mais imagens para constituir a verdade do autor. Maldita verdade que nos acompanha onde quer que formos. Por que maldita? Como uma maldição, ela permite e espera um único desfecho e aparece como única explicação, faz com que precisemos de explicação.
O fardo da verdade se estende às esferas mais íntimas e secretas da nossa vida. Eu disse “se estende”? Agora fiquei na dúvida... será que não seria mais apropriado dizer que é o próprio anseio por uma verdade que produz esferas íntimas e secretas? Sabe, se de alguma forma eu possuísse palavras de conforto diante de todas essas dúvidas que levanto eu as diria. Não sei onde o conforto nos levaria. De fato, não considero que o conforto permita qualquer tipo de movimento, no máximo ele permite que continuemos na inércia do mesmo lugar. Um lugar onde, ao mesmo tempo em que podemos ser facilmente encontrados, é inevitável que estejamos sós.
Acho que essa carta trás um pouco de proximidade... talvez um pouco de intimidade compartilhada. O que venho por meio desta compartilhar contigo, caro colega, é a minha necessidade de companhia. O que quero dizer é que não me agrada permanecer no conforto de uma vida solitária, preciso de companhia, de colegas, de parceiros. Preciso de pessoas, livros, imagens e tensões que ponham a minha vida em movimento, para que nesse movimento eu perceba que a minha vida não é só minha, que essa tal individualidade é ilusória, por que de repente eu me percebo no meio de uma deliciosa confusão muito maior que o meu alcance. Uma confusão que abre espaço para o falseamento da tão perseguida verdade e que a todo instante é invadida pelos frutos do acaso. Também de repente, percebemos que não há nada mais íntimo do que essa estranha coletividade e que os segredos não precisam se justificar, mesmo quando revelados ainda é permitido que mantenham sua aura de mistério.
Talvez essa carta assuma a aparência de palavras ao vento, ou quem sabe contenha certa frivolidade, ou possua uma grande falta de sentido. Não sei. Só o que posso afirmar é que essa é uma carta despretensiosa, não tentei resolver grandes mistérios ou inaugurar novas idéias, só tentei falar um pouco de mim para você! Espero que o prazer que senti ao escrever seja alcançado também na outra margem desse papel!
Com carinho,
Uma boa noite!
Pindorama, novembro de 2010.

Caro Eder,
sei que você recebe essa carta com uma disposição incomum. Ler uma carta de quem lhe é desconhecido é algo incomum nesses dias. Por isso, é essa disposição do que aqui quero tratar aqui, um pouco que seja. A sua disposição, a minha e a dos demais companheiros e companheiras que participam dessa brincadeira, parece-me ser algo que não se deva deixar passar despercebido. As coisas costumam aparecer e desaparecer sem que a gente se dê conta daquilo que foi experimentado. Evaporam. A troca dessas cartas parece dizer que a essa indiferença, não nos permitimos. É uma aposta que faço. Essa aposta pode se confirmar como boa aposta, quando do nosso almoço de fechamento dos trabalhos da disciplina, com todos aparecendo com as cartas que receberam de escritores mascarados para realizar uma leitura pública e comunitária no lugar combinado, mas também pode ser uma boa aposta, nesse instante mesmo, de escrita e leitura, quando outros mundos podem ser inventados.
Menos pelo efeito e mais pelo cuidado, tenderei a ver nesses momentos alguma alegria transbordando, além daquilo que durantes esses meses temos vivido e repartido, junto aos ditos e escritos de Michel Foucault. Como fosse uma brincadeira que vivida intensamente, ao fim vai perdendo o sentido, seja pelo cansaço do corpo, seja pela ausência da lógica que a sustenta, mas nesse princípio de desaparecimento, vê-se entre os brincantes uma correspondência estranha através da troca de olhares, gestos e risos, ou como um sentimento que se reparte sem razão, percebe-se novas correspondências. Algo como se ali, houvesse sido produzida uma outra gramática, uma linguagem singular para aquele acontecimento, que se não faz dele melhor ou pior que outros, lhe torna ao menos distinto. Coisa própria aos que se encontram com disposição em se encontrar.
Não seria possível entretanto, apontar o que cada um leva dessa brincadeira. Muito menos o que levaremos em comum. Também não seria o melhor valor dessa experiência. Acho também que isso não é possível, ante a pluralidade do que se fez. Foucault concordaria com isso? E você? Sei que você não sabe de onde vem a carta. Não tem meu endereço. A pergunta pode soar cruel, dada a inviabilidade de encaminhar a resposta, mas não se trata disso. E que me deu uma vontade de querer saber de imediato a sua opinião sobre isso. Mas disposição e opinião são coisas que não necessariamente precisam caminhar juntas. Melhor até que não.
Mas vamos adiante nessa escrita de mim que intento aqui fazer transparecer uma escrita de si. A condição de escritor mascarado parece querer zelar por essa possibilidade, mas não esqueçamos que ela é apenas uma forma de dizer. Fosse ela o dito, a ética desfilaria pelos atos, como neles mesmos; apenas. A fenomenologia se esbaldaria num mundo muito peculiar a sua verdade. A coisa para a consciência e vice e versa. Não é assim que a vida funciona. Não é a assim que um encontro acontece.
Bom, retorno a disposição como uma vontade quase ingênua, mas ativa, que busca fazer ver as linhas além das margens da folha que as carrega. Isso me parece um encontro. Nesse momento essa questão me incomoda e trabalho com ela para uma outra produção em texto, mas aqui, quem sabe mais leve, solto, distraído, consiga dela dizer, até mesmo como um exercício.
Uma questão. Como conhecer o desconhecido? Uma resposta. Fabricando-o. Uma outra questão. Como fabricar o desconhecido? Uma outra resposta. Entregando-se ao desconhecimento. Penso que as linhas impressas de cada texto só trazem o desconhecido quando atravessadas pelo olhar disposto, curioso e precário, que trabalha em nome da extensão, quase que exclusivamente. Dar extensão as coisas é a sua função, a sua paixão e o seu legado.
Desse modo, esse olhar precário que denuncia a si, melhor, denuncia a sua condição de insuficiência no ato de ver, vai a cata de parceiros ou algo como aquilo que Gilles Deleuze chama por intercessores. Sua condição convoca essas parcerias para que um sentido se produza. Trabalha esse olhar com disposição.
Daí, quem sabe, nas linhas que ele encontra e mira, possa estabelecer nelas, melhor, com elas, alguma miragem. Fazer aparecer onde não está, alguma imagens, mesmo que para uma convicção objetiva não esteja ali o que se diz ver, saberá esse olhar precário em ação conjunta a sua parceria, que há algo ali, pois não poderia ser de outro modo. Ali há o desconhecido sendo fabricado.
Uma cena. A escrita de uma linha, geralmente é marcada por preenchimento do espaço com signos específicos e já reconhecidos, que almejando uma definição qualquer, se agrupam e afastam esse agrupamento de outros; daí o par agrupamento-afastamento estabelece uma sentença que é tomada por frase. O olhar decifrador e filiado a política de Hermes, portanto hermenêutico, dirá dali duas condições. Aquilo que é ou aquilo que quis ser, mas não conseguiu. A frase que é um agrupamentos de agrupados que se afastam entre si, essa mesma frase que se diz sentença, é subtraída da sua pretensão inicial, sendo submetida a uma política de estabelecer o verdadeiro por um modo exclusivo de produzir e impor sentenças. O par agrupamento-afastamento encontra o par verdadeiro-falso e nesse momento encerra-se como acontecimento. Passa necessariamente, nesse instante a ser: seja verdade, seja mentira.
Voltando a cena. Um olhar encontra uma linha. O olhar está disposto, ativo e se sabe precário. A linha, supostamente passiva e disposta na página, aguarda o que dela vai se fazer. Sentença ou presença? É necessário alguma mágica para que esse tipo de máquina funcione. Não vem ao caso, mas eis que o disposto na linha não se encerra nela como sentença e o olhar não consegue deixa-lá e partir para o próximo arranjo. Ficam ali então, namorando. O olhar disposto e precário não se alinha à lógica do que está disposto na página. O movimento do texto lhe comanda a seguir adiante. Ele não consegue. Enuncia aí para o mundo a sua condição precária. Precisa daquela linha. A linha, aquela que fora feita para ser sentença quase percebe que outra coisa pode vir a ser, mas cabe ao olhar retirá-la da página como sentença. Só há um modo de fazê-lo. Transformando-a em som. Ela já se permite uma outra condição. Ele necessita disso. Transfiguram-se o escrito e o lido numa sonoridade. Um encontro que retira o instante de um tempo marcado e o permite vibrar como modulações sonoras, que reverberam os os escritos e lidos para algum além de si-mesmos. Têm-se aí as reverberações do fazer ou
algo como se a linha dissesse ao olho: “me leia, que lhe escuto”.
É o que lhe peço!
Abraço,

Cícero Ritornelo da Silva
Aracaju, 20 de novembro de 2010.

Andressa,

Durante a convivência que tivemos este semestre, pudemos ter contato
com alguns conceitos que vieram enriquecer sobremaneira a nossa
vontade de saber.
Escolhi destacar, neste momento, os temas da menoridade e da
maioridade, discutidos no começo do nosso curso. E não me cabe aqui
pormenorizar aspectos de um e de outro, pois tenho certeza que você já
os domina muito bem, em razão de você ser sempre muito participativa
em aula.
Realço apenas a questão da maioridade. Compreendi que a condição da
maioridade permite ao indivíduo alçar vôos mais altos. Vestido com
audácia e coragem, pode-se modificar a relação preexistente entre
vontade, autoridade e uso da razão.
Mas vamos sair um pouco do campo do conhecimento técnico, formal,
científico, como queira denominá-lo, e passar para a seara da simples
noção de sociabilidade, que muitas vezes se imite na psicologia social.
Abandone o preconceito, pois quero mesmo entrar nos domínios do senso
comum ou talvez não, nem sei.
Senti necessidade de abordar algo sobre amadurecimento, o crescimento
como pessoa, que só chega para nós com o calejamento de tudo que
vivemos. Uns o alcançam muito cedo outros levam mais tempo... Mas é
condição de relevo para se conduzir enquanto indivíduo social.
Outro aspecto muito importante para a nossa vida como pessoa plena é
cultivar o respeito, o reconhecimento, a gratidão para com aqueles que
são muito generosos gastando tempo precioso conosco, seja nos
ensinando, mostrando-nos outras formas de enxergar o mundo,
orientando-nos, enfim.
Despeço-me com a reflexão de Gibran, na sua obra O Profeta, quando se
refere a amizade:
Quando vosso amigo expressa seu pensamento, não temais o não de vossa
própria opinião, nem prendais o sim. (.) E que não haja outra
finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito. (.)
Pois, que achais seja vosso amigo para que o procureis somente a fim
de matar o tempo? Procurai-o sempre com horas para viver: o papel do
amigo é de encher vossa necessidade, não vosso vazio.
E continuo com Gibran, aproveitando a oportunidade para exaltar o
querido e sensível Kleber:
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá
de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Abraço fraterno, um convidado para o baile de máscaras.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Alguém, de algum lugar do mundo, num dia qualquer do presente.
Escrevo-te esta carta sem saber muito bem o que dizer. Mas, de algum modo, escrevo-te para contar algumas coisas da vida que a mim tem se apresentado. Estou vestido com uma potente armadura – o anonimato – que, de fato, alarga a possibilidade de invenção de novos modos de vida. É isso: uma primeira coisa que tenho a te dizer, minha amiga, é que na escrita podemos nos tornar outrem, podemos nos transfigurar, temos condições de abandonar o velho corpo cansado das repetições sem diferenças. Entretanto, querida amiga, não basta afirmar que através da escrita podemos vir-a-ser outra coisa. Não é tão simples assim, ou, pelo menos, não vivo isso de maneira tão simples assim. Quais as condições que se arregimentam para tornar real a afirmação de que escrever pode nos levar a um outro modo de existência? Para tentar pensar melhor essa questão, recorrerei a algumas outras cartas, que aquele nosso amigo incomum, o Michel, escreveu-nos. Lembro-me que essas cartas escritas e ditas sempre nos fazem balançar, estremecer, pensar, sentir e rir. Como um outro amigo – que gostava de usar uns bigodes estranhos e que só acreditava nos deuses mundanos que dançavam – também só acredito num pensamento que possa rir e dançar, num pensamento que perambula com humor pelas tragédias do mundo e que diz sim ao acaso inominável.
Nesse momento mesmo em que te escrevo essas confusas linhas me torno outrem. O próprio ato de escrever algo para alguém produz interferências na minha constituição subjetiva que podem me arrastar para um devir por meio da escrita. Como o nosso
amigo Michel diz, escrevemos justamente para sermos diferentes daquilo que somos, para nos tornarmos outra coisa, para inventar uma outra vida, para potencializar nosso desejo de diferenciação em relação àquilo que se solidificou. E é aqui que a coisa fica mais interessante ainda. Tornamo-nos diferentes do que éramos por meio da escrita, e esse processo de diferenciação não é da ordem de um indivíduo que se fecha sobre si mesmo para se tornar outro. Esse devir da escrita, e através escrita, coloca em cena um agenciamento coletivo que constituirá traços diferentes de subjetivação. Esse tornar-se outrem que pode emergir no ato de escrever se intensifica ainda mais quando a escrita é direcionada para alguém. Algumas coisas que me constituíam, cara amiga, modificam-se quando me coloco diante dessa enigmática superfície branca do papel para te escrever uma carta. Ou seja, torno-me outro agora, quando te escrevo para falar de alguma coisa; meus processos de subjetivação entram em ebulição, e quando falo de mim, de certa forma, falo de alguém que está se inventando na própria escrita. De modo algum esse movimento de modificação de si pela escrita é isolado do conjunto de relações no qual estou envolvido. Já que escrevo para você, sua presença se faz real nos instantes em que as mãos violentam o papel para inscrever algo, no momento em que as palavras me chegam para compor as frases. Sua presença interfere nos processos subjetivos que me constitui, e você também participa do movimento que me faz ganhar outros contornos e novos delineamentos.
Quando digo que podemos diferir de nós mesmo na escrita estou falando de uma coisa que tem me intrigado muito ultimamente. De fato, preciso me tornar outrem! Parece que as velhas máscaras que usei durante um tempo já não me servem mais, e é
por isso também que te escrevo para falar dessa possibilidade de inventar novos modos de vida através da escrita. Trata-se de uma escrita de si, uma escrita que pode desmanchar um arranjo subjetivo que por ventura não mais nos sirva, para compor um novo si. Porém, essa invenção de um novo si nada tem a ver com a busca de um ideal de ego, nem com a procura de um si perfeito. Quando nos desmanchamos e nos reinventamos na escrita estamos apostando numa virtualidade, num horizonte incerto que não nos permite prever o futuro. Ou seja, quando nos inventamos por meio do ato escriturário estamos mergulhando no risco. Esse ato de criar um outro modo de existência não é algo indolor ou previsível. Se de fato apostarmos nessa capacidade de nos tornarmos outra coisa pela escrita, sentiremos a proximidade do risco, estaremos envoltos num desconhecido oceano de perigos e de possibilidades. Talvez, a vida possa se tornar mais bonita se a vivermos com a coragem de não negativar suas tragédias e suas agruras cotidianas.
Esse anônimo que te escreve usa uma máscara, muito confortável por sinal. Mas isso é outra coisa que também importa ser dito: sempre usamos máscaras, de tal modo que por trás de uma máscara só encontraremos mais e mais máscaras, um infinidade de máscaras que se coadunam para compor isso que chamamos de subjetividade. O anonimato é apenas uma máscara, mas que é extremamente potente para pensarmos nossas outras máscaras cotidianas. Utilizamos uma máscara até o momento em que ela nos serve. Mas, será que sempre temos a coragem de abandonar máscaras inúteis à nossa vida? Será que realmente temos a liberdade de inventar outras máscaras, outros modos de vida? Ou será que nos apegamos demasiadamente a
algumas máscaras a ponto de acharmos que elas são a nossa essência, a nossa identidade?
Como falei em linhas anteriores, vivo um momento que me força a abandonar antigas máscaras, para a confecção de outras. Essa necessidade é sofrida também, dolorosa, já que, de alguma maneira, perdemos o rosto quando arrancamos as máscaras antigas. Esse desejo que me assola no momento, desejo de se tornar outra coisa, inevitavelmente passa por um sofrimento. Mas se estivermos realmente dispostos a diferir do que somos, precisamos encarar esse sofrimento. Não se trata de vivermos como mártires, fazendo do sofrimento nossa própria vida; o que digo é que se efetivamente quisermos nos inventar precisamos viver as alegrias e as tristezas, os gozos e as dores desse movimento imprevisível e potente que se arroja na transformação de si pela escrita. Enquanto ainda te escrevo, arrisco-me, tento me tornar outra coisa, tento criar um fugidio modo de vida mais potente. Arrisquemo-nos um pouco mais na vida para a fazermos variar, desfuncionar e se recriar!
Com muito afeto!
Miguel Fucoul da Silva