O narrador vence a distância no espaço e volta para contar suas aventuras num cantinho do mundo de onde suas peripécias têm significados:
Quando no mundo é mocidade,
verde a árvore, moça a natureza;
e cada ganso te parece um cisne;
e cada rapariga um princesa;
Venham minhas esporas, meu cavalo!
Vou correr mundo em busca da alegria!
O sangue moço quer correr, ardente,
e cada criatura quer seu dia...
Nas frias tardes da velhice, quando
é parda toda árvore que vive;
em que todo desporto é já cansaço,
e toda a roda corre na declive;
Oh! Volta, à casa, busca o teu cantinho,
vai, mesmo assim, cansado e sem beleza:
lá acharás o rosto que adoravas
quando era jovem toda a natureza.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
(Holderlin, em trad. De Manuel Bandeira)
Meu dia outrora principiava alegre,
No entanto, à noite eu chorava. Hoje, mais velhos,
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.
Outro poema, sem autor
Ficou no adulto a nostalgia dos sentidos novos:
Tendo perdido as ânforas da infância,
ânforas que tomadas ou aspiradas
derramavam no ar a substância
de que as coisas bebiam inebriadas;
tendo perdido o verde som dos bortos
descer pelas ramagens nos silentes
degraus, ainda vejo no sol posto
o fruto ou flor fechada e rescendente.
Sonho com as espigas debulhadas
Com grãos que a luz unia ou separava
Para cobrir o chão de áureo tecido
E meus pés afundavam na dureza
Macia desses grãos que me fugia
Sem que ouvisse no ar o seu gemido.
Meu dia outrora principiava alegre,
No entanto, à noite eu chorava. Hoje, mais velhos,
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.
Outro poema, sem autor
Ficou no adulto a nostalgia dos sentidos novos:
Tendo perdido as ânforas da infância,
ânforas que tomadas ou aspiradas
derramavam no ar a substância
de que as coisas bebiam inebriadas;
tendo perdido o verde som dos bortos
descer pelas ramagens nos silentes
degraus, ainda vejo no sol posto
o fruto ou flor fechada e rescendente.
Sonho com as espigas debulhadas
Com grãos que a luz unia ou separava
Para cobrir o chão de áureo tecido
E meus pés afundavam na dureza
Macia desses grãos que me fugia
Sem que ouvisse no ar o seu gemido.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
A chama do dragão!!
Apesar de realizar todos os esforços cabíveis para chegar à reunião antes de Marcos foi em vão. não consegui. Ao chegar lá estava ele começando com o aqueciemento, os exercícios corriqueiros. eu entrei, sentei-me, e fui também me exercitar.
As brincadeiras também naõ sairam da rotina. Porém nesta terça o grupo possuía uma face nova, aliás para mim 2, mas o grupo parecia que só um senhor que lá estava era estranho. Ele paricipou do aquecimento. Entretanto, ao começar as danças, ele se sentou e não participou, alhova de uma foram para aqueles velhos dançando, rindo, de uma forma que para mim parecia indecifrável. O outro senhor qeu também não conhecia participou de tudo, demonstrava muita disposição, além de estar vestido a caráter para exercício, este senhor parecia ser muito próximo do outro que não participou.
Fiquei ali olhando para Dona Joana e Doma Francisca, duas mulheres que demonstram serem tão diferentes. Dona Joana toda arrumada, Enquanto Dona Francisca toda simples, e às vezes até condena as atitudes da amiga. Porém sempre estão ali juntas, uma amizade que as diversidades parece só acrescentar.
O senhor que terça passada recebeu aguá na boca da esposa resolveu ficar em casa dormindo. Será que para ela ir até aquele grupo, possui o mesmo significado que para sua esposa?
E dona Sefa... Mais uma vez fez questão de frisar que sua alegria é tanto por fora, quanto por dentro... E que alegria... alegria que inspira, que alivia, que oferece forças...
Marcus pediu a Dona Sefa que escolhesse 4 pessoas pra dançar com ela, na tercira rodada e ela escolheu uma senhora, a qual havia levado a neta, quando aquela de levantou para dançar, sua neta a acompanhou, mas as outras senhoras não deixaram dissendo: é só sua vó.
Esta terça, o pessoal do Lions chegou muito cedo, o que impossibilitou de ficarmso mais tempo lá. Quando James perguntou a eles se haviam levado o poema, ninguém lembrou de levar. E alguns idosos vieram me perguntar o que era um poema.
BOm, após relatar o contato com os idosos, agora posso explicar o porquê da chama do dragão. Como o pessoal do lions chegaram mais cedo e já ficaram lá com os idosos, voltamos com Marcus. Ele entrou no carro e nós saímos do clube, ao chegar na porta ele já havi aligado o carro, e nós estávamos na porta, até que ele gritou: venham! E nós entramos no carro. ele perguntou-nos: pensou qeu iria deixar vocês? e assim completou: Eu não. Marcus Monteiro só tem um, eu sou único...
Adorei essa pérola, e como disse james: imagine se tivesse 2?
As brincadeiras também naõ sairam da rotina. Porém nesta terça o grupo possuía uma face nova, aliás para mim 2, mas o grupo parecia que só um senhor que lá estava era estranho. Ele paricipou do aquecimento. Entretanto, ao começar as danças, ele se sentou e não participou, alhova de uma foram para aqueles velhos dançando, rindo, de uma forma que para mim parecia indecifrável. O outro senhor qeu também não conhecia participou de tudo, demonstrava muita disposição, além de estar vestido a caráter para exercício, este senhor parecia ser muito próximo do outro que não participou.
Fiquei ali olhando para Dona Joana e Doma Francisca, duas mulheres que demonstram serem tão diferentes. Dona Joana toda arrumada, Enquanto Dona Francisca toda simples, e às vezes até condena as atitudes da amiga. Porém sempre estão ali juntas, uma amizade que as diversidades parece só acrescentar.
O senhor que terça passada recebeu aguá na boca da esposa resolveu ficar em casa dormindo. Será que para ela ir até aquele grupo, possui o mesmo significado que para sua esposa?
E dona Sefa... Mais uma vez fez questão de frisar que sua alegria é tanto por fora, quanto por dentro... E que alegria... alegria que inspira, que alivia, que oferece forças...
Marcus pediu a Dona Sefa que escolhesse 4 pessoas pra dançar com ela, na tercira rodada e ela escolheu uma senhora, a qual havia levado a neta, quando aquela de levantou para dançar, sua neta a acompanhou, mas as outras senhoras não deixaram dissendo: é só sua vó.
Esta terça, o pessoal do Lions chegou muito cedo, o que impossibilitou de ficarmso mais tempo lá. Quando James perguntou a eles se haviam levado o poema, ninguém lembrou de levar. E alguns idosos vieram me perguntar o que era um poema.
BOm, após relatar o contato com os idosos, agora posso explicar o porquê da chama do dragão. Como o pessoal do lions chegaram mais cedo e já ficaram lá com os idosos, voltamos com Marcus. Ele entrou no carro e nós saímos do clube, ao chegar na porta ele já havi aligado o carro, e nós estávamos na porta, até que ele gritou: venham! E nós entramos no carro. ele perguntou-nos: pensou qeu iria deixar vocês? e assim completou: Eu não. Marcus Monteiro só tem um, eu sou único...
Adorei essa pérola, e como disse james: imagine se tivesse 2?
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Diário de um Bardo...
Primeiro, minhas sinceras desculpas. O meu computador - que possui mais personalidade que eu - não me deixava registrar, aqui, os meus (di) sabores. Meu acesso à internet estava, até agora, limitado pela vontade arbitrária da Placa-Mãe, arquetípica ou não. Então, numa Segunda-Feira à noite, aproveito o bom humor da minha Máquina, e consigo ter acesso aos nossos preciosos arquivos. Relato, agora, as minhas experiências de quase-uma-semana atrás. Eis a minha parte desta Terça...
Chego no Lyons. Sim! Começemos pelo começo, ao menos desta vez. A descrição de meus caminhamentos, literais ou não, já foram expressos em impressos anteriores (e interiores...). Focarei, neste escrito, os ocorridos na atividade e tão somente nela. Entro no clube antes das duas horas, marco sagrado para o início do ritual, mas uma conversa já estava sendo estruturada entre Marcos e os demais. Sim, os demais! Afinal, ele é que se sobressai nestes colóquios. Ouço sua lalação infinita - verdadeiro discurso ex catedra - enquanto noto os balançares de cabeça dos senhores, como uma ladainha litúrgica proferida diante do altar. Entre auto-elogios, egos inflados e megalomanias, percebo que o sumo sacerdote estava a falar de uma visita à praia, que ocorreria na Sexta, dia 24. Os velhos olhos vidravam com o passeio em potência (em ônibus da Universidade, vale salientar...), mas parece que a possibilidade pura não encontrou manifestação. Encontrando Marcos, no RESUN, Quinta, soube que o passeio estava adiado (Terças, Quintas, Sextas... partes e repartes demais...).
Voltemos. Depois da retórica nada gorgiana de nosso orador, começamos os rotineiros exercícios. Mas tentei um observar diferente. Tentei ver o que ainda não tinha visto, intrometer-me no que julgava não ser meu problema, dar importância ao que antes jogava fora. Vi o Reginaldo, menino de rugas todo franzino, receber - na boca! - um copo d´água das mãos de sua mulher. Ri com as peripécias do Seu Óto e os comentários da Cumadi Jô. Escutei, atento, as reclamações de Heloísa sobre o vestido encomendado para os eventos do grupo não possuir medidas cartesianas ao seu corpo. E, falando em corpo, embasbaquei-me com a nonidecenária Joana, tocando o chão sem dobrar os joelhos... Bem, após mais uma homilia sobre os benefícios da correta respiração, eu respiro. Suspiro. Inspiro e sou inspirado pelo que ocorre depois...
Entra em palco, cheio de atores e suas experiências, uma criança. Bela. Entre todos aqueles Serafins e Potestades, surge um querubim. Nasceu em mim, naquele agora, uma dualidade que quase me fez reminescer as idéias puras do Platão velho. Deixar o devaneio e a metáfora de lado seria o mesmo que mentir. O menino entra na roda, atravessa nossos corpos e vai até o canto do salão, buscar uma cadeira. Salta o degrau, alto demais para suas pretensões e, fechadas suas asas, fica a observar aquela realidade que não é a sua. Aquela distopia que, para ele, nunca virá-a-ser lugar comum. O menino pregou uma peça em mim, uma peça que eu não soube encenar naquele mágico teatro. E eu fiquei a vislubrar o mundo outro vivenciado por aquela criança. Olhos cansados mirando o infante. Olho vidrado fitando o além. Olhos querendo fechar e olho querendo se abrir para o que ainda não se é. Outros olhos...
Chego no Lyons. Sim! Começemos pelo começo, ao menos desta vez. A descrição de meus caminhamentos, literais ou não, já foram expressos em impressos anteriores (e interiores...). Focarei, neste escrito, os ocorridos na atividade e tão somente nela. Entro no clube antes das duas horas, marco sagrado para o início do ritual, mas uma conversa já estava sendo estruturada entre Marcos e os demais. Sim, os demais! Afinal, ele é que se sobressai nestes colóquios. Ouço sua lalação infinita - verdadeiro discurso ex catedra - enquanto noto os balançares de cabeça dos senhores, como uma ladainha litúrgica proferida diante do altar. Entre auto-elogios, egos inflados e megalomanias, percebo que o sumo sacerdote estava a falar de uma visita à praia, que ocorreria na Sexta, dia 24. Os velhos olhos vidravam com o passeio em potência (em ônibus da Universidade, vale salientar...), mas parece que a possibilidade pura não encontrou manifestação. Encontrando Marcos, no RESUN, Quinta, soube que o passeio estava adiado (Terças, Quintas, Sextas... partes e repartes demais...).
Voltemos. Depois da retórica nada gorgiana de nosso orador, começamos os rotineiros exercícios. Mas tentei um observar diferente. Tentei ver o que ainda não tinha visto, intrometer-me no que julgava não ser meu problema, dar importância ao que antes jogava fora. Vi o Reginaldo, menino de rugas todo franzino, receber - na boca! - um copo d´água das mãos de sua mulher. Ri com as peripécias do Seu Óto e os comentários da Cumadi Jô. Escutei, atento, as reclamações de Heloísa sobre o vestido encomendado para os eventos do grupo não possuir medidas cartesianas ao seu corpo. E, falando em corpo, embasbaquei-me com a nonidecenária Joana, tocando o chão sem dobrar os joelhos... Bem, após mais uma homilia sobre os benefícios da correta respiração, eu respiro. Suspiro. Inspiro e sou inspirado pelo que ocorre depois...
Entra em palco, cheio de atores e suas experiências, uma criança. Bela. Entre todos aqueles Serafins e Potestades, surge um querubim. Nasceu em mim, naquele agora, uma dualidade que quase me fez reminescer as idéias puras do Platão velho. Deixar o devaneio e a metáfora de lado seria o mesmo que mentir. O menino entra na roda, atravessa nossos corpos e vai até o canto do salão, buscar uma cadeira. Salta o degrau, alto demais para suas pretensões e, fechadas suas asas, fica a observar aquela realidade que não é a sua. Aquela distopia que, para ele, nunca virá-a-ser lugar comum. O menino pregou uma peça em mim, uma peça que eu não soube encenar naquele mágico teatro. E eu fiquei a vislubrar o mundo outro vivenciado por aquela criança. Olhos cansados mirando o infante. Olho vidrado fitando o além. Olhos querendo fechar e olho querendo se abrir para o que ainda não se é. Outros olhos...
sábado, 25 de outubro de 2008
Tricotando na feira
Do início da manhã anterior escrevo na manhã de hoje, sem a possibilidade de chuva a vista como aconteceu. Essa estação nos deixa sem saber como sair com esse chove-ou-não-chove, mas ainda assim a rotina não pára, a feira não pára e nem deixa de acontecer todas as sextas (com exceção nas eleições que foi numa quinta, lembro-me agora). Do mesmo jeito que tinha que continuar acordando mesmo quando até os sonhos nos pregam uma peça, que nem São Pedro quando resolve fazer chover quando se está sem guarda-chuva.
Como guardava resquícios de conversa da tarde anterior, que não foi comprida, mas suficiente pra me deixar sem voz, estava muito distraída sem notar direito a feira. Dei uma volta e sentei na praça. Sem perceber que estava envolvida, acompanhava os passos de dois homens que ainda arrumavam a banca com melancias, melões, abóboras e laranjas. Atrasados. Já quando toda a feira estava a postos, um ia buscar no carrinho-de-mão as frutas e verduras enquanto outro bem lentamente as arrumava da melhor maneira.
Em pouco tempo perco de vista o do carrinho-de-mão e o que arruma ainda lá como se o tempo pra ele não passasse. Arrumava as melancias de um jeito no chão, depois colocava umas em cima da outra, depois tirava... Nesse vai-e-vem de melancia o fiscal-todo-pompudo passa e diz pra ou usar a banca ou usar o chão porque estava no meio do caminho. O todo-pompudo não foi delicado e talvez nem fizesse questão de ser, e logo os olhares se voltaram para vê-lo falar. Nem sequer parou. Falando e andando.
Estava realmente tomando metade do estreito espaço de passagem e o homem-que-arrruma não se preocupava com isso ou nem prestou atenção que aquilo ali começava a engarrafar. Engarrafamento humano é engraçado, ainda bem que as pessoas não têm buzina e os obstáculos do caminho eram melancias e não buracos. Nem as reclamações do menino do carrinho-de-mão que se apertou pra passar nem o comentário maldoso do vendedor-ambulante-de-bebidas sobre o quanto estaria pagando pra deixar as coisas no meio do caminho fizeram efeito quanto o todo-pompudo. Afinal, ele tem uma camisa preta com um FISCAL enorme em letras grafais brancas.
Não faça feira de cabeça quente! Beba gelada! – grita o vendedor-ambulante-de-bebidas.
E se não tiver gelada? – grita uma voz de não-sei-onde.
Bebe uma quente!
Uma gelada! Esse aí é esperto viu. Uma gelada naquele calor até que não era mal, mas a minha viria à noite.
Saio dali pra ver o que vejo pela frente. Compro erva pra chá. Tropeço num tomate estragado. Esbarro numa pequena na frente. Desculpas. E sigo adiante. Á frente Zefinha e a mulher-das-bugingangas. Pergunto como está Zefinha que me diz que está bem, mas que se queimou com a água quente do caranguejo e me mostra o colo queimado. Diz que na sexta passada “o menino” (se referia a João) perguntou por mim e eu não voltei mais, quando disse que voltava. Logo dali vem a mulher das bugigangas dizendo que tinha pensando em mim agora e perguntou sobre o menino bonitinho do cabelo enrolado.
Chamo pra sair do sol e as duas vão sentar comigo. Conversa vai, conversa vem, o assunto sobre crochê aparece quando Naninha (é como se chama a outra) vem de lá com uma blusa e umas agulhas. Digo que aprendi a fazer essa semana e as duas desatam logo a falar que faziam de tudo! Zefinha disse mesmo que tinha um monte de linha que nunca tinha usado por pena, mas o ladrão roubou tudo. Pra usar por ela, possivelmente. Sei que foi um tricotar sem fim, mesmo o assunto sendo crochê e não tricô, já que as outras duas não sabiam fazer, só eu mesmo. Falo que queria aprender a fazer uma florzinha pra pôr no cabelo. E não é que a mulher me tira uma linha de não sei onde, parecendo gato Félix que tira tudo da bolsa, e começa a me ensinar como se faz.
Enquanto trabalhavam, eu aprendia a florzinha. Mas fui logo interrompida pela ameaça de São Pedro e me prontifiquei a ajudar Naninha nas pressas desarrumar tudo. Chuva! E das boas! Nos protegemos na banca da Zefinha e foi quando Naninha perguntou o que eu tanto fazia ali na feira toda sexta. Fui simples, a relutância em me identificar ainda está presente, e falei que era pra estudar como a feira funciona e que converso com as pessoas porque gosto. É uma pesquisa? Pesquise eu! Disse ela. Ri e levei as duas na risada comigo e não falei mais nada. Esperta essa!
Aproveitei a trégua da chuva pra ir para o ponto de ônibus. Despedi-me das duas com Zefinha me perguntando se vinha na próxima sexta e Naninha mandando levar mais linha pra me ensinar mais coisas. Explico que vou viajar e que só as vejo na outra sexta. O sol já vinha de lá pra esquentar tudo de novo. Acho graça dessa estação que não sabe o que quer e como me identifiquei na hora com isso. Entro no ônibus rindo sozinha de canto de boca. Bom dia!
Foi disso que me fiz essa sexta.
Como guardava resquícios de conversa da tarde anterior, que não foi comprida, mas suficiente pra me deixar sem voz, estava muito distraída sem notar direito a feira. Dei uma volta e sentei na praça. Sem perceber que estava envolvida, acompanhava os passos de dois homens que ainda arrumavam a banca com melancias, melões, abóboras e laranjas. Atrasados. Já quando toda a feira estava a postos, um ia buscar no carrinho-de-mão as frutas e verduras enquanto outro bem lentamente as arrumava da melhor maneira.
Em pouco tempo perco de vista o do carrinho-de-mão e o que arruma ainda lá como se o tempo pra ele não passasse. Arrumava as melancias de um jeito no chão, depois colocava umas em cima da outra, depois tirava... Nesse vai-e-vem de melancia o fiscal-todo-pompudo passa e diz pra ou usar a banca ou usar o chão porque estava no meio do caminho. O todo-pompudo não foi delicado e talvez nem fizesse questão de ser, e logo os olhares se voltaram para vê-lo falar. Nem sequer parou. Falando e andando.
Estava realmente tomando metade do estreito espaço de passagem e o homem-que-arrruma não se preocupava com isso ou nem prestou atenção que aquilo ali começava a engarrafar. Engarrafamento humano é engraçado, ainda bem que as pessoas não têm buzina e os obstáculos do caminho eram melancias e não buracos. Nem as reclamações do menino do carrinho-de-mão que se apertou pra passar nem o comentário maldoso do vendedor-ambulante-de-bebidas sobre o quanto estaria pagando pra deixar as coisas no meio do caminho fizeram efeito quanto o todo-pompudo. Afinal, ele tem uma camisa preta com um FISCAL enorme em letras grafais brancas.
Não faça feira de cabeça quente! Beba gelada! – grita o vendedor-ambulante-de-bebidas.
E se não tiver gelada? – grita uma voz de não-sei-onde.
Bebe uma quente!
Uma gelada! Esse aí é esperto viu. Uma gelada naquele calor até que não era mal, mas a minha viria à noite.
Saio dali pra ver o que vejo pela frente. Compro erva pra chá. Tropeço num tomate estragado. Esbarro numa pequena na frente. Desculpas. E sigo adiante. Á frente Zefinha e a mulher-das-bugingangas. Pergunto como está Zefinha que me diz que está bem, mas que se queimou com a água quente do caranguejo e me mostra o colo queimado. Diz que na sexta passada “o menino” (se referia a João) perguntou por mim e eu não voltei mais, quando disse que voltava. Logo dali vem a mulher das bugigangas dizendo que tinha pensando em mim agora e perguntou sobre o menino bonitinho do cabelo enrolado.
Chamo pra sair do sol e as duas vão sentar comigo. Conversa vai, conversa vem, o assunto sobre crochê aparece quando Naninha (é como se chama a outra) vem de lá com uma blusa e umas agulhas. Digo que aprendi a fazer essa semana e as duas desatam logo a falar que faziam de tudo! Zefinha disse mesmo que tinha um monte de linha que nunca tinha usado por pena, mas o ladrão roubou tudo. Pra usar por ela, possivelmente. Sei que foi um tricotar sem fim, mesmo o assunto sendo crochê e não tricô, já que as outras duas não sabiam fazer, só eu mesmo. Falo que queria aprender a fazer uma florzinha pra pôr no cabelo. E não é que a mulher me tira uma linha de não sei onde, parecendo gato Félix que tira tudo da bolsa, e começa a me ensinar como se faz.
Enquanto trabalhavam, eu aprendia a florzinha. Mas fui logo interrompida pela ameaça de São Pedro e me prontifiquei a ajudar Naninha nas pressas desarrumar tudo. Chuva! E das boas! Nos protegemos na banca da Zefinha e foi quando Naninha perguntou o que eu tanto fazia ali na feira toda sexta. Fui simples, a relutância em me identificar ainda está presente, e falei que era pra estudar como a feira funciona e que converso com as pessoas porque gosto. É uma pesquisa? Pesquise eu! Disse ela. Ri e levei as duas na risada comigo e não falei mais nada. Esperta essa!
Aproveitei a trégua da chuva pra ir para o ponto de ônibus. Despedi-me das duas com Zefinha me perguntando se vinha na próxima sexta e Naninha mandando levar mais linha pra me ensinar mais coisas. Explico que vou viajar e que só as vejo na outra sexta. O sol já vinha de lá pra esquentar tudo de novo. Acho graça dessa estação que não sabe o que quer e como me identifiquei na hora com isso. Entro no ônibus rindo sozinha de canto de boca. Bom dia!
Foi disso que me fiz essa sexta.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Cidade e Campo
Segui Marco Polo, o viajante veneziano, por alguns poucos quilômetros até chegarmos à Contemporânea, cidade do atual. Sob o sol escaldante procuramos um lugar para comer e dormir; bastava-nos isso, aquilo que é fundamental ao corpo, o simples e básico. Porém, encontramos suntuosos hotéis sem cama, onde havia festa o dia inteiro e ninguém dormia ou se alimentava. Buscamos em grande parte, mas vencidos pelo cansaço, alojamo-nos numa praça ao anoitecer.
A cidade não parava, mergulhada em seu movimento não éramos notados pelos olhos que saltavam sobre nós; indiferentes cada hora que passava pareciam ainda mais distante. Então, como que em balbucios, Polo diz: - Das cidades que visitei, Contemporânea é a que se distancia mais depressa, são estes seus signos, esta é sua simbologia. Pensei sobre aquela frase com cuidado até que minhas ultimas forças sumissem. Guardei-a comigo.
Pela manhã acordamos em meio à movimentação frenética. Era uma feira! Será que Contemporânea havia se distanciado em demasia durante a noite abrindo um buraco no espaço e tempo onde havíamos caído sem nem ao menos perceber? Caminhamos abobalhados com tamanho paradoxo entre as imagens e as sensações do atual e da noite anterior, quando a cidade ficava mais e mais distante. Eis que vimos um velho senhor sentado em um banco com seu violão contando versos para algumas crianças, logo, paramos para atentar.
As palavras musicadas diziam sobre História, uma cidade mais antiga que Contemporânea e bastante diferente. História era uma cidade de proximidades, nada além de dois quilômetros de distância, todos se sentiam visinhos, a vida se dava nos arredores. Sua arquitetura e urbanismo falavam de relações das pessoas que a habitavam, ruas estreitas, pequenas casas variadas de um só cômodo, separação pouco nítida entre o público e o privado – talvez até mesmo desconhecida. A cidade era o símbolo do encontro, aonde as pessoas iam para trocar, a cidade era o símbolo dos símbolos. Porém, ainda não distante daquilo que garantia sua condição de ser vivo: o campo.
Não entendi ao certo se o velho disse que Contemporânea apareceu da palavra distante, ou se tudo se deu ao contrário, quando apareceu Contemporânea fundou-se a palavra distante. No entanto, a relação entre História e Contemporânea era conflituosa, pouco a pouco a primeira, submetida à força da segunda, viu suas práticas e símbolos desaparecerem ou serem capturados. Contemporânea substituiu gradualmente o conjunto simbólico que era característico de História, implementando práticas e símbolos do distanciamento: enquanto História tinha ruelas estreitas, o que tornava as pessoas mais próximas, Contemporânea alarga suas ruas, distancia suas margens de passantes menos abastados permitindo o fluxo de veículos abastados transitar rapidamente, por exemplo. As duas dizem de modos de subjetivação diferentes, o que significa que nem uma, nem outra devem ser naturalizadas, porém circunstanciais.
A feira acabou, e o que a substituiu foi um fluxo louco de carros e gentes indo nas mais diversas direções sem dar nó, era Contemporânea que não havia sumido apenas distanciado. Marco Polo sugeriu irmos à próxima cidade, pois estas são feitas de folhas, flores e frutos, quase nada têm de raiz. Disse-lhe que é preciso demorar-se e ver nas fissuras as cidades invisíveis dentro da cidade.
A cidade não parava, mergulhada em seu movimento não éramos notados pelos olhos que saltavam sobre nós; indiferentes cada hora que passava pareciam ainda mais distante. Então, como que em balbucios, Polo diz: - Das cidades que visitei, Contemporânea é a que se distancia mais depressa, são estes seus signos, esta é sua simbologia. Pensei sobre aquela frase com cuidado até que minhas ultimas forças sumissem. Guardei-a comigo.
Pela manhã acordamos em meio à movimentação frenética. Era uma feira! Será que Contemporânea havia se distanciado em demasia durante a noite abrindo um buraco no espaço e tempo onde havíamos caído sem nem ao menos perceber? Caminhamos abobalhados com tamanho paradoxo entre as imagens e as sensações do atual e da noite anterior, quando a cidade ficava mais e mais distante. Eis que vimos um velho senhor sentado em um banco com seu violão contando versos para algumas crianças, logo, paramos para atentar.
As palavras musicadas diziam sobre História, uma cidade mais antiga que Contemporânea e bastante diferente. História era uma cidade de proximidades, nada além de dois quilômetros de distância, todos se sentiam visinhos, a vida se dava nos arredores. Sua arquitetura e urbanismo falavam de relações das pessoas que a habitavam, ruas estreitas, pequenas casas variadas de um só cômodo, separação pouco nítida entre o público e o privado – talvez até mesmo desconhecida. A cidade era o símbolo do encontro, aonde as pessoas iam para trocar, a cidade era o símbolo dos símbolos. Porém, ainda não distante daquilo que garantia sua condição de ser vivo: o campo.
Não entendi ao certo se o velho disse que Contemporânea apareceu da palavra distante, ou se tudo se deu ao contrário, quando apareceu Contemporânea fundou-se a palavra distante. No entanto, a relação entre História e Contemporânea era conflituosa, pouco a pouco a primeira, submetida à força da segunda, viu suas práticas e símbolos desaparecerem ou serem capturados. Contemporânea substituiu gradualmente o conjunto simbólico que era característico de História, implementando práticas e símbolos do distanciamento: enquanto História tinha ruelas estreitas, o que tornava as pessoas mais próximas, Contemporânea alarga suas ruas, distancia suas margens de passantes menos abastados permitindo o fluxo de veículos abastados transitar rapidamente, por exemplo. As duas dizem de modos de subjetivação diferentes, o que significa que nem uma, nem outra devem ser naturalizadas, porém circunstanciais.
A feira acabou, e o que a substituiu foi um fluxo louco de carros e gentes indo nas mais diversas direções sem dar nó, era Contemporânea que não havia sumido apenas distanciado. Marco Polo sugeriu irmos à próxima cidade, pois estas são feitas de folhas, flores e frutos, quase nada têm de raiz. Disse-lhe que é preciso demorar-se e ver nas fissuras as cidades invisíveis dentro da cidade.
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